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Trump injetou energia nos esforços de paz e ajudou a garantir o futuro da Europa. Nada mau - pena é a falta de atenção aos detalhes

CNN , Análise de Stephen Collinson
22 ago 2025, 17:51
Trump Putin cimeira

ANÁLISE || Para um presidente que anseia por respeito e validação histórica, Trump tem tido conquistas genuínas que podem salvar milhares de vidas na Ucrânia. Mas o problema é mesmo o "podem salvar milhares de vidas" - que é diferente de "estão a salvar milhares de vidas"

Uma semana depois de Trump ter dado um abraço a Putin, os esforços de paz na Ucrânia não chegam a lado nenhum

Análise de Stephen Collinson, CNN

 

As mensagens políticas não podiam ser mais diretas do que os mísseis russos que atingiram uma empresa industrial americana na madrugada de quarta-feira no oeste da Ucrânia, a centenas de quilómetros das trincheiras da linha de frente de uma guerra sem fim à vista.

O ataque, que faz parte das mais intensas investidas com drones e mísseis russos à Ucrânia há mais de um mês, acaba por pontuar a inflexível diplomacia de Moscovo, que está a paralisar os esforços de paz do presidente norte-americano, Donald Trump.

Faz já uma semana desde que Trump aplaudiu o presidente russo, Vladimir Putin, numa passadeira vermelha no Alasca. O presidente dos EUA orquestrou um espetáculo, com direito a sessões fotográficas dignas de estadistas com líderes europeus. E a Casa Branca proclamou avanços impressionantes. Contudo, a realidade subjacente da guerra praticamente não mudou.

A Rússia continua a bombardear e a atacar civis ucranianos com recurso a drones. Além disso, levantou novos obstáculos à pressa de Trump para se alcançar uma paz, contradizendo as indicações dos EUA de que o Kremlin tinha feito concessões. O que tem sido verdade nos três anos e meio desde a invasão da Ucrânia continua a ser verdade agora para a Rússia. Putin não quer acabar com a guerra. E continua a ser uma quimera o cenário de uma cimeira entre os líderes russos e ucranianos - com Trump a poder marcar presença -, que a administração norte-americana previu que poderia acontecer já no final desta semana.

As manobras de bloqueio da Rússia são lideradas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, que é um mestre nas artes obstrucionistas da União Soviética: aprendeu quando era um jovem diplomata, antes da queda do Muro de Berlim. Na quinta-feira, Lavrov procurou reabrir as fraturas entre os EUA e a Europa que Putin tinha provocado no Alasca, condenando os aliados dos EUA. “Vejo muitos sinais de que esta atividade visa precisamente minar o progresso que começou a surgir, claramente emergente, como uma cimeira no Alasca", afirmou Lavrov.

A estratégia russa é clara: atrasar a diplomacia o máximo possível, para permitir que a sangrenta e árdua estratégia militar de Putin consiga ganhos na linha da frente.

A realidade da Ucrânia também não mudou. O presidente Volodymyr Zelensky continua a tentar apaziguar Trump, mostrando-se aberto a qualquer sugestão que o presidente americano faça. Escapou da sua viagem à Casa Branca, na segunda-feira, sem outra desastrosa explosão. Contudo, continua a não poder aceitar a paz envenenada que Putin oferece. Ceder às exigências russas de transferência de territórios estratégicos na região crítica do Donbass prepararia Moscovo para um novo ataque surpresa contra Kiev no futuro. Não é claro se Trump compreende isto.

O presidente Donald Trump ouve o presidente russo, Vladimir Putin, durante uma conferência de imprensa na base conjunta de Elmendorf-Richardson, no Alasca, a 15 de agosto de 2025 foto Julia Demaree Nikhinson/AP

Os principais líderes europeus deram uma impressionante demonstração de unidade na Casa Branca na passada segunda-feira: tentaram, de uma forma desesperada, afastar Trump de Putin após várias concessões feitas pelo presidente americano ao líder russo. Todavia, o plano europeu para garantir a segurança da Ucrânia no pós-guerra continua a parecer demasiado vago. E esse cenário não pode tornar-se uma realidade sem Trump.

Qualquer plano desse género assentaria em duas condições. Primeiro, que o Reino Unido e França, os líderes da “coligação dos países dispostos”, estivessem, se fosse necessário, prontos para entrar em guerra — com a ajuda dos EUA — contra a Rússia, no sentido de defender a Ucrânia. Segundo, que Moscovo assinasse um acordo de paz que vinculasse as tropas ocidentais à Ucrânia, num acordo de defesa mútua. Ambos os cenários são uma fantasia.

Ainda assim, Trump merece crédito por injetar energia nos esforços de paz. É o único líder que pode falar com os dois lados, que tem o poder para convocar um presidente russo aos EUA, que é capaz de reunir líderes aliados em Washington num piscar de olhos. E embora Trump, muitas vezes, se incline mais para o lado de Putin do que para o lado dos seus aliados ocidentais, não forçou a Ucrânia a render-se, como muitos dos seus críticos temiam. A pressão que tem feito sobre os aliados da NATO para que gastem mais em defesa irá ajudar a garantir o futuro da Europa. Para um presidente que anseia por respeito e validação histórica, trata-se de uma conquista genuína que pode salvar milhares de vidas na Ucrânia.

Uma semana é também um tempo absurdamente curto para avaliar um esforço de paz. Os esforços de paz em locais como a Bósnia ou a Irlanda do Norte desenvolvem eram-se ao longo de meses e anos de complexa diplomacia. Contudo, é essa mesma atenção aos detalhes aquilo que falta a Trump. O presidente americano e o seu enviado Steve Witkoff, que também é promotor imobiliário, falam de uma forma despreocupada sobre a possibilidade de a Ucrânia fazer trocas de territórios — sem, aparentemente, compreender as agonizantes escolhas que tal implicaria, que estão enraizadas na identidade nacional e no sangue derramado para defender as regiões-chave.

E há perguntas perenes sobre Trump que estão a surgir de novo. Porque é que ele não impõe a pressão dos EUA, que poderia forçar uma flexibilização de uma linha mais dura da Rússia? E porque é que ele deposita a sua confiança num líder russo cujas ações merecem a postura contrária?

A fé de Trump em Putin ficou evidente num momento de microfone aberto na Casa Branca na segunda-feira.

“Acho que ele quer fazer um acordo comigo, compreende? Por mais louco que isso possa parecer”, disse ao presidente francês Emmanuel Macron.

É difícil acreditar nas palavras de Trump

Na quinta-feira, Trump pareceu expressar a sua frustração com o impasse, numa enigmática publicação nas redes sociais, que sugeria o apoio aos ataques ucranianos em solo russo. “É muito difícil, se não impossível, ganhar uma guerra sem atacar o país invasor”, escreveu. “É como uma grande equipa de desporto, que tem uma defesa fantástica, mas não pode jogar ao ataque”.

Contudo, é possível tirar uma lição da semana passada: não é sensato enfatizar qualquer comentário isolado do presidente dos EUA. Trump tem sido muito contraditório. Na segunda-feira, por exemplo, pareceu sugerir abertura para que as tropas americanas servissem como força de segurança no pós-guerra na Ucrânia. Recuou rapidamente após protestos nos meios de comunicação social a favor do movimento Make America Great Again.

Uma semana depois do encontro com Putin, a reputação de Trump, bem como a imagem de homem forte que cultiva de forma incessante, parecem prestes a passar por uma situação embaraçosa. Foi novamente enganado. Tal enfraquece a lógica central desta sua presidência: a de que é o maior negociador do mundo.

 

O presidente Donald Trump fala numa reunião com líderes europeus na Casa Branca, em Washington, a 18 de agosto de 2025 (Tom Brenner/The Washington Post/Getty Images)

Atacar nações menores com tarifas e intimidar os europeus que dependem dos EUA para a sua defesa é uma coisa. Contudo, o encontro de Trump com Putin, bem como o seu fracasso em levar a melhor sobre o líder chinês Xi Jinping numa guerra comercial, sugerem que os verdadeiros homens duros fazem pouco da sua mitologia da «Arte do Negócio».

Antes de retirar da mesa as sanções mais duras contra a Rússia, a ameaça que terá atraído Putin ao Alasca, Trump queixou-se de que Putin estava pronto para negociar a paz. Contudo, pouco depois, enviou um conjunto de mísseis mortais para a Ucrânia.

E é algo que se tem estado a repetir.

Na madrugada de quarta-feira, a Rússia matou nove civis quando 574 drones e 40 mísseis atingiram a Ucrânia, incluindo a cidade de Lviv, perto da fronteira com a Polónia. Outras 19 pessoas ficaram feridas num ataque contra uma empresa de origem americana, a Flex Ltd, na região ocidental de Zakarpattia. Vindo de uma nação tão sintonizada com o simbolismo como a Rússia de Putin, é improvável que tal tenha sido uma mera coincidência.

“Os russos sabiam exatamente o que estavam a atacar”, referiu Zelensky no seu discurso noturno na quinta-feira. “Acreditamos que este foi um ataque deliberado contra propriedades americanas aqui na Ucrânia, contra investimentos americanos”.

A versão da Casa Branca parece ter sido concebida para encobrir a falta de progressos esta semana.

“É muito importante lembrar que, antes da esmagadora vitória do presidente Trump em novembro passado, não havia fim à vista para este derramamento de sangue”, afirmou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, na quarta-feira. “Agora, poderá finalmente haver uma luz ao fundo do túnel, uma oportunidade para uma paz duradoura. Isto porque o presidente Trump é o presidente da paz”.

Leavitt criticou os especialistas que vieram questionar a abordagem de Trump, acusando os jornalistas de sabotar o processo para prejudicar o líder dos EUA.

A incapacidade de Trump avaliar, de uma forma objetiva, os obstáculos a este processo de paz é uma das razões pelas quais se corre o risco de que venha a fracassar. O presidente dos EUA está também disposto a ceder às posições de Putin sem obter qualquer postura mais flexível como moeda de troca. A isto junta-se o repetido fracasso do governo em interpretar, com precisão, as posições russas.

Uma das áreas em que houve progresso é a da abertura do presidente para atuar como um apoio à garantia de segurança europeia para a Ucrânia no pós-guerra – algo que poderia levar pilotos americanos em missões de apoio aéreo. O secretário de Estado Marco Rubio realizou uma teleconferência sobre o assunto na quinta-feira com conselheiros de segurança europeus.

Rubio, que também atua como conselheiro de segurança dos EUA, disse aos homólogos que os EUA estavam dispostos a ter um papel limitado, com a Europa a ter de assumir a liderança, segundo um diplomata europeu que participou na chamada.

Trump muda de posição para se alinhar com Putin

Trump chegou com otimismo à cimeira realizada há uma semana, acreditando que ia estabelecer o cessar-fogo que a Ucrânia e a Europa dizem ser um pré-requisito para uma diplomacia séria. Contudo, após algumas horas reunido com Putin, mudou de ideias: concluiu que seria melhor pressionar para se alcançar um acordo de paz completo e definitivo. Essa é também a posição da Rússia.

No fim de semana, Witkoff insistiu, no programa “State of the Union” da CNN, que Putin tinha assinalado a necessidade de garantias de segurança “robustas” para a Ucrânia, como parte de qualquer acordo final.

Qualquer pessoa com conhecimento da história recente sabe que tal parecia suspeito. E foi o que se confirmou, com Lavrov a confirmar que Moscovo mantém a sua posição de longa data de que deve ser um desses garantes — trata-se de uma sugestão risível após a invasão, mas que procura cimentar o objetivo de Putin de tornar a Ucrânia um estado vassalo da Rússia.

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, chega à primeira sessão plenária da cimeira do BRICS no Rio de Janeiro, Brasil, a 6 de julho de 2025 (Mauro Pimentel/AFP/Getty Images/Arquivo)

Na segunda-feira, Trump falava com confiança sobre uma reunião entre Zelensky e Putin, que teria lugar até ao final desta semana. Disse mesmo que seria provável que ele mesmo participasse no encontro. Contudo, adotou agora a posição da Rússia, de que uma reunião bilateral entre Zelensky e Putin seria a melhor opção. É algo que seria arriscado para a Ucrânia: seria provável que o líder russo usasse a ausência de Trump para retratar Zelensky como um líder intransigente e o culpasse por atrasar a paz.

E isto partindo do princípio de que Putin marcaria presença. O presidente russo deixou claro que considera Zelensky um líder ilegítimo e que não vê a Ucrânia como um estado independente.

De qualquer forma, Lavrov está a ganhar tempo. Na quinta-feira, propôs uma sequência trabalhosa de “conversas” entre “ministros especialistas” e “recomendações apropriadas” para considerar uma cimeira.

Uma visão realista da atual situação

Não é tornado público tudo o que acontece num processo diplomático. Por isso, apesar do clima pouco promissor, um trabalho diligente nos bastidores e pressão podem começar a atenuar algumas divergências.

Todavia, uma semana depois do encontro no Alasca, Putin mostra que quer continuar o conflito. Zelensky não pode desistir e a Europa não pode fazer a paz sozinha. Cabe a Trump atuar. Será que vai adotar uma postura mais dura e dedicar-se aos detalhes para forjar um genuino processo de paz?

O diagnóstico mais preciso desta tortuosa trajetória, que temos todos pela frente, foi apresentado no passado domingo pelo secretário de Estado Marco Rubio, um conselheiro de Trump que não ameniza a situação.

“Ainda estamos muito longe”, disse Rubio à ABC. “Quero dizer, não estamos à beira de um acordo de paz; não estamos nem perto”.

Clare Sebastian, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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