Trump acaba de atirar "Zelensky para baixo do autocarro" porque tem uma dívida para com "o pessoal dos petróleos e das tecnológicas"

20 jan 2025, 22:26
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ANÁLISE || O discurso de tomada de posse do 47.º presidente dos EUA demorou cerca de 30 minutos, tempo suficiente para Trump até falar de Marte mas tempo insuficiente para mencionar as guerras que deixam parte do mundo em pânico. Trump omitiu deliberadamente a Ucrânia e o Médio Oriente e isso não foi inocente - alguma coisa o é com Trump?

Trump falou no seu discurso de tomada de posse sobre a fronteira sul dos Estados Unidos, sobre a mudança de nome de "Golfo do México" para "Golfo da América", sobre a vontade de tomar para a América o Canal do Panamá, falou também sobre identidade - diz que nos EUA só vai passar a haver género masculino e feminino e that's it -, até fez considerações planetárias porque quer "colocar a bandeira dos EUA em Marte", mas sobre as guerras em curso - Ucrânia, Médio Oriente - ou sobre as que se temem que fiquem em curso - Taiwan - houve praticamente nada. Ou nada mesmo.

Para o major-general Agostinho Costa, esta decisão tem um motivo claro: essas guerras "não são prioridade" para a nova Administração dos EUA. "Para já, as prioridades de Trump vão ser a fronteira sul, os cartéis da droga no México, a questão do Canal do Panamá, tudo aquilo que referiu no discurso, que foi fundamentalmente direcionado para questões internas e para uma nova doutrina. Nada disto passa pela Ucrânia nem pelo Médio Oriente, não obstante que, entre um e outro, o Médio Oriente é uma prioridade muito maior para Trump do que é a Ucrânia."

O especialista em assuntos militares considera que o que ficou claro esta segunda-feira "é que há dois mundos diferentes dentro dos EUA", lembrando que "enquanto o apoio a Biden vem da base tecnológica e industrial de Defesa, o apoio a Trump vem dos petróleos e das tecnológicas, até ao ponto de um dos magnatas - Elon Musk - estar no governo".

Se com Trump a prioridade norte-americana deixa de ser a base tecnológica e industrial de Defesa, quem é que vai alimentar então? A Europa, responde Agostinho Costa, detalhando que "são os 5% que Trump vai impor à NATO": "Vai ser a transferência de capital europeu que vai alimentar a indústria militar americana, porque o capital americano vai estar orientado para coisas mais importantes como, nomeadamente, esta batalha da inteligência artificial e voltar novamente à produção dos hidrocarbonetos fósseis, porque foram precisamente aqueles que o apoiaram - o pessoal dos petróleos e o pessoal das tecnológicas". Entre "o pessoal das tecnológicas" o nome maior é talvez o de Elon Musk, acusado de ter feito uma saudação nazi neste dia da tomada de posse de Donald Trump.

"A Ucrânia vai ser o Vietname de Trump"

Mas dúvida: agora que deixou de ser uma das prioridades norte-americanas, como fica a Ucrânia? Agostinho Costa explica de modo tão sucinto quanto cru: "Zelensky vai ser positivamente lançado para baixo do autocarro". O experiente militar entende que a guerra vai rapidamente "ser delegada aos europeus e os europeus, se quiserem, que paguem a Ucrânia".

"E parece que a União Europeia está disposta a isto, porque a paixão pela Ucrânia continua. Pelo menos até que as populações, nas eleições, mudem ou tenham perceções diferentes. Portanto, vamos ter estas circunstâncias em funcionamento. Só que a União Europeia não é os Estados Unidos e a capacidade da União Europeia em apoiar a Ucrânia não é a mesma que tem os Estados Unidos", refere Agostinho Costa, resumindo que "União Europeia está num imbróglio que vai ter de resolver a muito curto prazo se não conseguir convencer Trump a manter o apoio à Ucrânia".

Agostinho Costa recorre à epifania do antigo conselheiro de Donald Trump Steve Bannon para explicar esta tentativa de fuga do novo Presidente ao assunto ucraniano: "A Ucrânia vai ser o Vietname de Trump". Isto porque, no entendimento de Agostinho Costa, Trump "herda" esta guerra de Biden, tal como aconteceu com os presidentes Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon - e fica com duas hipóteses: "Ou se descarta muito rapidamente ou fica atolado num pântano que está para dar e durar, porque enquanto os Estados Unidos mandam em Israel, na Ucrânia até podem conseguir mandar em Zelensky mas não mandam em Putin, como é óbvio, porque tem outra margem de manobra relativamente a Netanyahu".

Tendo em conta os últimos acontecimentos no Médio Oriente, Agostinho Costa tende a concordar com os analistas que dizem que "Trump terá encostado Netanyahu às cordas" e "impôs-lhe uma solução que, no mínimo, pode ser transitória". Isto porque "tudo o que se passa no Médio Oriente é transitório".

O especialista em assuntos militares entende que o cessar-fogo na Faixa de Gaza "pode ser uma mudança de fase e um novo ciclo", mas não o fim do conflito e das tensões no Médio Oriente. E é por isto que o novo presidente dos EUA quase ignorou o tema: "Estamos num ciclo em que Trump vai dirigir as suas preocupações para os interesses americanos e não para assuntos existenciais como a Palestina".

Apesar de tudo isso, o major-general lembra que "naturalmente Trump é alguém que apoia incondicionalmente Israel e defenderá sempre a posição de Israel, mas muito provavelmente não nesta linha que, ao fim de 15 meses, não sortiu nenhum resultado prático e levou à perda de vidas, de um lado e do outro, absolutamente desnecessária". "Israel teve mais de 800 mortos e na casa de mais de 10 mil feridos. É muito para um exército que se considera um exército avançado e a lutar contra uma força irregular."

O major-general acredita que só há uma guerra que realmente importa vencer na cabeça do novo presidente dos EUA: "A guerra da inteligência artificial - quem ganhar tem uma vantagem estratégica muito grande. É para aí que Trump está a apontar e, sinceramente, não está a pensar mal, na minha opinião".

Uma nota final: Agostinho Costa sublinha que "não deixa de ser interessante o facto de o secretário-geral da NATO não ter sido convidado para a tomada de posse" de Trump.

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