Três semanas sem parar: a Ucrânia está a destruir por dentro um dos motores da máquina de Putin

7 ago, 08:18
Ataque à Wildberries de São Petersburgo (AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O impacto é tal que o Banco Central da Rússia já foi obrigado a falar. Quando tiver de o fazer novamente as notícias vão ser ainda piores

Explosão, grande incêndio e chamas durante hora. E repete e repete. Este tem sido o cenário diário em grande parte da Rússia desde 18 de julho, dia em que a Ucrânia identificou um novo alvo bem no território do inimigo.

A Wildberries, uma espécie de Amazon da Rússia, não tem descanso desde então, tendo visto 20 dos seus armazéns atacados, muitos deles totalmente destruídos, até porque a natureza inflamável do recheio faz com que qualquer fogo se transforme rapidamente num incêndio de fumo negro e denso.

Vasily Klimov que o diga. Este retalhista que falou à agência Reuters tinha um pequeno negócio rentável, mas agora tem um buraco financeiro e está desesperado por vender o que ainda tem.

O homem gere quase 100 mil pontos de recolha na Rússia e nos países vizinhos, trabalhando na recolha de bens que são enviados através da Wildberries, a principal retalhista do país. À dimensão real não é relevante, mas à escala mostra bem o que a Ucrânia está a conseguir fazer, até porque as ligações da empresa à banca russa fazem com que este problema seja ainda maior do que podia parecer à primeira vista. A CNN Portugal explica essa ligação neste artigo.

De acordo com a agência Reuters, as imagens de satélite mostram que 1,18 milhões de metros quadrados de espaço de armazenamento já foi danificado ou mesmo destruído. Estamos a falar de mais de um quinto da capacidade da Wildberries, sendo que a Ucrânia deixou recentemente bem claro: só se param os ataques quando estiver tudo no chão.

À velocidade com que as operações vão decorrendo, sempre com a tecnologia dos drones à frente, isso pode acontecer em breve.

A situação afeta os grandes retalhistas, claro, mas também vários negócios que dependem da intermediação da Wildberries, como é o caso do emprego de Vasily Klimov.

“As vendas caíram em cerca de 50% ao longo do mês passado e isso é porque quase não há entregas”, admite o empresário, que tem um acordo direto com a Wildberries, pelo que o impacto nos ataques aos armazéns é direto.

“O mês passado foi totalmente perdido”, acrescenta.

Tudo isto faz parte de uma campanha que a Ucrânia tem definido como a vontade de “levar a guerra a casa”, que é como quem diz mostrar aos russos o que Kiev e outras cidades sentem quase diariamente desde 2022.

Segundo a Ucrânia, a Wildberries está a apoiar o esforço de guerra, nomeadamente através da entrega de óculos de visão noturna, de munições e capacete ou de aparelhos eletrónicos. A empresa e até o Kremlin já disseram que não há relação direta com as Forças Armadas, mas Kiev não acredita.

Para percebermos o impacto, os ataques da Ucrânia estão a ferir uma empresa que, entre as suas plataformas de comércio eletrónico e as entregas vale o equivalente a 8,5% da economia da Rússia.

A governadora do Banco Central da Rússia anunciou a 24 de julho que as autoridades estavam a monitorizar a situação para perceber os eventuais efeitos na economia do país, nomeadamente na inflação, que já está em níveis alarmantes. Ora, isso foi há duas semanas e os ataques não pararam, pelo que as próximas palavras de Elvira Nabiullina devem ser mais negras.

Para já há efeitos que são inevitáveis. De acordo com uma fonte próxima do Kremlin que falou à agência Reuters, vários pequenas e médias empresas “que não têm absolutamente nada que ver com a guerra” vão sofrer.

“Vão existir falências. Ninguém o dinheiro necessário para apoiar os vendedores. Estamos a falar de milhares de milhões de rublos. É um choque significativo para a economia da Rússia”, admite a mesma fonte.

De acordo com a Wildberries, perto de 95% de todas as encomendas passam por pontos como os de Vasily Klimov. Ora, se virmos o exemplo deste homem, o seu negócio passou de 400 peças por dia para 150, menos de metade. De resto, no dia em que falou com a agência Reuters não tinha recebido qualquer encomenda.

“Simplesmente não tenho reservas financeiras suficientes para aguentar isto”, desabafa, numa altura em que já decidiu que vender o negócio é a única solução. Falta saber se alguém o quer comprar.

Neste momento há mais de 3.100 negócios como os de Vasily Klimov à venda, todos eles relacionados com a Wildberries.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa