"Temos um novo Hitler na Rússia", acusa Maria Alyokhina, das Pussy Riot, apelando à resistência

CNN Portugal , MJC
11 jul, 12:22
Maria Alyokhina, membro da banda punk feminista russa Pussy Riot. (AP Photo/Mark Lennihan, File)

A artista russa saiu do seu país e vive numa autocaravana, algures na Europa. Mas garante que parte do fruto do seu trabalho é para apoiar a resistência ucraniana e os presos políticos na Rússia

Maria Alyokhina foi presa várias vezes e, quando não estava presa, estava proibida de viajar para fora do país, mesmo que fosse para atuar, e a polícia aparecia regularmente em sua casa para fazer rusgas. Portanto, quando saiu da Rússia em abril passado, ela não fugiu, diz, apenas encontrou uma maneira de continuar a trabalhar e a fazer aquilo que quer. 

Atualmente, a artista, membro do grupo ativista Pussy Riot, vive numa autocaravana, algures na Europa, e, para além da música, faz espetáculos de spoken word, vende merchandising e obras de arte em NFTs. Da luta feminista até aos protestos contra a guerra na Ucrânia - o principal alvo do seu trabalho é o presidente russo, Vladimir Putin. E isso ficou bem visível na passagem recente pelo Porto, onde há pouco mais de um mês as Pussy Riot deram um concerto

“Entendo que houve um barulho muito grande sobre a minha chamada fuga, mas não tenho planos de emigração. Eu só quero ajudar a Ucrânia", explica, em entrevista ao The Guardian. O produto do seu trabalho não musical será dividido entre instituições de caridade ucranianas e prisioneiros políticos russos. Por exemplo: ganhou dez mil euros a vender blusas e enviou o dinheiro para um hospital infantil ucraniano. Alyokhina e a sua namorada, Lucy Shtein, também do grupo Pussy Riot, fizeram um NFT usando as tornozeleiras da sua prisão domiciliar, derretidas e transformadas em arte: “São troféus da luta contra o governo russo. Acreditamos que esses grilhões desaparecerão um dia".

“Não podemos equilibrar o pesadelo que o exército russo e Vladimir Putin criaram. Mas acredito que, como russos, podemos fazer algo de bom. Como ser humano, e especialmente como artista, é muito importante aumentar nossa solidariedade com a Ucrânia e o nosso apelo para acabar com esta guerra", diz.

Quando as Pussy Riot surgiram, em 2011, eram um conjunto de artistas, escritoras, ativistas e anarquistas. Alyokhina era estudante do Instituto de Jornalismo e Escrita Criativa em Moscovo. Além de escrever canções de protesto, a banda usava balaclavas de neon e tapava a boca com fita adesiva. Alyokhina tem alvos muito diversos – a opressão das mulheres, a homofobia selvagem do Estado russo, a crise climática, a cleptocracia de Putin – mas todas resumem-se a uma causa: antiautoritarismo. Só que, de uma maneira geral, sempre foram retratadas pela comunicação social como "raparigas rebeldes" e nem sempre foram levadas a sério.

Por isso, quando três delas, incluindo Alyokhina, foram presas por vandalismo, em 2012, numa ação contra o totalitarismo de Putin e o apoio da Igreja Ortodoxa ao regime, isso não afetou muito a reputação do presidente russo, apesar de as organizações de direitos humanos como a Anmistia Internacional as terem designado presas políticas.

“Fomos libertadas a 23 de dezembro de 2013. Um mês depois, fizemos uma ação em Sochi, nos Jogos Olímpicos, e foi a primeira vez que fomos derrotadas fisicamente. Esse foi o primeiro momento em que percebi que a Rússia já estava pior do que quando tinhamos sido presas", conta.

Duas semanas depois, Putin anexou a Crimeia – “o primeiro ponto sem retorno”, diz. “Especialmente chocante foi a reação muito fraca do Ocidente. Houve pequenas sanções, mas as nações continuaram a lidar com empresas russas. A Alemanha vendia armas ao regime de Putin, contornando o embargo de armas. Muito capital dos oligarcas foi para a Grã-Bretanha, especialmente para Londres. Falei no Parlamento Europeu, no parlamento britânico, no Senado dos EUA. Todos estavam 'profundamente preocupados', mas nada aconteceu. Nos círculos de ativistas russos, há muitas piadas sobre o Ocidente estar profundamente preocupado: isso significa que eles não vão fazer nada”.

Alyokhina acredita que se depois da Crimeia e da subsequente invasão do Donbass houvesse as sanções que existem agora, as coisas teriam sido muito diferentes. “Pedimos um embargo total em 2014 e novamente em 2015. Fizemos ações de rua. Fui presa 100 vezes. Eu ouço muitas discussões no Ocidente de que é muito difícil parar de comprar petróleo e gás – bem, vocês tiveram oito anos. Em oito anos, teria sido possível. Num mês, é difícil. Talvez os políticos tivessem medo que os seus eleitores protestassem por terem as casas frias. Agora, os ucranianos não têm casa nenhuma.” 

Como Putin conseguiu escapar impune todos este anos?, pergunta. “A propaganda funciona como no Terceiro Reich”, diz Alyokhina. “Ele deu entrevistas há 10 anos e falava dos seus modelos. Um deles é Estaline. O maior tirano, que reprimiu e roubou o nosso povo, matou a nossa cultura, matou todos os meus artistas favoritos, alguns deles pessoalmente. Este é um alerta grave. Se se ouvisse com atenção, percebia-se o caminho que iria tomar.”

 

As notícias que chegam da Rússia é que a máquina de propaganda estatal é extremamente eficaz na geração mais velha, que toma suas notícias como verdade, e que isso criou divisões sociais e até familiares. “Há exemplos de pais denunciando os seus filhos de vinte e poucos anos à polícia por participarem em manifestações. Isso é muito União Soviética, ensinar as pessoas a chamar a polícia ou a KGB se houver uma diferença de opinião política. Agora, isso voltou.” A mãe de Alyokhina, uma programadora que a criou sozinha (ela só conheceu o pai aos 21 anos), não é assim. “A minha mãe é incrível. Ela entende que a verdade é que temos um novo Hitler na Rússia”, diz Alyokhina. 

Na opinião da artista, Putin deve ser julgado como um criminoso de guerra: “Sem um julgamento internacional para Putin, sem o entendimento de que Putin é um terrorista e um criminoso, haverá apenas mais sangue. Mais cadáveres. Mais mulheres violadas.”

Mas, apesar de tudo, Alyokhina está esperançosa. “Eu realmente acredito que cada gesto, cada palavra, cada ação é importante. Todos esses pequenos impactos são a base para construir algo diferente. Não vou falar sobre minha tristeza quando, ainda hoje, houve dois ataques à bomba contra a Ucrânia”, diz. “As emoções não são importantes. Devemos continuar, todos nós, porque é uma guerra.”

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