"Temos de escalar de forma proporcional e sem demonstrar fraqueza". Leipzig foi "o toque a rebate" para a Europa

2 set, 22:50
Técnicos forenses da polícia preparam-se para implantar um robô de desativação de explosivos perto de uma aeronave ucraniana no Aeroporto de Leipzig/Halle, na quarta-feira (Hendrik Schmidt/picture-alliance/dpa/AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

"Não estamos em guerra aberta, mas não estamos propriamente em paz. O que Putin está a fazer é a testar-nos para saber até que ponto estamos dispostos a continuar a apoiar a Ucrânia, até que ponto aguentamos." Para já, a União Europeia vai responder com sanções diplomáticas. Será suficiente?

"Não estamos em guerra, mas somos alvo diários da guerra híbrida", afirmou o ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt, depois de responsabilizar a Rússia pelos ataques de drones no aeroporto de Leipzig, em agosto. A Polónia e os Estados bálticos têm denunciado nos últimos meses recorrentes invasões do seu espaço aéreo, até agora sem quaisquer consequências. Mas os acontecimentos na Alemanha levaram a conversa para outro nível: “Quero ser muito clara sobre o que aconteceu: tratou-se de um ataque com recurso a material de nível militar, levado a cabo por operacionais russos em território da União Europeia. Não vamos tolerá-lo”, disse Ursula von der Leyen.

"Estamos a assistir a uma escalada muito rápida. Mas não há nada como ter um bom inimigo para nos unir", comenta o ex-ministro da Defesa José Alberto Azeredo Lopes. "É um toque a rebate para mostrar que a Europa está unida", diz à CNN Portugal. "As declarações dos líderes políticos, os ministros dos Negócios Estrangeiros que estão, de forma coordenada, a chamar os embaixadores, tudo isso passa uma mensagem importante. As medidas neste momento são irrelevantes. Nestes momentos, é importante sabermos onde estão as nossas afinidades e as nossas lealdades. E é uma mensagem tanto para a Rússia quanto para o outro lado do Atlântico."

Em Wicklow, na Irlanda, onde decorreu até esta quarta-feira o encontro de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, a líder da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, afirmou que existe "amplo apoio" entre os Estados-membros para a adoção de medidas tais como a recusa de concessão de vistos a ex-combatentes russos e a restrições mais severas para os turistas daquele país obterem um visto. A Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança avançou também que a discussão entre ministros relativa à utilização de ativos russos congelados vai continuar.

“Houve um entendimento bastante consensual de avançar com um pacote de sanções muito exigente, essencialmente visando individualidades – e isso pode chegar até a mais de mil – e também empresas”, revelou Paulo Rangel, ministro português dos Negócios Estrangeiros, à saída dessa reunião. Será suficiente?

"A Alemanha deu uma resposta contida, são sanções diplomáticas. Dão um sinal mas isto não é suficiente", considera Manuel Serrano, analista de política internacional. "A resposta da Europa tem de ser controlada, prudente, mas tem de ser dura. O que pode ser a resposta conjunta da UE e NATO? Mais sanções e diplomáticas, restrições, expulsar uns quantos diplomatas, impedir alguns cidadãos russos de entrar na Europa - mais do mesmo?", questiona.

Manuel Serrano lembra que os vários pacotes de sanções aplicados até agora enfrentaram a oposição de alguns dos países europeus (Hungria, Grécia, Malta, Áustria) e exigiram bastante negociações e, portanto, nunca foram tão duros quanto seria necessário. Mas, ainda que se conseguisse um consenso mais alargado, na sua opinião, este tipo de sanções não serão suficientes. "Defendo que devem ser tomadas medidas mais drásticas e decidir, finalmente, o que fazer relativamente aos ativos russo congelados", diz à CNN Portugal, sublinhando que já há alguns países como Polónia, Países Baixos, Suécia ou Espanha que querem seguir esta via.

"Temos de escalar de forma proporcional e sem demonstrar fraqueza", defende. Apesar de tudo, não acredita que estejamos em risco de seguir a via militar. "Custa-me acreditar que a Rússia, que tem pouquíssima capacidade para ir mais longe na guerra no terreno na Ucrânia, queira verdadeiramente entrar em guerra com a Europa", afirma Manuel Serrano. "Acredito que esteja a testar a vontade e a resiliência dos europeus, sobretudo da Alemanha e da França. Está apenas a testar as águas."

Putin percebeu que "sem a Europa, a Ucrânia cai e morre"

"Sem a Europa, a Ucrânia cai e morre", sublinha José Alberto Azeredo Lopes. "Por isso a Rússia está constantemente a atacar a Europa, quer quebrar a União Europeia. Fá-lo através de ataques verbais, de desinformação, com esta guerra híbrida que temos visto."

Talvez o Kremlin tenha chegado à conclusão de que a única forma de derrotar a Ucrânia é desmantelar politicamente a União Europeia. Se o principal motivo por que a Ucrânia continua a resistir é porque é abastecida pelos países europeus, então talvez seja preciso atacar precisamente na fonte do armamento - não com um verdadeiro ataque militar, que iria provocar uma escalada pouco desejada no conflito, mas com a dose certa de "provocações" que possam levar os países europeus a retrair-se. O objetivo será mais político do que militar, criando confusão no seio da aliança e minando o apoio a Kiev.

"Putin sabe que vêm aí eleições importantes", avisa Azeredo Lopes. "Temos as eleições na Alemanha - podemos estar a dias de um partido de extrema-direita conseguir a maioria, isso é uma revolução no quadro europeu. Depois temos eleições na França, onde as previsões são as que são, em Itália, Bulgária (que também não quer apoiar a guerra na Ucrânia). A Rússia percebeu que a União Europeia não é assim tão unida."

"Por outro lado, os EUA também olham para UE como um alvo a abater", lembra Azeredo Lopes. As críticas constantes aos aliados, as novas exigências financeiras que lhes são impostas, o corte das forças norte-americanas destinadas a situações de emergência e, agora, a revisão por parte de Washington da presença militar norte-americana na Europa criaram as condições para uma grave crise política entre EUA e a Europa. Há aqui uma janela de oportunidade para instigar a desunião dentro da NATO e a Rússia está a aproveitá-la.

"O que preocupa as autoridades na Polónia e nos Estados Bálticos não é a perspetiva de divisões blindadas russas atravessarem subitamente a fronteira", escreve Murray Brewster, jornalista canadiano especialista em defesa e segurança. "A preocupação é que Moscovo possa acreditar que consegue levar a cabo um ato de violência deliberadamente ambíguo e limitado - suficientemente grande para assustar ou desestabilizar a NATO, mas suficientemente pequeno e negável para tornar politicamente difícil invocar a cláusula de autodefesa da aliança militar ocidental, o Artigo 5.º."

É nessa zona cinzenta que estamos agora.

O que é, afinal, a "guerra híbrida"?

Os líderes europeus têm usado frequentemente os termos "ameaça híbrida" ou "guerra híbrida" para descrever uma combinação de atividades coercivas e subversivas da Rússia, que podem ser diplomáticas, militares, económicas ou tecnológicas, utilizadas de forma coordenada para alcançar objetivos específicos, mantendo-se abaixo do limiar de uma guerra formalmente declarada.

A sabotagem de infraestruturas submarinas, a guerra eletrónica, as incursões de drones no espaço aéreo europeu, os ciberataques, as ações de desinformação são alguns exemplos dos atos hostis que têm sido atribuídos à Rússia. 

O recurso à expressão “guerra híbrida” para descrever estas atividades tem permitido à União Europeia e à NATO evitar uma resposta militar.

No entanto, vários especialistas em segurança e defesa afirmam que o rótulo “híbrido” corre o risco de subestimar a gravidade da ameaça e de não permitir ver com clareza até que ponto o confronto com a Rússia já se intensificou. Aquilo que ao início nos chocava e para o qual pedíamos uma reação imediata torna-se uma ação repetida, normalizada, aceite. Como uma corda que se vai esticando - mas que um dia atingirá o seu limite e poderá rebentar.

"Os ataques à Europa começam a escalar. A linha entre o que é um ataque híbrido ou não é cada vez mais ténue", entende Manuel Serrano. "Não estamos em guerra aberta, mas não estamos propriamente em paz. O que Putin está a fazer é a testar-nos para saber até que ponto estamos dispostos a continuar a apoiar a Ucrânia, até que ponto aguentamos."

Azeredo Lopes concorda: "Não estamos na melhor das fases do conflito militar, mas a Rússia está a fazer um reforço no terreno, ao mesmo tempo que está a apostar tudo nesta outra vertente, que é desestabilizar a União Europeia. Quer atrasar ou diminuir o apoio à Ucrânia porque sabe que aí, sim, a Ucrânia vai sofrer. A esfera política e diplomática tem um impacto efetivo no conflito".

"Isto é uma guerra híbrida, mas a linha entre a guerra híbrida e a guerra aberta é muito ténue", considera Manuel Serrano. "Faz parte desta lógica de provocação. Esticando a corda uma e outra vez, se não respondermos de forma proporcional, o que pode acontecer? Lembremos o que aconteceu na Geórgia, na Crimeia, na Ucrânia." 

O que aconteceu em Leipzig parece ser a última dessas provocações e as reações não se fizeram esperar. Mark Rutte, secretário-geral da NATO, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Kaja Kallas, chefe da política externa da União Europeia, e uma série de líderes europeus não demoraram a deixar claro em primeiro lugar que não vão tolerar a escalada das ações ofensivas por parte da Rússia a países europeus e, por outro lado, que vão continuar a apoiar a Ucrânia. “Se a intenção era fazer-nos pensar duas vezes antes de apoiarmos a Ucrânia, posso dizer-vos que isso apenas reforçou a minha determinação. A intimidação não vai funcionar e é por isso que me reúno hoje com o secretário-geral da NATO e estamos unidos”, vincou Ursula von der Leyen.

"Do ponto de vista das reações e da estratégia europeias, o que está a acontecer agora recorda-me a escalada muito significativa que aconteceu em 2018 após o caso Skripal, no Reino Unido: é exatamente o mesmo processo", aponta Azeredo Lopes. "Quando um Estado diz: eu responsabilizo diretamente a Rússia por uma ação no nosso território que envolve drones que têm um objetivo militar, de ataque a um outro país, a Ucrânia, isto é muito mais grave. É uma operação de imputação, ou seja, atribuição jurídica de um comportamento muito grave a um país. E portanto o Estado que faz esta acusação tem de tomar medidas", explica.

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul, anunciou que iria ordenar o encerramento do consulado russo em Bona e rescindir o contrato relativo à “Casa da Rússia”, em Berlim. As autoridades alemãs suspeitam que o edifício servia de base a atividades de espionagem e à difusão de propaganda russa. "As medidas da Alemanha parecem-me bem concebidas", diz Azeredo Lopes. "São simbolicamente muito fortes. Não vão fazer a Rússia mudar o seu comportamento, mas transformam juridicamente e diplomaticamente a posição da Alemanha - que é dos países europeus que sempre teve melhores relações com a Rússia, era o best friend da Rússia, muito por causa do Nordstream e das trocas comerciais. E também por isso é relevante ter sido a Alemanha a fazer isto."

Como é que a Europa pode responder?

A Rússia não quer a guerra, "está mais a provocar e a dividir os europeus", observa Manuel Serrano. "A NATO está preparada para responder militarmente, mas não acredito que seja esse o caminho." Até porque, sublinha, o artigo 5.º só foi aplicado uma vez pela NATO, após o 11 de Setembro, e a sua ativação não é automática: "Tem de haver uma ativação e consenso entre os membros da aliança, o que não é assim tão fácil de conseguir."

Por isso é tão importante que a União Europeia pense seriamente numa resposta, diz. "Acho que com o tempo, contemporizarmos com este tipo de ações seria muito perigoso. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia não está em vias de acalmar. E vai sobrar para a Europa. Esta guerra também é nossa. Qual será o custo para a Europa de não fazer nada neste momento?" Manuel Serrano defende que a resposta "tem de ser um pacote de sanções máximo". "É o mínimo que podemos fazer. É preciso responder com firmeza e explicar ao senhor Putin que a Europa tem de ser respeitada", conclui. 

"Isto é como uma escada. A situação vai-se tornando cada vez mais perigosa. Eu não acho que estejamos à beira do precipício, mas, claramente, subimos mais um degrau", analisa Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. "A guerra híbrida é isto, são ataques que acontecem, e que nós podemos suspeitar que foram orquestrados por um Estado hostil, que é a Rússia, mas não conseguimos provar que foi mesmo assim, ou só conseguimos provar passado algum tempo. E, portanto, aquilo que temos que fazer é ter planos de contingência para responder de uma forma coordenada. E isso às vezes não é fácil, porque são muitos países e têm políticas externas por vezes muito diferentes."

"Uma explosão num aeroporto na Alemanha que foi feita por um Estado inimigo, que é a Rússia, tem obviamente um grau de gravidade bastante grande e, portanto, é preciso que os Estados europeus se coordenem para conseguirem responder, até porque se se coordenarem, isso dá um sinal à Rússia de que tem que pensar muito bem se quiser voltar a fazer uma coisa destas", explica o especialista à CNN Portugal.

Francisco Pereira Coutinho admite que, até agora, as sanções não foram suficientes para intimidar Vladimir Putin, por isso "é pouco provável" que sejam eficazes. Mas a resposta deve ser proporcional e a verdade é que, até agora, não houve nenhum incidente realmente grave, defende. "A Alemanha podia enviar os tais mísseis de longo alcance que a Ucrânia pede há cinco anos e não enviou, porque considerou que isto não tinha o nível de gravidade suficiente para levar a Alemanha a envolver-se neste conflito de uma forma mais direta", sublinha. "Ou seja, é preciso ainda subir mais alguns degraus na escala de provocações. Se por acaso o drone tivesse explodido, se o avião tivesse tido vítimas alemãs, se calhar nós estávamos a ver  o chanceler alemão a dizer que iam enviar os mísseis à Ucrânia. Os alemães não têm interesse nenhum em receber mais ataques e, portanto, as medidas retaliatórias que tomaram foram calibradas ao grau de violação da sua soberania que eles consideraram que existia. Não há aqui respostas de manual, temos que ir andando e vendo."

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa

Mais Lidas