"Sofreram uma lavagem cerebral" e estão prontos para se "sacrificarem por Kim Jong-un". Norte-coreanos na Rússia têm uma ordem: matar ou morrer

14 jan 2025, 14:15
Soldado norte-coreano feito prisioneiro pela Ucrânia (Presidência ucraniana/Anadolu via Getty Images)

Instruções são claras: soldados devem suicidar-se para impedir a captura por parte dos ucranianos

“Tornar-se prisioneiro de guerra significa traição. Ser capturado significa que és um traidor. Deixa uma última bala, é disso que estamos a falar no exército”. É assim que Kim, hoje com 32 anos, descreve a sua estadia no exército da Coreia do Norte, de onde fugiu em 2022 à procura de uma vida melhor.

Agora vê os seus compatriotas a combater numa guerra a sério, na Ucrânia, e lamenta o que eles são instruídos a fazer, num seguidismo das regras de Pyongyang que pode acabar em morte.

O caso mais óbvio é o de um soldado norte-coreano que se suicidou antes que as tropas ucranianas lhe conseguissem chegar. Depois de um combate que acabou com 17 norte-coreanos mortos em Kursk, o homem viu-se sozinho perante o inimigo, preferindo detonar uma granada em vez de ficar prisioneiro.

“Auto-detonação e suicídios: é esta a realidade sobre a Coreia do Norte”, continua Kim, em declarações à agência Reuters.

O desertor, que pediu para ser tratado apenas pelo apelido para evitar eventuais represálias, lamenta que os seus compatriotas estejam a lutar numa guerra que não é deles. “Estes soldados deixaram as suas casas e sofreram uma lavagem cerebral, estão verdadeiramente preparados para se sacrificarem por Kim Jong-un”, acrescenta.

Sim, pelo líder norte-coreano, e não pelo presidente da Rússia, já que muitos não sabem, segundo os serviços de informação da Coreia do Sul, que estão a combater numa guerra a sério. Uma possibilidade que ganhou peso é de Pyongyang ter enviado cerca de 11 mil soldados para a Rússia não para ajudar Moscovo, mas para treinar num cenário real uma eventual invasão da Coreia do Sul.

Desses milhares que chegaram a Kursk para ajudar a libertar a região russa onde a Ucrânia está presente desde agosto, as secretas sul-coreanas apontam que cerca de três mil ficaram incapacitados, incluindo quase 300 mortos.

Números que surgem depois de muita negação da Rússia e da Coreia do Norte em relação à presença de soldados norte-coreanos no território. Eram “fake news”, disseram, mas um vídeo divulgado pela presidência ucraniana este fim de semana tirou todas as dúvidas.

Nele são vistos dois soldados capturados pela Ucrânia, dois que não conseguiram ou não quiseram executar a ordem de Pyongyang: o suicídio antes da captura.

Os receios de Kim foram confirmados por um deputado sul-coreano que esteve presente na reunião em que as secretas de Seul informaram os legisladores sobre o que se passava no terreno. Em Kursk, os norte-coreanos são "carne para canhão" e não estão de todo preparados para uma guerra destas. Mas entre as conclusões retiradas também está a da instrução para cometer suicídio em vez de permitir a captura.

"Recentemente, foi confirmado que um soldado norte-coreano que estava em perigo de ser capturado pelo exército ucraniano gritou pelo general Kim Jong-un e puxou de uma granada para tentar explodir-se, mas mataram-no [antes]", referiu Lee Seong-kweun, deputado da Comissão de Serviços de Informação da Coreia do Sul.

E não é só isso. As secretas sul-coreanas também encontraram papéis com notas a enfatizar a autodestruição e o suicídio antes da captura, o que mostra um alto nível de lealdade a Pyongyang.

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