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Correspondente Médica CNN Portugal

O braço que Putin não balança – já reparou?

24 nov, 18:05

Muito se tem especulado nos últimos tempos sobre a saúde de Vladimir Putin, que completou 70 anos em Outubro passado.

Observar e escutar devem ser as grandes virtudes de um médico, as razões pelas quais não acredito que venhamos a ser substituídos por máquinas, pelo menos no futuro que a minha imaginação alcança, sem desvalor para o progresso científico que tanto tem aportado à Medicina. E como observar e escutar estão na essência do ser médico – isso que morre connosco e não tem data de reforma – podem tornar-se um fardo, algumas vezes.

No café, no cabeleireiro, no sofá a ver televisão, lá estamos nós a procurar sinais e sintomas de doenças nas pessoas. Muito antes de concebermos uma guerra na Europa em pleno século XXI, um grupo de neurologistas dedicados às doenças do movimento começou a observar com atenção peculiares alterações na marcha de Vladimir Putin e da elite política russa. Rui Araújo, à data médico interno e agora especialista em Neurologia no Centro Hospitalar e Universitário de S. João, no Porto, desafiou os seus mestres para juntamente com ele estudarem tais alterações, o que culminou na publicação de um artigo na edição de Natal do British Medical Journal em 2015, em co-autoria com Joaquim Ferreira (na altura director da secção Europeia da Sociedade Internacional de Doença de Parkinson e outras Doenças do Movimento), Bastiaan Bloem e Angelo Antonini, professores de Neurologia.

Muito se tem especulado nos últimos tempos sobre a saúde de Vladimir Putin, que completou 70 anos em Outubro passado. Arkady Ostrovsky, editor para a Rússia do The Economist, indica que, não existindo qualquer prova de doença do presidente Russo, os motivos para esta especulação são de índole fundamentalmente política, associando-se também a uma espécie de pensamento mágico (wishful thinking), segundo o qual o desaparecimento de Putin por motivos de saúde resolveria a guerra actual. O próprio director da CIA afirmou em Julho último que Putin se encontra “saudável”. 

O que se passa com Putin? Poderá ser Doença de Parkinson?

Uma característica distintiva na marcha de Putin é uma redução do balanceio do braço direito, quando anda. Este pode ser um sinal precoce de Doença de Parkinson. Contudo, o grupo de peritos analisou vários vídeos do presidente Russo e aventou uma explicação alternativa. Primeiramente, perceberam que este achado ocorre de modo consistente em vídeos de anos diferentes, o que exclui uma situação mais esporádica, como, por exemplo, uma dor no ombro. Por outro lado, num vídeo em que Putin demonstra os seus dotes de judoca, já depois de ter evidenciado a assimetria no balanceio do braço, torna improvável que padeça de um problema ortopédico crónico. O diagnóstico de doença de Parkinson também parece pouco provável, uma vez que o padrão de movimento se tem mantido consistente ao longo de vários anos e sem evidência de outros sinais relacionados com a Doença de Parkinson, como tremor, rigidez, alterações na marcha ou dificuldades de equilíbrio. 

O treino do KGB

A diminuição de balanceio do braço foi também identificada noutras altas patentes russas. Os peritos, que analisaram vários vídeos, avançaram que uma hipótese para esta alteração poderia ser algo comum a todos estes indivíduos – o treino KGB, que Putin também recebeu -, que instrui os agentes a manter o braço direito perto do peito enquanto andam, permitindo retirar rapidamente a arma, se necessário. Este “andar de pistoleiro” pode explicar as alterações observadas em Vladimir Putin? É apenas mais uma hipótese em cima da mesa.

O braço de Putin que nos interessa

Qualquer diagnóstico só pode ser devidamente investigado com uma cuidadosa observação clínica. Portanto, não podemos retirar ilações seguras sobre a saúde de Putin ou sobre algum eventual problema com o seu braço direito. Sabemos, sim, o braço que não desejamos que continue a movimentar – o braço simbólico, que invadiu a Ucrânia, lançando a Europa para um momento desafiante e, mais importante, colocando em causa os valores inalienáveis da democracia e soberania dos Estados. 

Este texto não está escrito ao abrigo do novo artigo ortográfico.

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