Serviços secretos norte-americanos admitem ter mais informações sobre a Rússia do que sobre a Ucrânia

8 jun, 18:45
Kharkiv, na Ucrânia (AP Images/Felipe Dana)

Estados Unidos continuam a não ter uma imagem clara acerca das operações militares ucranianas. Esta ausência de informação pode tornar mais complicada a tarefa de fornecer a ajuda militar necessária, numa altura em que se intensificam as entregas de armas e de sistemas militares mais sofisticados a Kiev

Na espionagem, uma rede de informação pode demorar décadas a montar, mas é uma ferramenta indispensável para obter uma visão clara sobre as intenções de potenciais adversários. Isso ficou claro nos dias que antecederam a invasão russa, com os Estados Unidos da América a revelarem publicamente várias informações que davam conta dos planos de Putin para invadir a Ucrânia.

Agora, mais de três meses depois do início da guerra e de vários milhares de milhões de dólares em ajudas militares, as agências de espionagem norte-americanas admitem continuar a ter menos informação acerca das operações ucranianas do que sobre as do exército russo.

Citados pelo jornal The New York Times, várias fontes ligadas aos serviços secretos norte-americanos admitem que os Estados Unidos continuam a não ter uma imagem clara acerca das operações militares ucranianas. Esta ausência de informação pode tornar mais complicada a tarefa de fornecer a ajuda militar necessária à Ucrânia, numa altura em que se intensificam as entregas de armas e de sistemas militares mais sofisticados.

A informação, argumentam os especialistas, pode ser tão importante quanto o número de soldados ou de armas que um exército possui. É igualmente importante estar na posse de toda a informação necessária para poder reforçar as unidades militares com o material que precisam. Particularmente quando em causa estão milhares de milhões de dólares de ajuda externa e, para os Estados Unidos, estes “ângulos mortos” de informação estão a tornar-se cada vez mais incómodos.

“Quanto é que realmente sabemos acerca das operações da Ucrânia? Conseguimos encontrar uma pessoa que nos diga com confiança quantos soldados a Ucrânia perdeu, ou quantas armas foram perdidas?”, questionou um antigo oficial dos serviços de informação norte-americanos, citado pelo jornal.

É comum, durante os tempos de guerra, que os governos omitam determinadas informações de forma a garantir a “segurança operacional”, ou seja, a segurança das operações militares que estão em curso no terreno. Fontes oficiais americanas revelaram que o governo ucraniano já forneceu briefings classificados acerca de alguns dos seus planos, mas o lado ucraniano admite que não lhes contou toda a informação.

Esse facto não impediu a administração norte-americana de ressuscitar o “Lend Lease Act” e de enviar um pacote de ajuda militar que inclui alguns sistemas militares ocidentais que estão a ser utilizados pela Ucrânia pela primeira vez. Porém, as armas enviadas resultam de um equilíbrio entre aquilo que os americanos acreditam que a Ucrânia necessita e aquilo que o governo de Zelensky pede e não das reais necessidades do exército ucraniano.

Os Estados Unidos partilham regularmente informações em tempo real ao exército ucraniano, utilizando as suas capacidades tecnológicas mais avançadas, desde imagens de satélite em tempo real, até informação obtida por drones de reconhecimento de longo alcance. Estas capacidades permitiram à Ucrânia ter informação que permite coordenar ataques de artilharia contra posições russas ou saber que regiões reforçar, dependendo das movimentações russas.

“Nós temos, na verdade, uma visão mais clara do lado russo do que do lado ucraniano”, admitiu a diretora da agência nacional de inteligência, Avril D. Haines, numa audição no senado ainda mês de maio.

A informação por parte da Ucrânia tem sido, de facto, escassa. O governo ucraniano nunca admitiu ou avançou com um número real de baixas do seu exército, apesar de garantir que mais de 31 mil soldados russos perderam a vida na invasão à Ucrânia - cerca de 300 por dia. Ainda assim, Zelensky não é tão explícito quando fala acerca das suas forças no terreno. O mais próximo de um balanço oficial que existiu por parte de Kiev foi o número diário de mortos na região do Donbass, que o presidente diz rondar os 100 por dia.

As fontes oficiais citadas pelo The New York Times justificam esta opacidade com a vontade de projetar uma imagem de força, quer para consumo interno, quer para os países que apoiam o esforço de guerra ucraniano. Publicar o número de soldados mortos pode passar a imagem de que a Ucrânia pode não vencer a guerra, acabando por levar os parceiros ocidentais a questionar o envio de armas para a Ucrânia.

"Tudo gira em torno dos objetivos da Rússia e das perspetivas da Rússia de atingir seus objetivos. Não falamos sobre se a Ucrânia pode derrotá-los. E para mim, sinto que estamos a prepararmo-nos para outra falha de informação ao não falar sobre isso publicamente”, disse Beth Sanner, antigo oficial dos serviços secretos ao jornal americano.

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