Drones são o grande segredo da resistência ucraniana, que está a aumentar ainda mais a sua capacidade
Quando a guerra começou parecia impossível que isso se notasse militarmente nas maiores cidades russas, nomeadamente em Moscovo ou São Petersburgo, que estavam resguardadas pela longa distância da Ucrânia.
Hoje, o cenário é diferente. A Ucrânia lança quase diariamente drones contra vários alvos dentro da Rússia, desde locais de relevância logística para as Forças Armadas a fontes de financiamento da máquina de guerra de Vladimir Putin.
O exemplo mais recente é a refinaria de Tuapse, a maior da Rússia no Mar Negro, e que tem sido fortemente castigada por enxames de drones ucranianos.
Muitos desses enxames são cada vez mais lançados a partir de locais tão improváveis como caves de edifícios de apartamentos.
É aquilo a que o dono da Tenebris, uma fabricante ucraniana de drones, diz ao Financial Times ser uma “evolução lógica”, numa guerra que fez a tecnologia saltar anos e anos, nomeadamente com este tipo de armamento.
O que Bohdan Velma espera é que, em breve, haja uma massificação de operadores a conduzir drones a partir das suas próprias casas.
A coqueluche da empresa é o “Bagnet”, que em português significa baioneta, e que foi colocado em combate no fim do último ano, correspondendo à necessidade da Ucrânia, que tenta compensar a falta de homens com a tecnologia.
Neste caso nem se trata tanto de ataque, mas antes de defesa, já que este drone, que está a ser produzido em massa, serve como intercetor, voando contra os drones Shahed, de fabrico iraniano, para os impedir de chegarem ao alvo.
Perante a escassez de mísseis e a saturação dos sistemas defensivos, a Ucrânia encontrou nestes veículos não-tripulados um aliado importante. De acordo com o chefe das Forças Armadas, no mês de março cerca de 70% dos drones russos abatidos resultaram de lançamentos de drones ucranianos.
E se a primeira geração de drones tinha tempos de voos e frequências de rádio altamente limitadas, o mesmo não se pode dizer do que está hoje nas mãos dos soldados ucranianos.
É que empresas como a Tenebris não se preocupam apenas em produzir em massa, mas também em aperfeiçoar os seus produtos, o que permite agora viagens bem mais longas e, na perspetiva russa, bem mais perigosas.
De acordo com o Financial Times, o “Bagnet” utiliza Inteligência Artificial para identificar o alvo. Desenha automaticamente um quadrado verde e guia o intercetor até ao alvo. Depois disso o piloto só tem de desativar o modo de segurança para permitir à aeronave que se arme.
Um método em tudo similar a alguns ataques realizados contra a Rússia e dentro da Rússia. Assim que os drones se aproximam da fronteira são ativados os terminais Starlink, que ajudam os veículos a chegarem onde devem.
Agora, o passo seguinte é massificar as operações, o que pode ajudar a Ucrânia a lidar com uma crise de falta de homens, permitindo também salvar aqueles que atualmente pilotam os drones, e que muitas vezes têm de estar na linha da frente para poderem ter melhor controlo sobre o drone, sendo alvo constante de ataques russos.
E se no verão passado a situação parecia ser mais problemática, o objetivo é que muitos dos pilotos possam agora esconder-se em locais em Kiev, muitas vezes debaixo do terreno, e a partir de onde podem dar várias ordens aos diferentes drones.
De acordo com um responsável da Wild Hornets, que produz o popular “Sting”, que funciona como intercetor, já estão a acontecer coisas diferentes. “A tecnologia está a trabalhar, é uma questão de a destacar”, referiu, citado pelo Financial Times, sublinhando que estes drones já conseguiram abater drones Shahed a 500 quilómetros de distância. E tudo a partir de um hotel em Kiev, onde estava alojado o piloto do “Sting” envolvido na missão.
“A distância já não é uma limitação”, garantiu o conselheiro de Indústria Estratégica da Wild Hornets, Oleksandr Kamyshin, também ao Financial Times. Assim mesmo, sentados num quarto de hotel, os pilotos ucranianos começam a ter maior capacidade para atacar e defender em simultâneo.
“A Ucrânia está a construir um sistema defensivo que pode proteger os aliados muito para lá das suas fronterias”, reiterou, sublinhando que os mesmos “Sting” já chegaram a fazer voos de dois mil quilómetros para fora do país.
Como escreveu Ivana Kottasová, da CNN, este é o futuro da guerra, e está a acontecer agora.