Senhor Zelensky, foi informado ou não sobre a invasão russa? E porque não avisou a população? Há respostas numa longa entrevista

17 ago, 20:54

Líder da Ucrânia defende estratégia de não ter avisado a população mais cedo, pois tal “semearia o caos”

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deu uma entrevista ao Washington Post na qual afirma que ninguém na Ucrânia previa que uma invasão russa fosse decorrer da maneira como aconteceu. “Olhe, como se pode acreditar nisto? Que iriam torturar pessoas e que este seria o seu objetivo? Ninguém acreditava que iria ser assim. E ninguém o sabia”, disse Zelensky, após ser questionado sobre se sabia pessoalmente que a Rússia iria invadir a Ucrânia. “E agora todos dizem que nos avisaram - mas avisaram-nos com frases gerais. Quando dissemos para nos darem informações específicas - de onde virão, quantos soldados e assim por diante - todos eles tinham tanta informação como nós. E quando eu perguntei: ‘Muito bem, se eles vêm daqui e vai ocorrer um combate pesado aqui, podemos arranjar armas para os deter?’. Não as obtivemos. Porque é que preciso de todos estes avisos?"

Zelensky defendeu também a sua estratégia de não ter alertado a população ucraniana mais cedo. “Não podem simplesmente dizer-me ‘escuta, deves começar a preparar as pessoas agora e dizer-lhes que precisam de guardar dinheiro, que precisam de armazenar comida’. Se tivéssemos comunicado isso - e era isso que algumas pessoas queriam, que eu não vou nomear -, no momento em que os russos atacassem teriam tomado o país em três dias. Não estou a dizer de quem foi a ideia, mas a nossa sensação interior estava certa: se semearmos o caos entre as pessoas antes da invasão, os russos vão devorar-nos. Porque durante o caos as pessoas fogem do país”, explicou, referindo também que, antes da guerra, pediu armas para se defender.

“Quando se trata de todos os avisos ou sinais de certos parceiros, aqui está o que lhes expliquei: se não tivermos armas suficientes vai ser difícil para nós lutar. Iremos combatê-los, isso é certo. E eles não querem falar. [Vladimir Putin] não tem estado disposto a dialogar há três anos. Portanto, não quero ouvir este disparate de que os russos estão prontos a falar, isto é um disparate. Expliquei-o claramente. Tudo o que precisamos é de armas e se tiverem a oportunidade forcem-no a sentar-se à mesa de negociações comigo. Tinha falado especificamente sobre isto, porque acreditávamos que haveria uma invasão.”

Referindo que o país perde entre cinco mil e sete mil milhões de euros por mês devido à guerra, o presidente ucraniano afirma ainda “não ter queixas” derivadas do facto de os Estados Unidos não terem fornecido armamento antes de 24 de fevereiro. “Hoje, só posso estar grato aos Estados Unidos pelo que temos. Mas precisamos de ter uma compreensão clara do facto de que sempre tivemos armas da era soviética. Nunca tivemos as armas da NATO. O que tivemos a partir de 2014 era, a meu ver, insuficiente. Não tínhamos as armas sérias de que precisávamos, como os HIMARS que todos podemos ver agora - ou, digamos, a artilharia de 155 milímetros -, sem sequer mencionar os tanques e aviões – e não tínhamos a possibilidade de as comprar. A única coisa que tínhamos acordada eram os drones militares, Bayraktars, por aí. Mas, com todo o respeito, não se pode fazer a guerra com drones."

“Utilizaram mapas, alguns dos seus caminhos eram os mesmos que os dos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Portanto, para dizer que tinham algo único planeado aqui, é impossível. Tudo o que tínhamos estava lá”, diz o chefe de Estado acerca dos planos russos. “Todos tinham medo da guerra. Ninguém quer entrar em guerra com a Rússia. Ninguém quer travar uma guerra com a Rússia. Toda a gente quer que a Ucrânia vença, mas ninguém quer entrar em guerra com a Rússia. E é só isso. E foi por isso que tivemos de decidir como nos mantínhamos fortes. Se ninguém quiser fazer guerra com eles, e todos têm medo de os combater, desculpem-me, então decidiremos como o fazer, seja certo ou errado. Mas a guerra irá mais longe e mais fundo na Europa, por isso, por favor, enviem-nos armas porque também vos estamos a defender”, diz Zelensky.

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