"Sem ter disparado um tiro, a China é quem mais lucra." E ainda: "Se as sanções funcionassem, Cuba e o Irão já teriam mudado de regime"

18 jul 2025, 23:31
Xi Jiping, Ursula von der Leyen, Macron (AP)

A Europa aprovou o 18.º pacote de sanções à Rússia mas este é o contexto: o "Ocidente tem as reservas estratégicas militares em níveis muito baixos" e a China está em condições de fazer o "que quiser", incluindo no "nível militar" ou noutros

Ao 1.241.º dia de guerra na Ucrânia, a União Europeia apresentou mais um pacote de sanções contra a Rússia. É o décimo oitavo e o maior desde o início daquilo que Vladimir Putin começou por apelidar “operação especial”. Desta feita foi decretado o fecho completo dos gasodutos Nord Stream, levantada a isenção da Chéquia à importação de petróleo russo e apertado o cerco à frota fantasma russa que contorna. È desta que a economia russa é estrangulada?, que o Kremlin aceitar sentar-se à mesa de negociações?, que a paz fica mais próxima?

“É uma excelente questão mas em bom rigor não”: para Tiago André Lopes, comentador da CNN Portugal e especialista em Relações Internacionais, as sanções são "maquilhagem, não uma verdadeira solução".

Tiago André Lopes defende que há um conjunto de razões para que o 18.º pacote de sanções não tenha, mais uma vez, um desejável impacto efetivo: por exemplo, o facto de o “pacote não fechar aquilo que vários Estados da União Europeia, como a Chéquia, têm feito - que é comprar petróleo russo via Índia”.

Por sua vez, Francisco Pereira Coutinho, também comentador da CNN Portugal e especialista em Relações Internacionais, entende que o Ocidente "não pode esperar das sanções aquilo que elas nunca poderão dar": "As sanções não vão resolver o conflito e não será este 18.º pacote que o vai fazer". Mas: "Se não tivéssemos tido 17 pacotes, ainda teríamos guerra neste momento ou a Federação Russa já teria conquistado a Ucrânia se não tivesse sido sancionada?"

Francisco Pereira Coutinho considera que, apesar das limitações efetivas das sanções, as medidas adotadas neste 18.º pacote são as que têm "mais potencial para causar danos à Rússia", porque atingem tanto a exportação de petróleo como de gás natural, que continuam a ser "a principal fonte de financiamento" de Moscovo.

Zelensky juntamente com os aliados da Ucrânia na cimeira para a reconstrução do país foto Getty

"Se se fosse lá com sanções, Cuba e o Irão já teriam mudado de regime"

Tiago André Lopes considera que, "se as sanções fossem para funcionar, já teriam funcionado". "Temos 17 pacotes em cima, três anos disto, não há aqui novidades. O terceiro maior fornecedor de energia à União Europeia tem um nome: Federação Russa, porque também não há muito mais." O especialista antevê até um possível efeito contraproducente, porque "se as sanções começarem a pôr em causa coisas tão simples como o abastecimento de energia no inverno, se as pessoas na República Checa, na Bulgária, na Eslováquia, na Eslovénia passarem frio no inverno, não vão achar que têm de passar frio para ajudar a Ucrânia".

"Esta ideia de que o pacote vai ser um grande instrumento... Eu sou muito cético, eu acho que não vai. É muito simples. Se se fosse lá com sanções, Cuba e o Irão já teriam mudado de regime. As sanções são um mecanismo interessante mas apenas para marcar politicamente o assunto, para dizer que somos contra alguma coisa . neste caso, que a União Europeia é contra a invasão da Rússia", argumenta Tiago André Lopes.

Francisco Pereira Coutinho considera que estamos perante "uma espécie de jogo de gato e do rato" em que a União Europeia, a cada pacote de sanções, tem "tentado resolver as fugas dos pacotes anteriores" que a Rússia e países terceiros que auxiliam o Kremlin utilizam para "conseguir exportar hidrocarbonetos também para a Europa". "Tudo indica que este pacote, mesmo pelas reações vindas da Rússia, tem pelo menos - em teoria - a capacidade para ser um bocadinho mais eficaz. Mas tem também uma dimensão muito simbólica."

Tiago André Lopes lembra ainda que, se entretanto houver um cessar-fogo ou término do conflito, estas "medidas acabam por ser mais políticas do que verdadeiramente económicas". "Portanto, é mais uma demonstração de força coletiva, que é sempre relevante ir acontecendo, e não é tanto para magoar a Rússia." Até porque há um outro problema: "Já temos tão poucos mecanismos de contacto com a economia russa que a nossa capacidade de magoá-la é muito baixa".

Tiago André Lopes lembra ainda que, no dia 11 de maio e novamente esta sexta-feira, Putin anunciou que estava disponível para negociar a paz. "Mas até agora ninguém fez nada, está tudo a olhar, está tudo à espera, está tudo numa espécie de um transe diplomático muito difícil de explicar."

E sanções a Israel, Bruxelas? 

Além de tudo isto, Tiago André Lopes considera que este 18.º pacote tem outra "particularidade que diplomaticamente torna tudo muito frágil": onde estão as sanções a Israel? "Israel está a fazer o mesmo que a Rússia, está a anexar territórios, está a matar a população e não há nenhum mecanismo para nada. É Sanções à Rússia, é a Cuba, é à Bielorrússia, é à China, é à Índia. E Israel?"

Manifestação de apoio à Palestina em Bruxelas em frente à fachada do Conselho Europeu foto Getty

Além de tudo isto, Tiado André Lopes aponta outra fragilidade deste tipo de tentativa de pressionar Moscovo - o facto de a União Europeia não ter capacidade, "sem se magoar economicamente", para punir todos os Estados terceiros que mantêm relações socioeconómicas com a Rússia. Por isso, sejam quais forem as sanções, acabam inevitavelmente por serem "mais simbólicas do que efetivas". Então qual é a solução? "Chama-se diplomacia", mas é preciso um novo plano de paz porque o antigo, "na lógica de quem está a atacar, é um bocadinho absurdo": "Um pacote em que nós dizemos à Rússia que tem de tirar as tropas, que não fica com o território, que vai pagar os custos da guerra e que ainda vai a tribunal... Só na ilusão de Bruxelas é que isto faz sentido".

Francisco Pereira Coutinho não vê "perspectiva de resolução do conflito a curto prazo, especialmente agora que os Estados Unidos voltaram a querer armar a Ucrânia. "Não havendo um colapso de um dos lados, a guerra vai continuar. Faz lembrar muito a Primeira Guerra Mundial, em que durante vários anos a frente das batalhas esteve mais ou menos estabilizada, com pequenos ganhos aqui de um lado ou do outro. Até que, a certa altura, houve um dos lados que cedeu. É nisto que Putin está a apostar: considera que tem capacidade para aguentar mais tempo que a Ucrânia e acha que o Ocidente, a certa altura, vai cansar-se".

Mas se a Ucrânia está a perder terreno, infraestruturas e pessoas; se a Rússia perdeu poder económico; se o Ocidente está a despender fundos para apoiar Kiev - quem está a ganhar mesmo com esta guerra?

Para Tiago André Lopes, desde logo é a "indústria militar dos vários lados" que sai a vencer. E vence também a China, que, "se for agora para um confronto militar, tem as reservas estratégicas do Ocidente em níveis muito baixos, tem os Estados Unidos envolvidos em duas guerras e a Rússia sem capacidade de intervenção..." "A China, sem ter disparado um tiro, consegue agora entrar militarmente no tipo de operação militar que quiser, porque, além disto, tem um exército com um potencial operacional muito grande. Para já, quem mais lucra é Pequim."

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