Segurança militar ficou "100% acordada", mas ainda há "questões espinhosas". O que muda na guerra após a reunião entre Trump e Zelensky

28 dez 2025, 23:01

Entre garantias militares a 100% e elogios de Trump a Putin, o encontro em Mar-a-Lago pode ter tornado um possível acordo de paz mais próximo, mas a linha vermelha do território obriga Zelensky a remeter a decisão final para as urnas

A tensão de duas reuniões falhadas em Washington pairavam sob Zelensky, antes do início do encontro com o presidente norte-americano Donald Trump. Mas o que aconteceu foi uma maratona diplomática de mais de três horas que teve algum otimismo, novidades acerca das garantias de segurança mas também alertas de que tudo pode cair a qualquer momento. 

"Tivemos uma óptima reunião. Discutimos muitas coisas. Penso que estamos a ficar muito mais próximos, talvez muito próximos", afirmou o presidente Donald Trump na conferência de imprensa conjunta. 

O principal ponto de acordo entre os dois países parece estar ligado às garantias de segurança.  À saída da reunião, Volodymyr Zelensky foi perentório ao garantir que a dimensão militar e as garantias de segurança bilaterais com os Estados Unidos estão "100% acordadas", existindo também um princípio de acordo quase total que envolve a União Europeia. 

Uma posição corroborada mais tarde nas redes sociais por Ursula von der Leyen, que participou numa videochamada com líderes europeus no final do encontro e que descreveu a necessidade de garantias de segurança "blindadas desde o primeiro dia" como um pilar essencial dos progressos alcançados.

Embora exista um entendimento sobre 90% do plano de paz de 20 pontos, os restantes 10%, ou 5%, nas contas mais otimistas de Trump, encerram os desafios mais complicados. O principal continua a ser a soberania territorial da Ucrânia, com Zelensky a reiterar em Mar-a-Lago que a Constituição ucraniana impede a cedência de território por via parlamentar, remetendo qualquer decisão dessa natureza para a vontade popular. 

"Temos de respeitar a nossa lei e o nosso povo", afirmou o líder ucraniano, sublinhando que cabe à sociedade escolher o futuro da terra que pertence "à nação há muitas gerações", abrindo a porta à realização de um referendo sobre qualquer ponto do plano de paz.

O destino da central nuclear de Zaporizhzhia foi também um dos principais pontos da discussão entre as duas delegações, que incluiam alguns dos nomes mais importantes dos executivos dos dois países. Donald Trump revelou que este tema foi discutido "com grandes detalhes", chegando mesmo a elogiar a postura do presidente russo Vladimir Putin em relação à infraestrutura, afirmando que o líder russo "tem sido muito bom nesse sentido" e que tem trabalhado com a Ucrânia para a reabertura da central, uma das maiores do mundo. Trump adiantou ainda que está perto de ser fechado um acordo para uma zona de comércio livre no Donbass.

Apesar dos avanços, o horizonte temporal para um acordo de paz definitivo permanece incerto. No entanto, ambos os lados prometem continuar a reunir-se nas próximas semanas, abrindo mesmo a possibilidade para um novo encontro na capital americana, já em janeiro, com a presença de vários líderes europeus.

Donald Trump recusou comprometer-se com prazos rígidos, alertando que negociações desta natureza podem tropeçar em detalhes imprevistos.

"Se correr muito bem, podemos chegar a um acordo em algumas semanas. Se correr pior, pode não acontecer. É possível que não aconteça. Mas dentro de algumas semanas podemos saber. Podemos ter um objeto que pensamos que não é nada de especial e de repente torna-se um grande problema", afirma o presidente americano. 

Donald Trump deixou ainda a porta aberta a uma deslocação à Ucrânia para discursar no parlamento, caso tal seja necessário para assegurar um acordo de paz entre Kiev e Moscovo, embora tenha sugerido que esse cenário é pouco provável.

"Não tenho qualquer problema com isso [viajar para a Ucrânia]. Não está nos nossos planos; eu gostaria de fechar o acordo sem ter necessariamente de ir", afirmou aos jornalistas em Mar-a-Lago.

O Presidente norte-americano acrescentou ainda: "Ofereci-me para ir falar ao parlamento e, se isso ajudasse... não sei se ajudaria, acho que provavelmente sim, mas nem sequer sei se seria bem-vindo".

"É bem-vindo", assegurou prontamente o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

O presidente ucraniano recordou também o facto de a Constituição da Ucrânia não permitir a cedência de território através de votação parlamentar, sendo obrigatória a aprovação através de referendo popular.

Após o encontro com Donald Trump, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, sublinhou que a questão territorial continua a ser um ponto difícil.

"Conhecem a nossa posição", afirmou aos jornalistas presentes no complexo de Mar-a-Lago, na Florida. "Temos de respeitar a nossa lei e o nosso povo. Respeitamos o território que controlamos."

O líder ucraniano reiterou que a decisão final sobre a questão territorial caberá ao povo da Ucrânia, observando que poderá ser realizado um referendo sobre qualquer ponto do plano de paz, e não apenas sobre o território. Zelensky deixou também em aberto a possibilidade de envolvimento do parlamento.

"Podemos realizar um referendo sobre quaisquer pontos deste plano", declarou. "Claro que a nossa sociedade tem de escolher", sendo que cabe aos ucranianos votar, "porque é a terra deles, e não de uma só pessoa. É a terra da nossa nação há muitas gerações."

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