Proposta de paz foi entregue em mãos pela administração Trump à Ucrânia, que arrisca ver uma série de exigências fora da mesa. A cedência de território - até do que controla -, o reconhecimento do russo como língua oficial no seu país ou a desmilitarização são apenas algumas delas
É um plano para acabar com uma guerra entre duas partes, mas que contou com o contributo de apenas uma delas. Os Estados Unidos voltaram a pender para o lado da Rússia, enviando um plano para a solução do conflito na Ucrânia em que a visão do país invadido não foi tida em conta.
De acordo com o Financial Times, a proposta apresentada pelos Estados Unidos esta semana à Ucrânia exige uma série de concessões, sendo que os norte-americanos deixaram claro ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que deve aceitar este plano.
O jornal britânico acrescenta informações ao que a Reuters e a Axios já tinham revelado, e que dava conta de cedências de território e de poder nas Forças Armadas. Na prática, a concessão de duas das maiores exigências da Rússia, que quer a totalidade das zonas que reclama - mesmo as que não controla - e uma grande desmilitarização do regime de Kiev.
Escreve o Financial Times que este plano contou com o envolvimento de Rússia e Estados Unidos. E só isso, com a Ucrânia a ficar de fora da discussão.
De resto, um dos arquitetos deste novo plano é um dos principais aliados de Vladimir Putin, o atual diretor do Fundo Soberano de Investimento, Kirill Dmitriev, que tem estado invariavelmente presente nas negociações de paz que incluem Estados Unidos e Rússia.
O plano foi entregue pessoalmente pelo homem que quase desde o início do mandato de Donald Trump está a dirigir as operações de pacificação na Ucrânia e Médio Oriente. Steve Witkoff foi até Miami para entregar o documento ao atual secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, o antigo ministro da Defesa Rustem Umerov.
Foi naquela cidade da Florida que a Ucrânia ficou a saber da existência de 28 pontos que os Estados Unidos entendem serem necessários para resolver a guerra, com Steve Witkoff a deixar claro que a administração Trump quer que Volodymyr Zelensky aceite aqueles termos, incluindo aquilo que Kiev entende como linhas vermelhas.
Em cima da mesa está, para uma das fontes do Financial Times, a possibilidade de a Ucrânia abdicar da sua soberania, no que é visto como uma tentativa da Rússia de “jogar” com a administração Trump.
Em concreto, a cedência de toda a região do Donbass - incluindo dos territórios que a Ucrânia ainda controla, que correspondem a cerca de 14,5% de Donetsk e Lugansk - e o corte das Forças Armadas ucranianas para metade são as propostas que mais preocupam Kiev.
Quanto a Kherson e Zaporizhzhia, regiões que foram ilegalmente anexadas num referendo de 2022 e onde a Rússia tem várias posições, o documento admite até algumas concessões de território por parte de Moscovo, mas não menciona a retirada total.
Já a questão da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, é igual à do Donbass. É mesmo para esquecer e para ficar para a Rússia. Isto em troca de uma pequena concessão russa: que os Estados Unidos possam dar uma garantia de segurança de defesa à Ucrânia e à Europa em caso de futuro ataque, o que pode não significar exatamente nada mediante as condições.
É igualmente pedido à Ucrânia que abandone o fabrico de armas consideradas essenciais, além da reversão de muita da ajuda militar que os Estados Unidos têm dado desde o início da invasão, o que abre um potencial de vulnerabilidade em caso de futura ação militar da Rússia.
O plano gizado por Estados Unidos e Rússia também é crítico num ponto que a Europa tem procurado garantir: a existência de tropas estrangeiras na Ucrânia após um cessar-fogo. Washington, DC concorda com Moscovo e não quer soldados da NATO no terreno, sendo que também vai deixar de enviar armas de longo alcance, muitas delas essenciais para atrasar a máquina de guerra russa.
Do mais abrangente ao mais específico, o plano procura agradar a Vladimir Putin noutros dois pontos: a língua russa tem de ser reconhecida como oficial em toda a Ucrânia e a Igreja Ortodoxa Russa tem de passar a ser totalmente permitida no país.
Uma das fontes com conhecimento do documento admite que se trata de algo “muito confortável para Putin”, até porque “não é um plano, mas uma mistura de realidade e propostas práticas com boas intenções”.
“Parte disto é absolutamente inaceitável para os ucranianos”, acrescenta uma fonte ligada a Kiev, que vê um alinhamento de Washington, DC com Moscovo após a apresentação deste plano.
Ucrânia "inquieta"
A Ucrânia está “inquieta” com o plano de paz desenhado entre Estados Unidos e Rússia. De acordo com o Kyiv Independent, que cita fonte da presidência ucraniana, a proposta não foi recebida com entusiasmo, até porque o entendimento é que há uma mudança de posição para um maior alinhamento com as exigências da Rússia.
Uma fonte conhecedora da proposta disse ao jornal ucraniano que existe um endurecer das condições maximalistas da Rússia, o que é entendido como uma tentativa de explorar o recente escândalo de corrupção.
Sempre de acordo com o jornal ucraniano, uma delegação militar de Kiev espera agora para analisar a proposta ao detalhe. Depois disso poderá mesmo haver uma viagem a Moscovo para encontros cara a cara, o que não acontece há quase quatro meses.
Esta proposta de paz é mais uma pedra num sapato que Volodymyr Zelensky tem tido dificuldade em calçar. Com o avanço - mesmo que demorado - das tropas russas na linha da frente e o escândalo de corrupção a atingir o seio do governo ucraniano, um pender dos Estados Unidos para o lado da Rússia era a última coisa que a Ucrânia precisava.