Rússia leva a cabo “uma estratégia deliberada" para obrigar à retirada de três milhões de ucranianos de Kiev

6 nov, 23:51

Apenas na região de Kiev, 450 mil apartamentos permanecem sem acesso a eletricidade. Zelensky fala em danos que atingem cerca de 40% da capacidade de produção elétrica do país. Kiev quer instalar cerca de mil pontos de aquecimento, mas não há garantias que tal seja suficiente

Frio, falta de água e uma crise humanitária à vista. Com a chegada do inverno e os constantes ataques russos às infraestruturas críticas ucranianas, Kiev teme o pior e admite mesmo evacuar a capital em resposta à ameaça russa de deixar a capital do país sem eletricidade e sem água durante todo o inverno. 

Foi isso que o presidente da Câmara de Kiev, Vitali Klitschko, disse aos habitantes da principal cidade ucraniana, alertando para que se preparem para o pior neste inverno. “Estamos a fazer tudo para evitar isso. Mas, sejamos francos, os nossos inimigos estão a fazer tudo para que a cidade fique sem aquecimento, sem eletricidade, sem abastecimento de água”, admitiu o autarca.

Este esforço, admite à CNN Portugal o major-general Vítor Viana, faz parte do que diz ser “uma estratégia deliberada” de Moscovo para causar uma "crise humanitária de inverno", que na região é particularmente hostil. Apenas na região de Kiev, 450 mil apartamentos permanecem sem acesso a eletricidade. Zelensky fala em danos que atingem cerca de 40% da capacidade de produção elétrica do país. Kiev quer instalar cerca de mil pontos de aquecimento, mas não há garantias que tal seja suficiente para uma cidade de três milhões de habitantes.

“O presidente de Kiev está a fazer o trabalho de casa. Devemos planear para a hipótese mais provável, mas acautelando a pior de todas, que seria o cenário de um apagão total, que implicaria a necessidade de deslocar cerca de três milhões de habitantes”, afirmou o major-general Isidro de Morais Pereira, que sublinha que esta seria uma operação “gigantesca”.

Cidade de Kiev às escuras após receio de ataques russos a infraestruturas (Andrew Kravchenko/AP)

Desgastados e incapazes de fazer a infantaria avançar no terreno, estes ataques russos acontecem, sublinha Vitor Viana, nas únicas áreas de combate em que a Rússia ainda detém superioridade: os mísseis cruzeiros e os drones kamikazes. O objetivo passa por quebrar a vontade de lutar da população ucraniana, mas não é certo que estes ataques produzam o resultado pretendido.

“A Rússia quer levar a Ucrânia à capitulação por esta via, mas, na minha opinião, é muito pouco provável que isso aconteça. Julgo mesmo que terá o efeito contrário, no que toca à determinação de defender a soberania e integridade territorial da Ucrânia”, considera o major-general.

Os ataques russos, que também têm como alvo várias localizações militares, leva a que a Ucrânia tenha de se apressar para conceber um Planeamento Civil de Emergência. Perante cenários desta natureza, as autoridades preparam plano de contingência capaz de prevenir, dar resposta e, posteriormente, controlar os danos dos contínuos ataques russos às infraestruturas críticas.

Contra-ofensiva ucraniana em Kherson

Mas Kiev não tem deixado Moscovo sem resposta. Ainda este domingo, a cidade ocupada de Kherson, no sul da Ucrânia, ficou sem acesso a água e eletricidade, com a agência russa RIA Novisti a acusar as tropas ucranianas de levarem a cabo “um ataque terrorista” contra as instalações da cidade.

“É preciso o apoio do ocidente, que também está a braços com uma crise energética. É preciso apoiar imediatamente as populações para fazer face a um inverno que se avizinha muito rigoroso”, refere Vítor Viana, que acrescenta que a falta de eletricidade leva à falta de água e a “situações caóticas”.

Casal utiliza lanterna para fazer um puzzle durante um apagão em Kiev (Ed Ram/Getty Images)

De acordo com uma publicação na conta oficial de Telegram da administração russa da cidade, “três colunas de betão armado de linhas de alta tensão foram danificadas”. A CNN Portugal não conseguiu confirmar a veracidade destas alegações.

Os habitantes da cidade ucraniana de Kherson, ocupada pela Rússia, receberam mensagens de alerta nos telemóveis, pedindo que se retirassem o mais rápido possível, para se precaverem de um previsível ataque das forças controladas por Kiev. As forças russas estão a preparar-se para uma contra-ofensiva ucraniana, que poderá tentar a recuperação da cidade, que foi capturada durante os primeiros dias da invasão.

Além disso, as forças russas continuam a acusar a Ucrânia de atacar a central hidroelétrica da barragem de Nova Kakhovka, acusando o governo ucraniano de estar a tentar criar também ele “uma crise humanitária”. De acordo coma RIA Novisti, as forças armadas ucranianas terão disparado seis foguetes do sistema HIMARS, enviado pelos Estados Unidos da América.

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, assegurou que a Rússia está a concentrar forças e meios para "uma possível repetição" dos ataques massivos às infraestruturas ucranianas, mas garantiu que o país está a preparar-se para responder.

Trabalhador tenta reparar infraestruturas elétricas danificadas em Kiev (Ed Ram/Getty Images)

“Estamos a prepara-nos para responder”, disse Zelensky, no seu habitual discurso transmitido nas redes, assegurando que os russos usaram drones de ataque iranianos novamente hoje e, embora alguns tenham sido abatidos, outros acertaram nos alvos.

“Se não fosse o fornecimento iraniano de armas ao agressor, estaríamos agora mais perto da paz”, disse.

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