Rússia está cada vez mais perto de conquistar o Donbass. E a situação das forças ucranianas "é pior do que dizem"

27 mai, 19:00

As tropas invasoras estão a avançar de forma lenta no terreno mas terão já tomado o controlo total de Lyman, uma cidade com um papel importante na guerra, uma vez que pode permitir o cerco a várias brigadas ucranianas. Também Severodonesk vai resistindo como pode, tendo dois terços do seu território cercado

Volodymyr Zelensky fala em genocídio no Donbass, Boris Johnson em progressos palpáveis dos russos, o governador de Lugansk já comparou a situação vivida na região com o cerco de Mariupol e o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano já confirmou que a situação militar a leste é "tão terrível quanto as pessoas dizem - ainda pior do que as pessoas dizem". As tropas russas parecem estar a ganhar terreno e, esta sexta-feira, os separatistas pró-russos da autoproclamada República do Povo de Donetsk afirmaram ter tomado o controlo total da cidade de Lyman.

Também o relatório mais recente sobre a guerra na Ucrânia publicado pelo Institute for the Study of War, um think tank norte-americano, revela que as tropas russas têm o controlo de mais de 95% da região administrativa de Lugansk "e, provavelmente, continuarão os esforços para completar a captura de Severodonetsk nos próximos dias". 

Os combates na região terão destruído várias infraestruturas militares e, de acordo com o governador de Lugansk, os militares já terão começado a retirar-se para "posições mais fortificadas", uma vez que estão a enfrentar uma "defesa agressiva" em Severodonesk que, por esta altura, já tem dois terços do seu território cercado pelos invasores. 

Na quarta-feira, a vice-ministra da Defesa ucraniana, Ganna Malyar, já tinha afirmado que os combates das forças ucranianas contra as tropas russas no leste tinham atingido a sua "intensidade máxima" e que as tropas enfrentavam "uma etapa longa e extremamente difícil".

Na quinta-feira à noite, no seu discurso diário transmitido na televisão, Volodomyr Zelensky acusou a Rússia de estar a cometer um “genocídio” no Donbass. 

“A atual ofensiva russa no Donbass pode tornar a região inabitável”, disse Zelensky, acusando as forças invasoras de tentar “incendiar” várias cidades da região.

A Rússia pratica, ainda, a “deportação” e “assassínio em massa de civis” no Donbass, prosseguiu o chefe de Estado, salientando que “tudo isso (…) é uma óbvia política de genocídio levada a cabo pela Rússia”.

Já esta sexta-feira, o primeiro-ministro britânico confirmou que o exército de Vladimir Putin está a conseguir progredir de forma lenta, mas palpável, no Donbass. 

“Lamento dizer, mas Putin - com um custo pessoal pesado, bem como para o exército russo - está a conquistar território no Donbass e tem conseguido progressos graduais, lentos, mas temo que palpáveis. É por isso que é absolutamente vital que continuemos a apoiar os ucranianos de forma militar”, afirmou Boris Johnson à Bloomberg TV.

Qual o impacto da conquista de Lyman?

Perante os avanços das tropas russas na região, a Ucrânia já começa a admitir a superioridade dos invasores no Donbass. Estará perto uma derrota da Ucrânia? Em análise na CNN Portugal, o coronel Mendes Dias admite que a situação se está a tornar "muito difícil" para as forças ucranianas devido ao controlo russo de várias cidades estratégicas.

"Torna-se muito difícil para as forças ucranianas resistirem neste momento. (...) Quando comparamos os números de efetivos e o tipo de equipamento, estamos nesta altura de um 6 ou 7 para 1 a favor dos russos", diz o coronel, explicando que o intuito é fazer um cerco total a Severodonetsk e Lysychansk.

Para Mendes Dias, um dos principais objetivos das forças russas sempre foi "tomar o Donbass, anexar a Crimeia ao Donbass e tomar as costas do Mar Negro".

Por sua vez, o major-general Carlos Branco considera que o avanço dos russos no Donbass "pode representar o início do colapso das forças ucranianas naquela região".

"Lyman tem um papel importante porque se enquadra no deslocamento das forças russas do norte para sul e no deslocamento que está a existir de sul para norte, com as forças russas prestes a fazer um cerco total. Permite assim cercar cinco/seis brigadas que se encontram naquela região, o que vai ter um impacto muito importante no desenrolar dos conflitos", explica, lembrando que, depois de Lyman e Severodonetsk, seguir-se-à Kramatorsk.

Em Kramatorsk, precisamente, os combates são cada vez mais intensos e, de acordo com os enviados-especiais da CNN Portugal Carla Rodrigues e João Franco, os ucranianos admitem que "o exército russo está a ganhar terreno".

"Kramatorsk é um dos palcos onde os combates estão mais intensos aqui no Donbass. Está a ser uma situação difícil para as forças ucranianas e elas próprias o admitem", descreve Carla Rodrigues. 

De acordo ainda com a equipa da CNN Portugal, o som das explosões ouve-se ao redor da cidade onde ainda se mantém alguma população, na sua maioria, idosa. 

Oito mil soldados prisioneiros

Na quarta-feira, Rodion Miroshnik, "embaixador" na Rússia da autoproclamada República Popular de Lugansk, avançou que os separatistas pró-russos tinham feito prisioneiros cerca de oito mil soldados ucranianos no Donbass.

"Há muitos prisioneiros. É evidente que há mais no território da República Popular de Donetsk, mas nós [Lugansk] também temos bastantes, sendo que o número ronda atualmente os oito mil", disse Miroshnik citado pela agência russa TASS.  

"São muitos e literalmente há centenas todos os dias", acrescentou. 

Os números elevados não se traduzem apenas nos detidos. Esta quinta-feira, o chefe da administração militar de Severodonetsk, Alexander Stryuk, revelou que pelo menos 1.500 pessoas foram mortas naquela cidade, que tinha cerca de 100 mil habitantes antes da guerra.

Para além disso, 90% dos edifícios residenciais de Severodonetsk foram destruídos. A cidade tem sido palco de combates ferozes, uma vez que o exército russo tenta tomar o controlo da mesma a todo o custo.

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