Com falta de recrutas russos, o Kremlin procura angariar estrangeiros de muitos países
"Por nós a verdade, por nós a Rússia!" Moscovo acusada de usar engano, suborno e chantagem na recruta de estrangeiros para combater na Ucrânia
por Ivana Kottasová e Victoria Butenko, CNN
Os prisioneiros de guerra vêm de todos os cantos do mundo: Quénia, Nepal, Tajiquistão, só para citar alguns. Falando línguas diferentes e vindos de culturas diversas, eles têm uma coisa em comum: dizem que foram enganados pela Rússia para se juntarem a uma guerra que não queriam travar.
Quase 200 estrangeiros de 37 países foram capturados a lutar pela Rússia e estão atualmente detidos como prisioneiros de guerra pela Ucrânia, de acordo com o Quartel-General Ucraniano de Coordenação para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra. Os seus relatos pintam um quadro perturbador do engano, suborno e chantagem que, segundo eles, Moscovo está a usar para atrair estrangeiros a alistarem-se no seu exército.
À medida que a Rússia continua a ter dificuldades em recrutar entre o seu próprio povo para combater na Ucrânia, Moscovo recorre mais a estrangeiros para reforçar as suas forças armadas.
O brigadeiro-general Dmitry Usov, que chefia a sede de prisioneiros de guerra, diz que a Ucrânia já identificou mais de 18 mil estrangeiros de 128 países e territórios que combateram ou estão atualmente a combater pela Rússia na Ucrânia — um número que não inclui os milhares de soldados norte-coreanos enviados para lutar pela Rússia como parte de um acordo de cooperação militar entre os dois países. O número real de estrangeiros a lutar pela Rússia é provavelmente muito maior.
O aumento do número de estrangeiros encontrados a lutar na Ucrânia levou recentemente vários países a emitir apelos veementes à Rússia para que pare de recrutar cidadãos seus.
No início deste mês, o presidente do Quénia, William Ruto, disse que o seu governo estava preocupado "com os jovens quenianos que foram ilegalmente recrutados para lutar na guerra".
No mesmo dia, o governo da África do Sul disse que vai investigar a forma como 17 dos seus cidadãos acabaram a combater na guerra, depois de terem enviado pedidos de socorro para voltarem para casa do Donbass, região no leste da Ucrânia de que a maior parte está sob controlo militar russo.
Um dia depois, Randhir Jaiswal, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia, declarou que 44 cidadãos indianos estavam a combater pela Rússia, acrescentando que o governo indiano "mais uma vez abordou o assunto com as autoridades russas para que eles fossem libertados o mais rápido possível e também para pôr fim a essa prática". Segundo afirmou, as autoridades indianas estavam a tomar medidas para impedir que as pessoas fossem "levadas ao engano a alistarem-se".
A Inteligência de Defesa ucraniana disse à CNN que o número de estrangeiros encontrados na linha de frente na Ucrânia tem crescido ano a ano desde que a Rússia lançou a sua invasão em grande escala no início de 2022, mas aumentou significativamente este ano. O número de estrangeiros feitos prisioneiros pelas tropas ucranianas nos primeiros nove meses deste ano foi o dobro do total do ano passado, que por sua vez foi cinco vezes maior do que o número de 2023, de acordo com Kiev.
A CNN solicitou comentários ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo e às Forças Armadas russas, mas não obteve resposta. Moscovo já antes negou ter coagido estrangeiros a alistarem-se.
Necessidades de força humana
Moscovo está a travar uma guerra brutal e exaustiva na Ucrânia. As suas forças armadas continuam a avançar lentamente, mais recentemente em direção à cidade oriental de Pokrovsk, mas este progresso tem um custo enorme.
Nem a Rússia nem a Ucrânia divulgam dados sobre baixas, mas Moscovo deixou de publicar até os dados demográficos e de mortalidade mais básicos no início deste ano, provavelmente para disfarçar o custo real da guerra, segundo estimam vários analistas.
Agências de inteligência ocidentais acreditam que a Rússia sofreu mais de um milhão de baixas, incluindo mais de 250 mil mortes, desde fevereiro de 2022. Na sua estimativa mais recente, a Inteligência da Defesa do Reino Unido afirmou que, em média, cerca de mil soldados russos são mortos ou feridos todos os dias.
Esta taxa surpreendentemente elevada de baixas deixa a Rússia com a necessidade de um fornecimento constante de novos recursos humanos – numa altura em que todos os sinais apontam para o facto de que o número de cidadãos russos dispostos a alistar-se está a cair drasticamente.
O Kremlin está receoso em convocar outra mobilização após o fiasco da mobilização parcial de setembro de 2022, que levou centenas de milhares de homens russos a fugir do país. Ao mesmo tempo, a Rússia enfrenta enormes pressões demográficas — as Nações Unidas projetam que a população russa poderá cair entre 25% e 50% até 2100.
Na tentativa de atingir as metas de recrutamento impostas pelo Kremlin, muitas regiões russas aumentaram drasticamente a quantia que pagam aos novos recrutas militares. Analistas dizem que isso é um indício de que as campanhas de recrutamento "ideológicas" já não são suficientes para motivar os russos a lutar na Ucrânia.
"Novos russos"
A presença de estrangeiros nas linhas da frente na Ucrânia não é segredo. A Ucrânia tem recrutado voluntários estrangeiros desde o início da guerra, chegando mesmo a formar unidades específicas para eles. Kiev não divulga informações sobre os estrangeiros nas suas fileiras, mas o seu número provavelmente chega a milhares – apesar de muitos países, incluindo o Reino Unido e muitos países europeus, alertarem especificamente os seus cidadãos contra o alistamento.
A diferença, de acordo com os ucranianos, numa avaliação apoiada por organizações de direitos humanos, é que, enquanto aqueles que lutam pela Ucrânia provavelmente tomaram a sua decisão de forma independente e voluntária, muitos dos estrangeiros nas fileiras da Rússia não o fizeram.
Funcionários da Inteligência de Defesa ucraniana garantem à CNN que as táticas de recrutamento estrangeiro da Rússia se resumem a três abordagens: chantagem, suborno e engano.
Vistos russos, autorizações de residência e a promessa de cidadania russa – ou a ameaça de que ela seja retirada – tornaram-se ferramentas fundamentais para a Rússia na sua tentativa de recrutar mais combatentes.
De acordo com os funcionários da Inteligência de Defesa ucraniana, os migrantes para a Rússia provenientes de países da Ásia Central, como Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão, são os mais propensos a alistar-se por motivos de migração.
O Kremlin facilitou recentemente a obtenção de vistos e passaportes russos por estrangeiros em troca do serviço militar. Entretanto, no ano passado, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma lei que permite que cidadãos russos naturalizados sejam privados da sua cidadania se não se registarem para o serviço militar.
De acordo com grupos de direitos humanos, incluindo a Memorial, a organização de defesa dos direitos humanos russa que foi proibida na Rússia em dezembro de 2021, na véspera da invasão da Ucrânia, combatentes de países da Ásia Central costumam dizer que foram ameaçados com prisão e deportação, a menos que concordassem em se alistar. A inteligência de defesa ucraniana confirmou isso.
A Rússia não nega esta prática. Alexander Bastrykin, presidente do Comité de Investigação da Rússia, disse em maio que as autoridades russas já tinham "apanhado" 80 mil cidadãos russos recentemente naturalizados que estavam a evitar o registo militar, informou o grupo de comunicação social russo RBC. Segundo afirmou, 20 mil desses novos cidadãos russos do Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão estão agora na linha da frente.
Embora muitos homens nascidos no estrangeiro que já vivem na Rússia estejam a ser coagidos a alistar-se no exército, muitos outros parecem ter sido ido para o país com o objetivo de prestar serviço militar.
De acordo com o grupo de investigação de guerra de informação OpenMinds, o número de anúncios que promovem o serviço militar contratado e que se dirigem especificamente a estrangeiros aumentou mais de sete vezes desde este verão.
A nova análise da OpenMinds sobre o conteúdo da rede social mais popular da Rússia, VKontakte, mostrou que, em meados de 2025, uma em cada três publicações anunciando contratos militares era direcionada a estrangeiros, em comparação com apenas 7% de todos os anúncios há apenas um ano.
Os anúncios geralmente incluem garantias de que os recrutas não serão enviados para unidades de assalto e antes serão designados para posições específicas com menor risco para as suas vidas, analisa a OpenMinds.
Os dados, partilhados exclusivamente com a CNN, mostram que cerca de metade dos anúncios visam estrangeiros de língua russa de países pós-soviéticos, enquanto o restante é direcionado a nações africanas, Índia, Bangladesh, Iraque, Iémen e outros. Apenas uma pequena proporção dos anúncios – cerca de um sexto – não faz menção a um país específico.
Anúncio russo publicado no Telegram: em russo pode ler-se "Por nós - a verdade, por nós - a Rússia!". E em árabe: "Queridos amigos! As inscrições para o Batalhão de Elite Internacional continuam abertas! Aceitam-se cidadãos estrangeiros de todos os países! Idades entre 18 e 55 anos!”
Segundo a OpenMinds,embora o interesse em contratos militares fosse mínimo entre os estrangeiros nos primeiros anos da guerra, dados do motor de busca em russo Yandex mostram que a proporção de pesquisas sobre contratos militares nos países pós-soviéticos aumentou dez vezes em 2024 e continuou a crescer em 2025.
A mensagem varia dependendo do público-alvo.
A OpenMinds afirma que muitos dos anúncios em russo prometem benefícios sociais e financeiros, bem como assistência na obtenção de um passaporte russo.
Publicações nas redes sociais que circularam na China no início deste ano prometiam bons salários e promoviam uma certa imagem de masculinidade, com slogans como "Seja um homem de verdade!".
Um canal do Telegram visto pela CNN tem como alvo falantes de árabe, prometendo aos mercenários em potencial vistos russos acelerados, salários de cerca de 2 000 a 2 500 dólares por mês [1 730 a 2 160 euros ao câmbio atual], assistência médica gratuita e um estilo de vida com todas as despesas pagas. Os canais mencionam combatentes de Marrocos, Jordânia, Iraque, Argélia e Síria como recrutas desejáveis.
Um contrato militar russo assinado por um cidadão chinês e visto pela CNN inclui algumas dessas vantagens, como a promessa de que o soldado terá acesso a educação gratuita após três anos de serviço e que suas “refeições, vestuário e outros suprimentos” serão pagos pela Rússia.
Em troca, o soldado que assinou o contrato concordou em "participar em combates, cumprir deveres durante o período de mobilização, durante emergências e lei marcial, conflitos armados, participar em atividades para manter e restaurar a paz e a segurança internacionais ou combater atividades terroristas internacionais fora do território da Federação Russa".
Funcionários ucranianos que falaram com a CNN sobre o assunto disseram que alguns dos estrangeiros capturados pela Ucrânia afirmaram ter sido obrigados a assinar contratos em russo sem compreender o seu conteúdo e sem que lhes fosse fornecida qualquer tradução.
Prisioneiros de guerra que falaram com os investigadores ucranianos disseram que o seu treino de combate durou de uma a duas semanas, tendo depois sido enviados para a linha da frente, onde muitas vezes acabaram por fazer parte das unidades de assalto forçadas a invadir as posições ucranianas, apesar dos enormes riscos. O número de mortos é impressionante – Usov disse que, dos mais de 18 mil estrangeiros que a Ucrânia conseguiu identificar, pelo menos 3 388 foram mortos.
O governo ucraniano lançou uma iniciativa especial destinada a estrangeiros que lutam pela Rússia e outros recrutas russos relutantes, oferecendo-lhes um refúgio seguro e o estatuto de prisioneiros de guerra se se renderem. As páginas do site do programa podem ser lidas em inglês, russo, espanhol e árabe.
"Empregos na construção civil" que não existem
Embora alguns dos anúncios sejam relativamente transparentes sobre os empregos que oferecem – os anúncios incluem fotografias de unidades de assalto russas e soldados de combate –, outros não o são.
Os responsáveis dos Serviços Secretos de Defesa ucranianos disseram à CNN que alguns dos prisioneiros de guerra contaram aos investigadores ucranianos que vieram para a Rússia depois de lhes terem sido prometidos empregos na construção civil, em armazéns, como guardas de segurança ou como motoristas. Disseram que esta experiência era mais frequentemente descrita por prisioneiros de países distantes e de baixos rendimentos, como o Sri Lanka, Cuba, Nepal e algumas nações africanas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Quénia emitiu uma declaração no início deste mês, dizendo que tinha descoberto uma operação de tráfico de pessoas que recrutava quenianos para serem enviados para o combate sob o pretexto de empregos no estrangeiro. Afirmou que outros cidadãos quenianos que foram resgatados da Rússia disseram que foram enganados sobre a natureza do trabalho que iriam realizar e acabaram em empregos perigosos, incluindo a montagem de drones e o manuseamento de produtos químicos.
Também no mês passado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cuba afirmou que, após descobrir em 2023 que os seus cidadãos estavam a combater na Ucrânia, tinha lançado uma ofensiva contra as redes de recrutamento e tráfico de seres humanos responsáveis. Afirmou que 26 pessoas já foram condenadas, com vários outros julgamentos ainda pendentes.
No ano passado, o governo do Sri Lanka realizou uma série de reuniões de alto nível com autoridades russas especificamente para abordar a questão do recrutamento de cidadãos do Sri Lanka para lutar na guerra.
O Nepal afirmou que dezenas de cidadãos seus foram recrutados sob falsos pretextos para se juntarem ao esforço de guerra da Rússia e pediu a Moscovo que interrompesse essa prática. No ano passado, o Nepal chegou a proibir os seus cidadãos de viajar para a Rússia ou Ucrânia para trabalhar.
O brigadeiro-general Dmitry Usov, que chefia a Sede de Coordenação para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra da Ucrânia, disse esta semana que a medida funcionou.
“Em 2023-2024, quase mil cidadãos do Nepal assinaram um contrato com o exército russo. Em 2025, até 1 de outubro, apenas uma pessoa deste país se alistou no exército russo”, concluiu.