Roman Abramovich, o bilionário de origens humildes e próximo alvo de Bruxelas

8 mar, 11:21
Roman Abramovich (AP/Lefteris Pitarakis)

Empresário estará na próxima lista de sanções da União Europeia. Partindo do zero, construiu uma das maiores fortunas da Rússia, com a conivência e patrocínio das elites políticas do país. Antes viveu em orfanatos, passou pelo exército russo e começou a trabalhar como mecânico

"Para dizer a verdade, não posso dizer que a minha infância tenha sido má. Na infância não consegues comparar as coisas: um come uma cenoura, outro um doce, e ambos sabem bem. Enquanto és criança não sabes a diferença". A frase é do bilionário Roman Abramovich e recorda os tempos em que ainda bebé, depois de ficar sem pai nem mãe, teve de viver em vários orfanatos. Foi dita ao The Guardian quando o magnata tinha 40 anos e controlava já um império. Hoje, aos 55 anos, continua a acumular riqueza - é, segundo o ranking da Forbes, o 142º mais rico do mundo - e tornou-se notícia por ter sido falado como uma possível ajuda nas negociações entre a Ucrânia e a Rússia.

O nome bilionário entrou pelas casas dos europeus em 2003, com a aquisição do Chelsea e subsequente investimento no clube londrino, que conquistou cinco títulos da Premier League, cinco Taças de Inglaterra, mas, sobretudo, duas Ligas dos Campeões durante o seu reinado, que está agora prestes a terminar ao fim de 19 anos, um dano colateral da invasão russa à Ucrânia.

A história deste empresário vai muito para além do futebol e nem sempre teve a vida de luxo. A biografia não autorizada "O bilionário de lado nenhum", escrita em 2004 pelos jornalistas Dominic Midgley e Chris Hutchins, conta os momentos mais difíceis. Nascido no seio de uma família judia, Abramovich ficou órfão de pai e mãe com apenas 2 anos e meio, tendo passado a sua infância entre a casa dos tios e vários orfanatos na localidade de Ukhta, perto do Círculo Polar Ártico. A sua juventude difícil ter-lhe-á ensinado o valor do dinheiro e, ainda durante a sua passagem pelo exército soviético, entrou no mundo dos negócios, no ramo automóvel, onde se tinha iniciado como mecânico numa pequena oficina.

As grandes oportunidades da vida de Abramovich chegaram com o colapso da União Soviética e o desregulado processo de privatizações levado a cabo pelo então presidente Boris Yeltsin. Criou o seu primeiro negócio legítimo, de venda de brinquedos de plástico, com a sua primeira mulher, Olga, mas depressa expandiu os seus investimentos para os setores do petróleo, agricultura e pecuária, entre outros, acumulando bastante capital. Em 1995 surge aquele que foi, talvez, o negócio mais importante de Abramovich. Em conjunto com o já estabelecido oligarca Boris Berezovsky, comprou a maior parte das ações da Sibneft, uma das maiores produtoras de petróleo da Rússia e do mundo, por pouco mais de 176 milhões de euros. O negócio veio a compensar ainda mais vários anos depois, em 2000, já que Berezovsky não caiu nas boas graças do recém-eleito presidente Vladimir Putin e foi forçado ao exílio, não sem antes ter vendido a sua parte na Sibneft a Abramovich, que aumentou ainda mais a sua fortuna. O sucesso da compra ficou evidente em 2003, quando a empresa já valia 13,2 mil milhões de euros.

O passo seguinte foi o mais difícil. O virar do milénio na Rússia ficou marcado pelas chamadas “guerras do alumínio”. “A cada três dias, uma pessoa naquela indústria era morta”, disse o próprio Abramovich durante um julgamento em Londres, que não entrou neste setor até ser persuadido pelo empresário georgiano Badri Patarkatsishvili, já estabelecido no violento ramo. Quase sem querer, e não isento de polémicas (já lá iremos), tornou-se num dos grandes produtores de alumínio do país através da Rusal, que ainda hoje é a segunda maior empresa mundial desta área

Foi também por esta altura que Roman Abramovich se estreou no mundo da política. Após uma curta passagem pela Duma, a câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia, o empresário foi eleito governador da Região Autónoma de Chukotka, a mais oriental do país e também uma das mais pobres. "Quando chegas lá e vês a situação em que estão 50 mil pessoas, queres fazer algo. Nunca vi nada pior na minha vida do que o que vi lá (em Chukotka)", afirmou ao The Guardian. Durante os seus dois mandatos, de 2000 a 2008, investiu perto de mil milhões de euros na região, a que se somaram mais de dois mil milhões de euros em doações entre 2009 e 2013. Nos primeiros seis anos de governação, o salário médio dos trabalhadores de Chukotka quintuplicou, razão pela qual é hoje admirado pelos seus antigos eleitores.

Os inimigos

Pelo caminho, na construção da fortuna, fez inimigos e colecionou controvérsias. Outrora sócios, Abramovich e Berezovsky vieram a desentender-se sobre questões de dinheiro. Em 2011, o malogrado Berezovsky (encontrado morto em casa dois anos mais tarde) processou o antigo parceiro de negócios por chantagem, quebra de confiança e quebra de contrato. O caso foi, no entanto, arquivado pelo Tribunal Superior de Londres no ano seguinte, que considerou o acusador uma testemunha “pouco fiável”. Sobre Abramovich recaem também suspeitas de que terá mandado matar vários empresários durante as “guerras do alumínio”. No entanto, nunca foi formalmente investigado por isso. Em matéria ambiental, o empresário é campeão pela negativa. De acordo com a publicação The Conversation, Abramovich era, em 2018, o bilionário mais poluidor do mundo, isto apenas contando com as suas propriedades e bens pessoais, deixando de fora as participações em empresas de setores nefastos para o ambiente.

A passagem pelo Chelsea levou-o à fama mundial, muito impulsionada pela contratação de José Mourinho no verão de 2004, que trouxe os grandes títulos nacionais de volta a Stamford Bridge. A complicada relação com alguns treinadores, bem como a rapidez com que os despedia após uma má série de resultados, foram das marcas mais características da sua presidência. Até ao verão de 2020, o russo tinha gastado cerca de 2,5 mil milhões de euros só em transferências, valor superior inclusive ao desembolsado por Florentino Pérez ao leme do Real Madrid.

A sua vida de luxo é reveladora do seu império. Ao longo dos anos, tornou-se no maior comprador mundial de iates, embora atualmente só tenha dois: o Eclipse, que chegou a ser o maior do mundo e pelo qual pagou 370 milhões de euros, e o Solaris, encomendado por 563 milhões de euros. O empresário é também dono de um Boeing 767, de nome “The Bandit” (“O Bandido”), e de múltiplas mansões em Londres, Nova Iorque e Moscovo. Abramovich é, igualmente, colecionador de obras de arte, de pintores como Francis Bacon e Lucian Freud, entre outros, tendo ainda patrocinado várias exposições de fotografia sobre a antiga União Soviética.

 Agora um homem solteiro, Abramovich casou três vezes, sempre sem sucesso. O primeiro casamento, com Olga Lysova, terminou ao fim de três anos, em 1990; o segundo, e mais longo, data de 1991, com Irina Malandina, e acabou em 2007, altura em que surgiram rumores na imprensa cor-de-rosa britânica de um relacionamento com Darya Zhukova, filha de um outro oligarca, com quem veio a casar em 2008. Como não há duas sem três, a união entre os dois terminou ao fim de dez anos. Com as duas últimas mulheres teve sete filhos (cinco com Irina, dois com Darya), e todos têm as suas vidas independentes. O mais velho, Arkadiy, seguiu as pisadas do pai, e é já dono de empresas e fundos de investimento, e duas das suas filhas, Arina e Sofia, são amazonas profissionais.

Abramovich é também ativista contra o antissemitismo, promovendo várias instituições que apoiam esta causa. Foi oficialmente reconhecido pelo Fórum para a Cultura e Religião Judaicas pelo seu contributo de mais de 460 milhões de euros para a causas do judaísmo em todo o mundo, tendo de igual modo, durante a sua presidência do Chelsea, assinado uma parceria entre o clube e a Liga Antidifamação.

Na lista das sanções da UE?

A sua ascendência judaica esteve na origem de um dos assuntos mais comentados na sociedade portuguesa no fim do ano passado. Revelada pelo jornal Público, a atribuição da nacionalidade portuguesa ao bilionário russo, decorrente da lei que permite a descendentes de judeus sefarditas adquirir a cidadania como compensação pela expulsão decretada no final do século XV, levantou algumas dúvidas, dada a falta de ligação aparente entre Abramovich, apelido comum entre judeus asquenazes, e este grupo étnico. Suspeito é também o facto de o bilionário ser parceiro há vários anos da Comissão de Certificação do Judaísmo, que lhe comprovou a ascendência, e patrocinador da Comunidade Judaica do Porto e do Museu do Holocausto da cidade, cujo curador, Hugo Miguel Vaz, editou a página da Wikipédia de Abramovich 18 vezes, introduzindo várias referências às alegadas origens sefarditas do russo. A atribuição da nacionalidade está a ser investigada pelas autoridades, mas, até decisão em contrário, o empresário tem passaporte português (que juntou ao russo e ao israelita), um dos mais poderosos do mundo, e é cidadão da União Europeia.

O futuro de Abramovich, assim como de todos os oligarcas russos próximos de Putin, é incerto. Fonte de Bruxelas garantiu à CNN Portugal que o luso-russo vai estar na próxima lista de sanções da União Europeia. A sua filha Sofia expressou no seu perfil de Instagram a oposição à guerra e ao presidente russo. O próprio empresário comprometeu-se a doar o lucro da venda do Chelsea às vítimas da guerra na Ucrânia, através de uma fundação criada para o efeito. Contudo, esta ação, praticada após anos e anos de amizade com Vladimir Putin e as elites russas, não deverá livrar o empresário de um pesado rombo nas suas finanças, colocando em risco a sua fortuna de cerca de 12 mil milhões de euros.

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