Relatório secreto revela que sanções deixaram "banco do Kremlin" em apuros

6 jun, 16:12
Gazprom, o gigante do gás russo

As sanções não são todas iguais e umas têm mais impacto que outras. E, no campo do gás natural, um gigante estatal russo está em apuros

Era a maior empresa russa e chegou a aspirar ser a maior corporação do mundo, mas os planos de Vladimir Putin mudaram por completo o rumo da Gazprom. Um relatório encomendado pelos gestores do gigante do gás natural aponta que a empresa vai demorar, pelo menos, mais de uma década para recuperar as receitas pré-guerra.

De acordo com o estudo feito para a empresa, o antigo principal fornecedor de gás natural europeu vai fornecer “apenas” entre 50 a 75 mil milhões de metros cúbicos por ano, em 2035. Este valor é pouco mais de um terço do que era fornecido antes da invasão russa da Ucrânia.

Isto significa que a empresa pública russa, outrora conhecida como o banco do Kremlin, só voltará a atingir o nível de receitas de 2020 em 2035, segundo o Financial Times.

A situação da Gazprom tornou-se ainda mais complicada depois de o negócio para a construção de um novo gasoduto para a China ter sido suspenso, depois de Moscovo ter considerado as imposições de Pequim “irracionais” em relação aos preços e aos níveis de oferta exigidos.

A China está a pedir à Rússia que o gás natural fornecido seja semelhante ao pago no mercado russo, que é fortemente subsidiado pelo Kremlin. Além disso, Pequim aparenta não estar confortável com a compra total da capacidade anual planeada e quer comprometer-se a comprar apenas uma parte desta. Este acordo terá sido um dos principais temas da reunião entre Xi Jinping e Vladimir Putin, no mês passado.

Além dos preços significativamente mais baixos pagos pela China, a construção deste gasoduto não seria, no entanto, a solução de todos os problemas para a Gazprom. O Poder da Siberia 2, como é conhecido, teria a capacidade de fornecer 50 mil milhões de metros cúbicos por ano, um valor muito inferior ao anteriormente fornecido à Europa.

“As principais consequências das sanções para a Gazprom e a indústria energética são a contração dos volumes de exportação, que não serão restaurados ao nível de 2020 antes de 2035”, escreveram os autores do documento, que foi elaborado no final do ano passado.

As sanções económicas impostas pela União Europeia têm atingido a empresa com particular eficácia, devido à forma como a matéria-prima é exportada. Ao contrário do petróleo, que é transportado em barris por via marítima, o gás natural necessita de um gasoduto ou de uma estrutura de liquidificação para ser exportado. Quase toda a infraestrutura dos gasodutos russos atravessam o continente europeu em direção ao seu coração industrial.

Para poder direcionar a produção de gás natural para outros mercados é necessária a construção destas infraestruturas e, nesse campo, a China apresenta-se como um dos únicos mercados alternativos viáveis. O relatório de 151 páginas sublinha que a venda de gás natural vai continuar a cair, com o gás natural liquefeito a passar para a linha da frente.

Os resultados da investigação parecem ser corroborados com os resultados operacionais da empresa para 2023. O gigante estatal passou de lucros astronómicos a prejuízos, devido à queda das vendas para a Europa. No ano passado, a empresa teve um prejuízo de 6,2 mil milhões de euros. Segundo a Reuters, as vendas de gás natural da Gazprom para a União Europeia caíram 55,6%, no ano passado.

É a primeira vez que a empresa entrou no vermelho desde que Vladimir Putin colocou o seu aliado Alexei Miller na frente da empresa estatal, em 2001.

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