“Rambo da Rússia”: já foi o favorito de Putin, agora lutaria pela Ucrânia

CNN , Tim Lister
16 jan, 11:33
Russos no exílio

Artur Smolyaninov diz que sente “nada mais do que ódio” pelo seu país natal. Ministério da Justiça russo classificou o ator como agente estrangeiro.

O ator russo Artur Smolyaninov foi a estrela de um dos filmes favoritos do presidente Vladimir Putin - sobre uma unidade soviética num combate de vida ou morte contra insurgentes afegãos. Agora, está classificado como um “agente estrangeiro” e enfrenta uma investigação criminal.

Smolyaninov foi o herói do filme “Devyataya Rota” (“A 9ª Companhia”), uma longa-metragem russa que estreou em 2005. Protagonizou o papel do último soldado de pé durante uma batalha no Afeganistão, que as forças soviéticas ocuparam durante uma década. Foi frequentemente descrito como o “Rambo da Rússia”, uma referência aos filmes de ação norte-americanos de Sylvester Stallone.

Muito mudou desde então. Smolyaninov está agora no exílio e, numa entrevista recente, afirmou que estava preparado para lutar do lado da Ucrânia e matar soldados russos. Disse-o à Novaya Gazeta na semana passada: “Não sinto senão ódio pelo povo do outro lado [russo] da linha de frente. E se eu estivesse lá no terreno, não haveria misericórdia”.

Segundo contou, um antigo colega seu tinha ido lutar do lado russo. “Será que eu o mataria? Sem qualquer dúvida! Será que mantenho as minhas opções de lutar pela Ucrânia abertas? Absolutamente! Para mim, esta a única maneira. E se eu fosse a esta guerra, só lutaria pela Ucrânia”.

Alguns dias mais tarde, o Ministério da Justiça russo classificou o ator como um agente estrangeiro.

Alexander Bastrykin, o chefe do Comité de Investigação da Rússia, ordenou também a abertura de um processo criminal contra Smolyaninov.

Smolyaninov tem sido altamente crítico em relação à campanha na Ucrânia. Gravou recentemente uma canção da era soviética - Temnaya Noch (Noite Negra) – rescrevendo a letra.

A música Incluiu as seguintes linhas: “Dê uma olhadela, ocupante, Como as maternidades estão sem energia, Como as crianças se sentam em abrigos. E como livros são afogados. A Noite Russa chegou às escolas e aos hospitais”.

Outro verso refere-se a “um bunker, Onde um Führer se esconde, E um pequeno chef careca, Alimenta o Führer à colher”. O chef é uma referência a Yevgeny Prigozhin, que dirige o grupo militar privado Wagner e ganhou contratos de catering do Kremlin.

Quando se pronunciou pela primeira vez contra a guerra, no verão passado, Smolyaninov, que na altura estava na Rússia, falou a um entrevistador de “uma catástrofe, tudo desmoronou: cinzas, fumo, fedor, lágrimas”.

Em outubro passado, um tribunal distrital de Moscovo impôs uma multa de 30.000 rublos (cerca de 405 euros) contra Smolyaninov, sob a acusação de desacreditar as forças armadas russas. Nesse mesmo mês, ele deixou a Rússia. Pensa-se que atualmente se encontra na Letónia.

Smolyaninov relatou como tinha atravessado a fronteira russa para a Noruega. “Atravessei a fronteira a pé... Acabou de andar 30 metros e há pessoas completamente diferentes à frente. Eles são tão meigos. Até o olhar é diferente".

O filme “Devyataya Rota” foi tão popular que Putin recebeu os atores e a equipa, incluindo Smolyaninov, na sua residência fora de Moscovo em novembro de 2005, onde fez uma exibição especial do filme.

O presidente russo, Vladimir Putin, ouve o realizador Fyodor Bondarchuk enquanto visita o estúdio de produção cinematográfica Lenfilm em junho de 2016 em São Petersburgo. Mikhail Svetlov/Getty Images

O Kremlin disse que, depois de ver o filme, Putin falou com o realizador Fyodor Bondarchuk e com os atores principais, incluindo Smolyaninov.

A agência noticiosa estatal russa RIA Novosti relatou na altura que Putin declarou que o filme “agarra a alma, uma pessoa imerge no filme”.

“O filme é muito forte, é uma coisa muito séria sobre a guerra e sobre as pessoas que se encontraram em condições extremas nesta guerra, e se mostraram muito dignas”, afirmou Putin na altura.

Nos últimos dias, o Ministério da Justiça russo acrescentou uma série de outras pessoas à sua lista de agentes estrangeiros, incluindo o da crítica musical Artemy Troitsky e os de vários jornalistas.

“Estas pessoas foram inscritas no registo ao abrigo do artigo 7 da lei russa sobre o controlo das atividades de pessoas sob influência estrangeira”, segundo a agência noticiosa estatal russa TASS.

Foi também noticiado este fim-de-semana que dois conhecidos atores de teatro tinham sido despedidos do Teatro de Arte de Moscovo Tchekhov por criticarem a guerra na Ucrânia. Dmitry Nazarov e a sua mulher, Olga Vasilyeva, foram despedidos pelo diretor artístico do teatro, Konstantin Khabensky, que acusou os actores de “sentimentos anti-russos”.

A agência noticiosa estatal TASS confirmou que o duo tinha sido despedido, sem especificar uma razão.

 

Foto no topo: Artur Smolyaninov na cerimónia de abertura do 31.º Festival Internacional de Cinema de Moscovo em Moscovo, a 19 de junho de 2009. AP

 

 

 

 

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