Homem que fez fortuna durante os anos turbulentos da Ucrânia pós-soviética foi o alvo de um caso raro
O motivo do atentado bombista desta segunda-feira contra um milionário ucraniano no Mónaco permanece um mistério, enquanto os residentes da riquíssima cidade-Estado lidam com a súbita perda de segurança.
A identidade das vítimas também não foi imediatamente divulgada pelas autoridades, mas a afiliada francesa da CNN, BFMTV, informou que Vadym Yermolaiev era o alvo do atentado e ficou ferido na explosão.
Yermolaiev fez fortuna na cidade de Dnipro, no sudeste da Ucrânia, durante os turbulentos anos do pós-soviético. Dedicava-se sobretudo ao mercado imobiliário e, a dada altura, figurou entre os ucranianos mais ricos.
Antes da guerra, Dnipro tinha a reputação de ser uma cidade extravagante, rica e luxuosa, onde a distinção entre as autoridades locais e os criminosos nem sempre era clara. A cidade é também conhecida pela sua próspera comunidade judaica, da qual Yermolaiev era um membro proeminente e ativo.
Yermolaiev deixou o seu país natal e renunciou à cidadania ucraniana em 2019. De acordo com documentos públicos, o homem de 58 anos é agora cidadão do Chipre, embora residisse no Mónaco.
As autoridades locais recusaram divulgar publicamente os nomes das vítimas, afirmando apenas que o homem adulto residia no Mónaco desde, pelo menos, 2021. No entanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia declarou em comunicado que, “segundo os serviços de emergência locais”, as três pessoas feridas na explosão pertenciam a “uma família de origem ucraniana”.
Yermolaiev e outras duas pessoas - uma mulher e uma criança - ficaram gravemente feridas por uma bomba deixada na residência de Yermolaiev por um suspeito desconhecido momentos antes da explosão.
Um ataque tão invulgar e chocante que deixou a exclusiva cidade-estado costeira em estado de choque. O ministro de Estado do Mónaco, Christophe Mirmand, afirmou em comunicado que um ataque deste tipo nunca tinha ocorrido antes no país.
A identidade da mulher e da criança permanece desconhecida. A mulher de Yermolaiev falou à emissora pública ucraniana Suspilne esta terça-feira, dizendo que não estava em casa no momento do ataque e que não ficou ferida.
A exclusiva cidade costeira alberga muitos milionários e celebridades. No Mónaco, o crime é praticamente inexistente, o direito à privacidade é venerado e o regime fiscal é extremamente generoso.
A versão ucraniana da revista Forbes citou Yermolaiev dizendo que renunciou à sua cidadania ucraniana porque queria “proteção internacional”.
“O sistema judicial ucraniano, para dizer o mínimo, não é perfeito, e o sistema fiscal não é objetivo”, afirmou, segundo a Forbes.
O filho é um burlão condenado
O motivo da tentativa de assassínio permanece obscuro. Yermolaiev não possui qualquer ligação evidente com a guerra na Ucrânia. Foi sancionado por Kiev em dezembro de 2023 por fazer negócios na Crimeia, território ocupado pela Rússia, acusação que negou em entrevista aos meios de comunicação ucranianos.
No entanto, o filho de Yermolaiev, Artur Yermolaiev, é uma figura conhecida no submundo do crime ucraniano.
Foi detido no Chipre sob a acusação de ser o líder de um extenso esquema de fraude. Foi posteriormente extraditado para a Estónia, onde foi condenado por fraude em abril.
De acordo com os documentos judiciais, Artur Yermolaiev declarou-se culpado de criar e gerir um esquema de fraude telefónica que, sob o pretexto de falsas oportunidades de investimento, roubou cerca de 100 milhões de euros de vítimas em vários países europeus entre 2019 e 2022. Só na Estónia, Yermolayev e os seus associados roubaram 5,4 milhões de euros de pessoas.
Foi condenado a cinco anos de prisão, mas fez um acordo que previa a sua deportação da Estónia depois de cumprir apenas quatro meses da pena. Pagou uma multa de 8,5 milhões de euros e as custas relacionadas com a sua extradição para a Estónia. Segundo os meios de comunicação estonianos, foi deportado para Israel.
Lex Harvey, Stephanie Halasz, Victoria Butenko, Elina Baudier Kim e Kosta Gak, da CNN, contribuíram para esta reportagem
