“Quando recuperar, vou pegar nas armas”. Entrevista exclusiva ao soldado que se tornou o símbolo da resistência ucraniana na Azovstal

Rita Barão Mendes , com Carlos Rodrigues (repórter de imagem)
6 out, 21:30

A fotografia de Mykhailo Dianov no complexo de Azovstal correu o mundo. Depois de quatro meses como prisioneiro de guerra, o soldado foi libertado, mas está praticamente irreconhecível. À CNN Portugal, Mykhailo e a sobrinha, que vive em Portugal, contam o que passaram nos últimos meses.

“Não nos alimentavam e, se nos alimentavam, davam-nos produtos que se dá aos animais.”

Foi assim durante quatro meses. Quatro longos meses de horror, desespero e tortura às mãos das tropas russas.

“Davam-nos um pequeno pedaço de pão às vezes… basicamente para não morrermos”.

Mykhailo Dianov no complexo de Azovstal, fotografado por jornalistas, a 10 de maio de 2022.

Esta foto fez de Mykhailo Dianov o símbolo da resistência ucraniana em Azovstal. O sargento da 36ª brigada de fuzileiros sorria para a câmara e fazia um V de vitória, apesar dos ferimentos visíveis.

Em setembro, novas fotos mostravam Mykhailo quase irreconhecível.

Mykhailo Dianov depois de ter sido libertado na maior troca de prisioneiros entre a Rússia e a Ucrânia, a 21 de setembro de 2022.


O antes e o depois não deixam margem para dúvidas: o cativeiro em Olenivka marcou-o para o resto da vida, física e psicologicamente.

“Estou saudável… Um pouco traumatizado, mas saudável”. É assim que responde, por videochamada, à irmã e à sobrinha, que vivem em Portugal há 13 anos.

Sobre os dias em cativeiro, as palavras são poucas.

“Ele prefere não falar sobre o assunto… não falar sobre o que lhe fizeram lá. É uma alma forte e prefere não preocupar os outros. Prefere pensar nas pessoas que ainda estão lá, que ainda não foram libertadas. A grande preocupação que ele tem com aqueles que se mantêm lá faz com que seja fácil deduzir os terrores que eles passaram”, conta a sobrinha Svitlana, de 19 anos.

Do início da guerra à foto que correu o mundo

Desde a invasão russa da Ucrânia, Svitlana e a mãe, Anastasiia, passaram meses sem saber do paradeiro de Mykhailo, até verem a foto que correu o mundo. Svitlana explica que foi por causa dessa foto que descobriu que o tio estava em Mariupol, e o sentimento foi agridoce: “Ficámos devastados. Não sabíamos se ficávamos felizes por ele estar vivo e sabermos que estava minimamente bem, ou se ficávamos tristes, porque eles não podiam receber tratamento, e o meu tio estava seriamente ferido no braço e nas pernas”.

Durante semanas, viveu-se um inferno no complexo siderúrgico de Azovstal. As notícias davam conta de milhares de pessoas refugiadas na fábrica: civis e soldados, que sobreviviam sem água, comida ou medicamentos. Os bombardeamentos das tropas de Moscovo eram diários e constantes, àquele que era considerado o último reduto ucraniano em Mariupol.

A conquista da cidade por parte da Rússia aconteceu já no final de maio, depois da retirada dos civis. Restavam no complexo, já quase totalmente destruído, os militares resistentes, do exército e do Batalhão Azov, que foram forçados à rendição e tornados prisioneiros de guerra.

O cativeiro em Olenivka

Mykhailo Dianov estava entre os mais de mil soldados que se renderam. Foram despidos, revistados e transportados para várias localizações, consoante o estado de saúde.

Mykhailo foi levado para Olenivska e o medo apoderou-se dos familiares.

“Nós não sabíamos o que ia acontecer com ele, se iam dar-lhe comida, se os iam torturar, se os iam fazer passar por coisas inimagináveis, coisas que as pessoas nem sequer querem pensar que estas pessoas devem passar nas mãos cruéis dos russos”, desabafou a sobrinha.

O medo e a dúvida permaneceram meses a fio, em que Svitlana e a família não receberam qualquer notícia do soldado: “Silêncio completo. Nós não sabíamos se ele tinha morrido, se estava vivo. Víamos as listas que iam sendo divulgadas sobre os militares identificados como falecidos em guerra… eu via as listas todos os dias, lia aquilo três ou quatro vezes, e o medo era constante. Todos os dias, até recebermos notícias dele”.

A troca de prisioneiros

A 21 de setembro, a Rússia e a Ucrânia concretizaram aquela que foi a maior troca de prisioneiros entre os dois países desde o início da guerra. 215 prisioneiros, entre militares ucranianos e voluntários estrangeiros, foram libertados. Entre eles estava Mykhailo Dianov, visivelmente mais magro e com o braço deformado.

Mykhailo Dianov rendeu-se após a conquista do complexo de Azovstal pelas tropas russas

“Eles saem, são libertados, recebem o telemóvel de imediato e a primeira coisa que ele faz é ligar à família. Diz que está bem, que está vivo, solto… que está livre!”. Svitlana recorda o momento com um sentimento de alívio: “A minha mãe mandou-me uma mensagem e uma fotografia do meu tio. Eu comecei a chorar, baba e ranho. Os meus colegas da faculdade não sabiam o que estava a acontecer, e eu só consegui dizer, entre as lágrimas, que o meu tio voltou!”.

Mykhailo Dianov com a família após quatro meses de cativeiro


Mas, fisicamente, o Mykhailo que voltou não era o mesmo que a família conhecia. As agressões aconteceram até minutos antes da liberdade: “Antes de saírem do autocarro deram-lhe com a parte de trás de um arma no nariz, porque ele passou a ser o símbolo da resistência ucraniana e eles queriam deixá-lo um pouco mais irreconhecível. Agora está num hospital, a receber tratamento, porque antes da cirurgia tem de ganhar bastante peso, porque ele está completamente desnutrido”, explica Svitlana.

Mykhailo Dianov no Hospital de Chernihiv, onde está a receber assistência médica depois de ter sido libertado

A 3ª Convenção de Genebra determina que os prisioneiros de guerra têm de ter acesso a cuidados de saúde, incluindo cirurgias, caso sejam necessárias, e um regime alimentar apropriado. São ainda proibidas as ofensas à integridade física.

Durante os quatro meses em que esteve em cativeiro, Mykhailo não recebeu qualquer tratamento médico, foi espancado e alimentado apenas o suficiente para não morrer. Tudo em clara violação das normas internacionais.

Ainda assim, o horror pelo qual passou não lhe inibe a vontade de voltar à linha da frente. À pergunta se faria tudo igual, responde: “Sim, sim! Tanto que, se no momento em que o braço recuperar ainda houver guerra, eu vou pegar nas armas e vou defender o povo ucraniano, porque eu fiz um juramento e dei a minha palavra à nação ucraniana”.

Mykhailo juntou-se ao exército ucraniano em 2015. Atualmente, é sargento da 36ª brigada de Fuzileiros

O juramento foi feito há muito, em 2015, depois da anexação russa da Península da Crimeia, altura em que se juntou, voluntariamente, ao exército ucraniano.

Hoje, passados sete anos, mantém a esperança de voltar a viver numa Ucrânia livre, que lhe permita concretizar um sonho: “Quero abrir a minha oficina de processamento de metais”.

Também a sobrinha Svitlana acredita numa vitória e num futuro mais feliz: “Nós temos o que a Rússia não tem. Eles podem ter as tropas todas, quantos homens quiserem. Mas não têm a esperança de acreditarem que merecemos isto: a nossa liberdade, a nossa nação, a nossa cultura, que eles há centenas de anos querem mudar, apagar. Basicamente querem fazer um genocídio connosco e nós não vamos deixar que isso aconteça.”.

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