Quando conseguiu fugir da zona de conflito, Inessa chorou sem parar. Depois, fez o que sempre tinha feito: começou a escrever. Como três mulheres se tornaram repórteres de guerra à força

3 jan, 22:00

Transformaram-se em repórteres de guerra da noite para o dia. Habituados a contar histórias, tornaram-se parte da história que contam. Ciente do impacto psicológico que isso pode provocar, uma jornalista experiente em zonas de conflito criou um abrigo para jornalistas ucranianos em Portugal

Anna passeava na praia com os olhos tão azuis como o mar, fixos nas ondas que chegavam devagar. Sentia-se tranquila nesta nova e inesperada realidade, distante de tudo o que tinha sido a sua vida até agora. Era a mesma jornalista que durante 20 anos tinha coberto a realidade do leste europeu e dos antigos estados soviéticos para o The Washington Post, The Daily Beast, Newsweek, The Atlantic. E não era. "2014 foi provavelmente o pior dos piores anos. Fui sequestrada duas vezes no leste da Ucrânia e isso foi muito stressante." Era um tempo em que o mundo ainda mal olhava para o que se passava no Donbass, mas onde a ocupação russa já era uma realidade.

Americana nascida na União Soviética, estava em Londres quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Voltar para o apartamento em Moscovo não era opção. Acabou por alugar uma casa em Portugal, uma sugestão de amigos. À beira-mar, voltou a respirar e a conseguir pensar. E nas caminhadas a pé na areia descobriu que o oceano é um bom aliado para tratar o trauma.

Chechénia, Cáucaso do Norte, Afeganistão… Zonas de conflito não são uma novidade para Anna Nemtsova que escolheu estar em cada uma delas. Ainda assim, voltar para a Ucrânia agora não era opção. Lá, conheceu colegas que, do dia para a noite, tornaram-se repórteres de guerra à força.

Uma forma de resistência

Ksenia Minina escrevia sobre a vida, eventos e negócios de Volnovakha, uma cidade na província de Donetsk. Na madrugada de 24 de fevereiro, acordou com a casa a abanar. Em oito anos de guerra do Donbass nunca uma explosão tinha sido tão forte e tão perto. Fugiu com a família para uma localidade a cerca de 100 km, com a esperança de poder voltar em breve. Uma semana depois, voltou a fugir, mas para mais longe. Perseguida pela linha da frente dos combates, passou por muitas cidades até chegar a Kiev, e sempre a trabalhar “em condições de emergência”. A 11 de março, Volnovakha foi ocupada e a guerra tornou-se o único evento sobre o qual passou a escrever. “Muitas pessoas ligavam à procura de parentes… Juntámos mais de 100 nomes, mas essa lista não estava completa e continuamos a preenchê-la.”

Ksenia e Inessa estão entre os jornalistas que viram a sua vida mudar com a guerra (Fotografia: Helena Lins)

O seu trabalho passou a ser atualizar os óbitos, dar indicações de rotas de fuga, publicar informações sobre como receber ajuda humanitária, monitorizar a situação, desmontar a propaganda russa e continuar a dar notícias sobre a Ucrânia a pessoas em território ocupado. “As pessoas em Volnovakha estavam em cativeiro, não só fisicamente, mas também em cativeiro informativo.” A Rússia limitou o acesso à informação, o jornal online de Ksenia foi bloqueado, só era possível aceder através de uma rede privada virtual (VPN).

Mas Ksenia resiste e continua a trabalhar para manter os leitores informados. Só parou quando recebeu um convite para vir passar uma semana a Portugal.

Ponto de rutura

A pouco mais de duas horas de Volnovakha, Inessa Kurinnaya trabalhava num jornal local da cidade de Gorlivka. “Gravava vídeos, fazia reportagens, entrevistas com funcionários públicos, líderes políticos, projetos criativos… amava o que fazia porque o contato com pessoas diferentes enriquece. Quando a guerra chegou a minha casa, encontrei um superpoder em mim.” A resiliência. Ainda em 2014, fugiu com a família para Kharkiv onde continuou a trabalhar no Svoi.City (“a sua cidade”, em português), uma página dedicada às pessoas do Donbass. Mas a 24 de fevereiro o bairro onde vivia foi arrasado pelas bombas e aí Inessa sentiu que tinha perdido a força.

“Nos primeiros dez dias parecia uma pedra. Não conseguia expressar aos meus amigos o que é que sentia. Estava como uma pedra para não chorar, para não demonstrar medo às crianças… Durante dez dias, não conseguimos sair da zona de perigo. Havia um vácuo de informação e não sabíamos onde estavam os invasores. Tínhamos medo de viajar e sermos atingidos. Já me tinha cruzado com os invasores em Gorlivka e sei do que são capazes”. Só quando recebeu informação sobre rotas seguras é que partiu, mais uma vez. “E aí, lembro-me do meu primeiro colapso emocional. Estava no carro e comecei a chorar. Durou muito tempo. Cerca de uma hora”.

“Todos os meus colegas e eu estávamos paralisados porque foi completamente inesperado”. Mas três dias depois da invasão, também Inessa escrevia sobre territórios capturados e evacuações. A guerra, a vida e o trabalho tornaram-se um só. “Não consigo separar. O meu trabalho é como o meu reflexo no espelho”. Inessa quer transmitir aos mais de 6 milhões de ucranianos deslocados pela guerra o que aprendeu na sua profissão. 

Há um sentido de missão que guia os jornalistas que mais parece um médico num serviço de urgências. Tem de ser rápido, não para não perder uma vida, mas para não perder uma história, que muitas vezes pode salvar vidas. Por isso, há repórteres que escolhem cobrir a guerra. Mas estas mulheres não tiveram escolha.

“Os primeiros dois meses trabalhava-se sob adrenalina. Sem parar. Não sentíamos necessidade física de descansar, conseguíamos trabalhar o tempo todo”. Anna Tsyhyma viaja de Kiev até às cidades libertadas para documentar as atrocidades da guerra. No The Reckoning Project recolhe testemunhos com o objetivo de serem também utilizados em casos de crimes de guerra em tribunal. Mais de 150 até agora, conta Anna. “Depois de três, quatro meses instalou-se o cansaço. Físico, emocional… Entendi que não conseguia trabalhar mais.” O refúgio criado por Anna Nemtsova em Portugal acabou por ser uma oportunidade para fazer uma pausa.

Anna Nemtsova continua a trabalhar depois de ter criado o abrigo (Fotografia: Helena Lins)

Recuperar o fôlego

Desde o início da invasão russa na Ucrânia, pelo menos 15 jornalistas morreram, sete eram ucranianos, e muitos outros ficaram feridos. Enquanto as marcas físicas são fáceis de avaliar, o impacto psicológico é mais difícil de quantificar. A cara no direto não mostra, a voz na reportagem não deixa transparecer e as palavras escritas não revelam, mas as histórias e os cenários ecoam dentro destes jornalistas.

De acordo com o National Center for PTSD (Centro Nacional para Transtorno de stress pós-traumático), os repórteres de guerra têm 28% de taxa de prevalência de stress pós-traumático e 21% de depressão; uma incidência maior do que a população geral. Têm, no entanto, menos propensão a procurar ajuda médica em comparação com outros jornalistas.

Anna Nemtsova decidiu criar um abrigo para jornalistas ucranianos na costa portuguesa onde “o oceano é o nosso psicólogo”. “Breather” (Fôlego, em português”) tem recebido sobretudo mulheres jornalistas devido à lei marcial que impede a saída de homens da Ucrânia, mas também porque enquanto vencedora do 2015 International Women’s Media Foundation Courage in Journalism Award, Anna sente-se responsável por ajudar outras colegas. “Cada uma destas mulheres que chega aqui tem um trauma… Mesmo que não se apercebam”.

Ksenia não consegue dormir até hoje. “Acordo de noite, a minha cabeça está sempre às voltas … Não consigo descansar. Eu gostava muito de dormir até à guerra, dormir era a minha ocupação preferida. Agora, durmo muito pouco”. Em Portugal dorme um pouco melhor, “mas ainda assim estou preocupada com o meu marido que ficou na Ucrânia”.

Veio com a filha pequena, Varvara. É a menos tímida do grupo e a mais curiosa. “A Varvara nunca viajou de avião e aproveitámos essa oportunidade… Vou chorar…” E chora. Enxuga as lágrimas e continua… “Eu sei que aqui não vai haver um ataque aéreo, mas a Varvara até agora quando vê um avião assusta-se. A Varvara tem medo de aviões. Ela viu o avião quando viajamos pela Polónia, parou e disse «Mãe, avião» e eu disse «Não, aqui vai estar tudo bem»”.

Focadas na guerra, evitam multidões, não viajam a não ser que tenham de fugir… Um convite para passar uma semana à beira-mar no outro lado da Europa soa utópico. “É o meu segundo dia completo e já sinto que o meu otimismo voltou. Psicologicamente, ajudou-me muito e finalmente posso concentrar-me nas crianças.” Inessa veio com os dois filhos. “Acho que as crianças não se devem entregar e têm de enfrentar as dificuldades. A guerra, claro, é algo que ninguém queria que eles vivessem. Mas o meu filho, por exemplo, que já perdeu a casa duas vezes, é uma pessoa muito mais resiliente. Tem objetivos, tem sonhos, penso que esta situação o influenciou”, diz Inessa.

Inessa na praia com o filho (Fotografia: Helena Lins)

Anna trouxe as ferramentas de trabalho, mas estão esquecidas no quarto. “Até agora. nunca tirava o telemóvel da mão. Estava sempre a fazer scroll nas notícias. Sigo centenas de contas no Telegram, várias cidades e estou sempre a monitorizar. Agora, deixo o telemóvel e não olho para ele quase metade do dia”.

A culpa 

Os dias são passados entre a praia e a casa decorada com motivos marinhos por onde já espreita uma ou outra bandeira da Ucrânia. Não há horários, nem compromissos. Os mais novos brincam no chão. Têm uma caixa com jogos e bonecos só para eles. Os mais velhos conversam. Ao final da tarde, sentam-se na varanda e riem enquanto desfrutam de fruta fresca, chá e café e de um pôr-do-sol dourado e quente. Graças à The Romulus T. Weatherman Foundation, todas as despesas, incluindo a viagem, são por conta deste abrigo. Anna pede para não divulgar a localização por motivos de segurança - receio de represálias pró-russas, porque para os portugueses só tem elogios. “Temos vizinhos maravilhosos. Com a Amanda e o marido, que também é realizador, sentamo-nos à mesa, às vezes os familiares deles também vêm, falamos e comemos juntos. Através dessa conversa, desse entendimento internacional do que estas pessoas estão a passar, ajudamos a tratar o trauma”.

Estar bem enquanto o país está em guerra é uma nuvem cinzenta que paira no ar. “Sinto culpa, mas percebo que estas férias não mudam nada a nível global”. Os colegas que ficaram trabalham ainda mais para compensar a ausência de Ksenia, mas os poucos dias em Portugal já lhe deram ânimo. “Quando voltar vou trabalhar mais ainda para dar descanso aos meus colegas.”

Ucranianas querem continuar a batalhar pela informação (Fotografia: Helena Lins)

Quanto à possibilidade de se refugiarem em Portugal até a guerra terminar, é impensável. “O meu maior desejo é continuar a trabalhar. Eu quero continuar a trabalhar, quero continuar a cobrir a guerra, continuar a gravar testemunhos das pessoas e não enlouquecer”, diz Anna mas podia ter sido Ksenia ou Inessa ou qualquer jornalista que batalha pela informação.

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