Putin falou durante mais de quatro horas. Sobre a guerra, a Ucrânia e o Ocidente

CNN , Christian Edwards, Anna Chernova e Katharina Krebs
19 dez 2025, 16:13
Vladimir Putin na conferência dos "resultados do ano" da Rússia (Getty)

A guerra, os ativos russos, as eleições ucranianas e a relação com o Ocidente foram os temas que estiveram em destaque no evento anual conhecido como a "Linha Direta com o Presidente Vladimir Putin"

A maratona de conferências de imprensa de Vladimir Putin acabou por volta das 14:30. Como é habitual neste evento anual, o presidente russo falou durante mais de quatro horas.

Estes foram os pontos principais:

Objetivos de guerra

Putin começou por dizer que a Rússia continua “pronta e disposta” a acabar pacificamente com a guerra na Ucrânia. Depois, falou das cidades ucranianas que, segundo o próprio, a Rússia estava prestes a capturar e sublinhou que Moscovo iria continuar a lutar até que todas as suas exigências fossem satisfeitas.

As alegações da Rússia de ganhos no campo de batalha têm sido fortemente contestadas por grupos de controlo independentes e por funcionários ucranianos.

Putin afirmou ter estabelecido essas condições num discurso proferido em junho de 2024, no qual exigia que a Ucrânia se retirasse totalmente das regiões orientais de Donetsk e Lugansk e abandonasse a sua ambição de aderir à NATO.

A bola está do lado do Ocidente

Putin respondeu às afirmações de que a Rússia estava a prevaricar durante as conversações de paz mediadas pelos Estados Unidos para ganhar tempo para esmagar a Ucrânia.

O presidente russo enalteceu que concordou com certos compromissos durante a cimeira com o Presidente dos EUA, Donald Trump, no Alasca, em agosto, pelo que “a bola está inteiramente no campo dos nossos adversários ocidentais”.

Não ficou claro a que compromissos Putin se estava a referir. Relativamente à questão fundamental do território, a Rússia não demonstrou quaisquer sinais de cedência: continua a querer a totalidade de Donetsk e Lugansk, que não conseguiu conquistar pela força na totalidade.

A Rússia quer "respeito"

Num momento curioso, Putin disse que estava disposto a trabalhar com o Reino Unido, os EUA e a Europa - “mas em pé de igualdade, com respeito uns pelos outros”.

O “respeito” foi um tema comum na conferência de imprensa de sexta-feira. Questionado sobre a possibilidade de uma nova “operação militar especial” - o eufemismo do Kremlin para a invasão total da Ucrânia em 2022 - Putin disse que não lançaria outra no futuro, desde que fosse tratado com “respeito” pelo Ocidente e que a NATO não se expandisse para leste.

Eleições na Ucrânia

Putin também afirmou que a Rússia estava disposta a considerar uma breve paragem dos ataques contra a Ucrânia, para permitir que Kiev realizasse eleições.

O presidente russo considerou que se trataria de um gesto de boa vontade, lembrando que a Ucrânia não concedeu esta mesma cortesia à Rússia quando o Kremlin organizou eleições nas partes da Ucrânia que tinha anexado ilegalmente.

Essas eleições - em que os eleitores foram conduzidos às assembleias de voto por soldados armados - foram condenadas internacionalmente e classificadas como uma farsa.

"Roubo" de ativos congelados

Putin discursou poucas horas depois de a União Europeia ter decidido não utilizar os ativos russos congelados para financiar a defesa da Ucrânia até 2027 e disse que essa política teria sido equivalente a um “roubo”.

O presidente russo vou a ameaçar com as consequências “graves” caso Bruxelas volte a aplicar o plano, agora suspenso, no futuro.

Sarcasmo e crítica no ecrã gigante

A conferência de imprensa anual da Rússia, conhecida como “Linha Direta com o Presidente Vladimir Putin”, desenrolou-se como uma atuação familiar e cuidadosamente coreografada: respostas longas, um tom tranquilizador e um esforço sustentado para apresentar Putin como estando firmemente no controlo, mas pessoalmente envolvido com os russos comuns.

Ao longo do evento de quatro horas e meia, Putin enfatizou a sua ligação às preocupações do público, citando mensagens de cidadãos, funcionários e tropas da linha da frente, ao mesmo tempo que polvilhava com observações pessoais destinadas a sublinhar o calor e a empatia, chegando mesmo a dizer a certa altura que estava “apaixonado”.

Durante alguns momentos, esta narrativa suave foi interrompida por breves flashes de sarcasmo e crítica em grandes ecrãs no interior da sala. As mensagens dos telespectadores, visíveis apenas durante alguns segundos, iam desde comentários mordazes sobre o evento em si, como “isto não é uma Linha Direta, é um circo”, a perguntas incisivas sobre o nível de vida e a responsabilidade política: "Olhando para a vida no país, é estranho que o Rússia Unida continue a ganhar a maioria. Talvez as eleições sejam uma ficção?"

Outros queixaram-se da deterioração do acesso à Internet, que se agravou acentuadamente no último ano, no contexto de medidas de segurança acrescidas associadas ao aumento dos ataques de drones em território russo. "Quando é que a Internet ‘normal’ vai ser restabelecida? Nem sequer é possível enviar perguntas ao Presidente", lê-se numa mensagem.

A maioria das mensagens, no entanto, era de natureza neutra ou elogiosa, ou centrava-se em tópicos inócuos, como quem poderia suceder a Putin.

O aparecimento de perguntas incómodas tornou-se uma caraterística recorrente do evento. Em anos anteriores, surgiram mensagens críticas semelhantes que ficaram sem resposta, havendo quem questione se a sua breve visibilidade é deliberada, como uma forma de dissidência gerida com o objetivo de criar uma impressão de abertura sem colocar um verdadeiro desafio. As mensagens aparecem brevemente no ecrã, mas nunca são expressas em voz alta ou dirigidas diretamente a Putin.

A sua presença fugaz oferece um vislumbre limitado e cuidadosamente controlado da frustração do público, contrastando com uma troca de opiniões que permanece rigorosamente gerida, apesar da sua aparência de espontaneidade.

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