Putin desafia NATO para um "duelo" diferente. Até lá vai continuar muito preocupado com a manteiga

19 dez 2024, 15:54
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Presidente russo fez a revista do ano e deixou uma série de avisos aos inimigos, que é como quem diz ao Ocidente

“Agora brinco muito menos”. Esta é uma das coisas que mudou em quase três anos de guerra para Vladimir Putin, presidente russo que falou à nação para fazer uma revista do ano de 2024, no qual a Rússia manteve o impasse no terreno, depois de avanços e recuos.

Apesar disso, o presidente russo tem a certeza de uma coisa: a invasão, que continua a apelidar de “operação militar especial”, não foi um erro. Bem pelo contrário. Se houve alguma falha, foi não ter acontecido mais cedo.

“Sabendo o que sabemos hoje, em 2022 teria pensado em tomar a decisão [de lançar a operação] mais cedo. Devíamos ter começado a preparar-nos para isto antes”, confessou, depois de uma pergunta do público que questionava se teria feito algo diferente.

Vladimir Putin não concretizou o seu pensamento, mas as dificuldades no terreno podem ajudar a explicá-lo. A Rússia controla, por agora, cerca de 20% do território da Ucrânia, incluindo quase toda a região de Lugansk e grande parte de Donetsk, que juntas fazem o Donbass, o grande objetivo do Kremlin.

Sem prejuízo das dificuldades, e até sabendo que a guerra já chegou ao seu território - veja-se o que se passa em Kursk -, o presidente russo garantiu ao povo que “a vitória está mais perto”. Esse mais não quis revelar para quando, tal como também não quis avançar com uma data para a recuperação total da região de Kursk, onde a Ucrânia entrou em agosto, conquistando cerca de mil quilómetros quadrados.

“A situação mudou drasticamente e os soldados estão a recuperar território todos os dias. Estamos mais perto de resolver as primeiras tarefas da operação especial”, afirmou, pelo meio de adereços e acenos próprios de um Estado que gira à volta de uma figura, aquela figura.

Sem prejuízo das dificuldades, Vladimir Putin garantiu que Kursk vai ser “libertada”, altura em que os milhares de russos que foram obrigados a fugir poderão regressar às suas casas.

“Não tem sentido militar a Ucrânia entrar na região de Kursk. Claro que nos vamos livrar deles”, garantiu, apelando a que os soldados russos consigam o objetivo o quanto antes, mas sempre sem riscos desnecessários.

Homens seguram uma réplica do estandarte da 155.ª Brigada de Fuzileiros da Frota do Pacífico (Alexander Zemlianichenko/AP)

Um aviso para a NATO

Como não poderia deixar de ser, os recados de fim de ano também foram soprados para o Ocidente. Fazendo fé na mais recente coqueluche do exército, o míssil Oreshnik, Vladimir Putin garantiu que os países da NATO “não têm hipótese” de o abater em contexto de guerra.

Mostrando-se confiante no que dizia, o presidente russo deixou mesmo um desafio: um “duelo experimental” entre ambos os lados. Vladimir Putin propôs-se a selecionar um alvo em Kiev, permitindo que as defesas ocidentais tentem defendê-lo de um míssil destes.

“Penso que vai ser interessante para nós”, ironizou, dando conta de que o Oreshnik é mesmo imbatível.

Recorde-se que o presidente russo já tinha dito que este míssil é capaz de viajar a uma velocidade Mach 10, cerca de 2,5 a 3 quilómetros por segundo, pelo que “não existem formas de combater esta arma”.

Questionado sobre a doutrina nuclear da Rússia, que o Kremlin decidiu adaptar recentemente para alterar as condições em que poderá utilizar o seu arsenal, Vladimir Putin não sabe se a mensagem foi recebida pelo Ocidente - “terão de lhes perguntar”, respondeu.

Sem se alongar muito no que a nova doutrina significa, Vladimir Putin referiu apenas que estão em causa “ameaças emergentes, como os sistemas antimísseis”.

Painel eletrónico num edifício mostra o presidente russo, Vladimir Putin, a dar a sua conferência de imprensa anual e o seu programa de entrevistas em Moscovo (Dmitry Serebryakov/AP))

Problema com a manteiga

Muitas das perguntas do público, que também teve direito a questões, foram direcionadas para a economia e para a subida dos preços na Rússia.

Vladimir Putin admitiu que existe uma dificuldade em manter os preços dada a subida dos salários provocada pela inflação. Ainda assim, o presidente russo garantiu que nada disso tem que ver com as sanções ocidentais, que “não são um fator-chave”.

“A situação está totalmente normalizada e estável”, reiterou, apesar de saber de problemas concretos como a subida dos preços de produtos como o pão, o combustível ou… a manteiga, um velho exemplo que mostra que a economia russa pode não estar assim tão sã e os preços acabam por ser afetados - a agência RIA Novosti divulgou que o cabaz de Fim de Ano está 11% mais caro.

O problema, referiu, é o consumo, que terá duplicado em relação a outros anos, sendo que os russos compram muito mais carne, por exemplo, do que outros países mundiais. Já sobre a manteiga, uma pergunta concreta feita pela audiência, Vladimir Putin explicou que não existe leite suficiente para produzir este alimento a uma escala que responda à procura.

Uma das notificações da agência TASS não conseguiu esconder que a manteiga foi mesmo um tema: “Putin diz que está ciente da subida do preço da manteiga em algumas regiões.” Na prática, acontece agora com a manteiga o que já aconteceu com os ovos: simplesmente não há em número suficiente. Para se ter uma ideia, produtos como tangerinas, maçãs, ervilhas ou frango subiram cerca de 26% num contexto de inflação difícil de controlar, e que também levou a uma brutal subida das taxas de juro por parte do Banco Central da Rússia.

Com a inflação agora estacionada nos 9%, Vladimir Putin admitiu que isso é um “sinal alarmante”, mas vê no crescimento de 3,9% deste ano uma sensação de estabilidade para o que aí vem.

O homem que salvou a Rússia

Se a situação é melhor hoje do que era antes, em muito os russos o devem a Vladimir Putin. Foi o próprio a dizê-lo, referindo que foi ele o responsável por retirar a Rússia do abismo em que podia ter caído após o colapso da União Soviética.

O presidente russo, que assumiu cargos de chefia executiva em 1999, disse que criou uma potência capaz de viver por si só.

Questionado por um dos meios ocidentais presentes no evento, a BBC, se tinha cuidado da Rússia, algo que Boris Yeltsin lhe pediu antes de entregar o poder, Vladimir Putin não teve dúvidas: “Retirámos a Rússia do abismo”.

“Fiz tudo para assegurar que a Rússia é uma potência independente e soberana capaz de tomar as suas decisões com base nos seus interesses”, reiterou.

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