Kiev foi alvo do segundo maior ataque aéreo da Rússia, desde o início da invasão da Ucrânia, matando pelo menos 23 pessoas (incluindo quatro crianças). Segundo as autoridades ucranianas, deixou ainda edifícios da União Europeia e do British Council danificados, indignando os líderes europeus
Os líderes europeus expressaram indignação depois de Kiev ter sido bombardeada pelo segundo maior ataque aéreo da Rússia desde a invasão em larga escala da Ucrânia, com pelo menos 23 mortos, incluindo quatro crianças, segundo as autoridades.
Edifícios pertencentes à União Europeia e ao British Council foram danificados nos ataques desta quinta-feira, levando tanto a UE como o Reino Unido a convocarem os principais diplomatas russos nas suas capitais.
Entre os mortos estavam crianças de 2, 17 e 14 anos, de acordo com Tymur Tkachenko, chefe da Administração Militar da Cidade de Kiev. A grande maioria dos mortos - 22 - morreu num ataque a um edifício de cinco andares no distrito de Darnytskyi, segundo os serviços de emergência.
A força aérea da Ucrânia disse que o Kremlin lançou 629 armas de ataque aéreo contra o país durante a noite, incluindo 598 drones e 31 mísseis.
Yuriy Ihnat, chefe de comunicações da força aérea, declara à CNN que os ataques constituíram “um dos maiores ataques combinados” contra o país.
O ministério da Defesa da Rússia afirma que atingiu “empresas do complexo militar-industrial e bases aéreas militares na Ucrânia” usando “armas de alta precisão.”
As autoridades ucranianas deram conta do envio de centenas de equipas de resposta para incidentes em vários locais, incluindo um edifício usado pela missão da UE na Ucrânia e pelo British Council.
O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, acusou entretanto Moscovo de atacar diplomatas “em violação direta da Convenção de Viena” e pediu “condenação mundial” numa declaração na rede X.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que estava “indignada” com o incidente, chamando-lhe “outro lembrete sombrio do que está em jogo.”
“Estes mísseis e drones de ataque russos de hoje são uma resposta clara a todos no mundo que, durante semanas e meses, têm pedido um cessar-fogo e uma diplomacia real”.
A chefe da UE falou com Zelensky e com o presidente dos EUA, Donald Trump, após os ataques, acrescentou von der Leyen numa publicação na rede social X, afirmando também que o presidente russo, Vladimir Putin, “tem de se sentar à mesa de negociações.”
A missão da UE, que está baseada em Kiev desde 1993, trabalha para “promover as relações políticas e económicas” entre a Ucrânia e a UE, entre outros mandatos, de acordo com o seu site.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, acusou Putin de estar “a matar crianças e civis, e a sabotar as esperanças de paz.”
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, descreveu o ataque “um assassinato horrível e deliberado de civis” numa publicação na rede social X. “Mostra que o Kremlin não vai parar perante nada para aterrorizar a Ucrânia, matando indiscriminadamente civis, homens, mulheres e crianças, e até atacando a União Europeia”.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Moscovo continua interessado em conversações de paz, mas enfatizou que a “operação militar especial”, como a Rússia descreve a guerra, “continua.”
Trump estava “não feliz” mas “não surpreendido” com os ataques, disse a Casa Branca na quinta-feira, acrescentando que estava a acompanhar os desenvolvimentos “atentamente.” A porta-voz, Karoline Leavitt, disse aos jornalistas que Trump quer que a guerra termine, mas que tanto Putin como Zelensky “também têm de querer que termine.”
O enviado especial da Casa Branca para a Ucrânia, Keith Kellogg, também condenou os ataques noturnos, escrevendo na rede X que “estes ataques flagrantes ameaçam a paz que (Trump) está a procurar.”
"Olhei para cima – o telhado tinha desaparecido"
Vitaliy Protsiuk, residente de Kiev, conta à CNN internacional que a sua mulher está desaparecida desde o ataque. O casal estava a preparar-se para ir para o abrigo do edifício quando houve uma “explosão”.
“Fiquei soterrado. Quando saí, tudo estava coberto de pó e fumo. Olhei para cima – o telhado tinha desaparecido, e os andares do quarto ao primeiro estavam completamente destruídos", relata.
“Até agora, a minha mulher não foi encontrada. O telefone dela não responde. Não está listada em lado nenhum. Eu não sei… ainda estamos à procura".
Os residentes suportaram um alerta de ataque aéreo que durou mais de nove horas durante a noite, de acordo com o ministro do Interior, Ihor Klymenko.
Fotografias de agências mostraram moradores a dirigirem-se novamente para estações de metro, onde muitos passaram a noite. Foi aconselhado aos residentes que “ficassem em abrigos” durante os ataques, e o alerta foi levantado pouco antes das 7:00, hora local.
O grande ataque à capital ucraniana surge pouco mais de duas semanas depois de Trump se ter reunido cara a cara com Putin, procurando assegurar o fim da guerra.
Mas o impulso em torno das discussões estagnou, sem sinais de que vá ter lugar a reunião bilateral que a Casa Branca tem promovido entre Zelensky e Putin.
Na quarta-feira, Andriy Yermak, chefe de gabinete de Zelensky, e Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, reuniram-se com o ministro da Defesa da Arábia Saudita para discutir o fim do conflito.
Uma delegação da Ucrânia deverá também reunir-se com responsáveis dos EUA em Nova Iorque na sexta-feira, de acordo com Zelensky.
Entretanto, Putin deverá viajar para a China na próxima semana para assistir a um grande desfile militar. Outros convidados incluirão o líder norte-coreano Kim Jong Un, bem como líderes europeus próximos de Moscovo, como Aleksandar Vucic, da Sérvia, e Robert Fico, da Eslováquia.
O ataque a Kyiv é o mais recente de uma série de ofensivas russas em toda a Ucrânia esta semana.
Investigadores ucranianos de fontes abertas confirmaram na terça-feira que as tropas russas tinham capturado duas aldeias na região sudeste de Dnipropetrovsk.
As forças russas ocupam agora as aldeias de Zaporizke e Novoheorhiivka, segundo o grupo DeepState, que acompanha os desenvolvimentos no campo de batalha.
O exército ucraniano, em inferioridade numérica e em armamento, tem lutado para conter os avanços russos em grande parte do leste, à medida que Moscovo aumenta a pressão sobre Kyiv para ceder território em quaisquer negociações de paz.
“A Rússia escolhe a balística em vez da mesa de negociações”, escreveu Zelensky na sua mensagem na rede X após os últimos ataques noturnos. “Escolhe continuar a matar em vez de acabar com a guerra. E isso significa que a Rússia ainda não teme as consequências.”
Na sua análise dos mais recentes ataques russos a Kiev, Tkachenko disse que o Kremlin tem uma “assinatura típica” que envolve “ataques combinados de diferentes direções” e o alvo em “prédios residenciais comuns.”
Foram utilizados mísseis de engodo como falsos alvos para confundir os sistemas de defesa ucranianos, acrescentou o chefe militar.
