Vladimir Putin diz que se Donald Trump "não tivesse sido roubado da vitória em 2020", a guerra na Ucrânia teria sido evitada
"Se ele tivesse sido eleito presidente, se não tivesse sido roubado da vitória em 2020, então talvez a crise na Ucrânia que surgiu em 2022 não tivesse ocorrido." Vladimir Putin acaba de falar desta maneira sobre a relação de “confiança” com Donald Trump - fê-lo numa entrevista a um canal russo num momento em que Trump diz que quer a paz a bem ou a mal.
Mas a dúvida está lançada: a reeleição de Trump há cinco anos teria mesmo impedido a guerra? “Não há como saber isso - e se alguém lhe disser que sabe, então está a mentir”, diz a comentadora da CNN Portugal Diana Soller, especialista em política norte-americana. Mas de uma coisa tem a certeza: avançar ou não para a guerra nunca dependeria de eventuais represálias que Trump impusesse à Rússia.
O especialista em Direito Internacional Francisco Pereira Coutinho discorda: “Se Trump quisesse evitar a agressão russa podia fazer uso da Madman Theory”. Francisco Pereira Coutinho entende que Donald Trump é “completamente imprevisível” quando comparado com o seu antecessor e isso podia levar Vladimir Putin “a pensar duas vezes”. “Putin sabia que Biden não reagiria de forma robusta, mas com Trump correria o risco de acontecer alguma coisa.”
Diana Soller tem uma teoria diferente: “Provavelmente Putin quer dizer que Trump muito mais facilmente aceitaria as exigências russas relativamente à Ucrânia”. Por outro lado, “seria um fracasso” para o presidente republicano atribuir a vitória ao seu homólogo russo enquanto mediador da paz. “A Rússia é aliada da China, que é declaradamente o adversário mais perigoso dos EUA”, e Trump “não gosta de perder”.
Por outro lado: recuemos até ao mandato de Donald Trump, entre 2017 e 2021. "A situação na Ucrânia foi-se arrastando, não houve ali nada decisivo". Francisco Pereira Coutinho observa, inclusivamente, que Trump foi "mais interventivo" que o próprio Barack Obama em relação a Kiev, mas "estava mais preocupado com a possibilidade de o filho de Biden estar envolvido com os ucranianos do que com as posições de ambas as partes". O conflito estava, portanto, "congelado" e Trump "virado para a política interna". Caso tivesse sido reeleito, Putin teria alguém na Casa Branca "provavelmente com mais reticências em apoiar a Ucrânia tão abertamente quanto Biden - e sentir-se-ia atentado a atacar".
Em 2021, a Rússia exigiu a retirada das tropas da NATO dos países do Leste da Europa e a promessa de que a Ucrânia nunca iria aderir à aliança, numa lista de condições para o fim da escalada militar da região. Embora o pedido tenha sido rejeitado de forma enfática pela administração Biden, Francisco Pereira Coutinho não considera absolutamente inviável que Donald Trump tivesse respondido da mesma forma, uma vez que "tem uma visão mais próxima de Putin relativamente ao reconhecimento da esfera de influência russa".
Como diz Diana Soller, "é um tema que ainda está por desenvolver e vamos ver como é que corre".