Putin acaba de admitir que morreram na guerra pelo menos três russos por cada ucraniano? "Sim. Finalmente"

9 jun 2023, 19:19
Vladimir Putin

O presidente russo afirmou esta sexta-feira que há um número "impressionante" de soldados ucranianos a morrer na contraofensiva de Kiev (que Putin garante que já começou). Mas a tese militar que Putin invocou para dizer isso pode significar que ele acaba de fazer uma inesperada confissão não intencional

Putin diz que a contraofensiva ucraniana já está em curso. Diz também que essa contraofensiva está a falhar os seus objetivos. Mais: diz que as perdas ucranianas são neste momento enormes. “Sabe-se que durante as operações ofensivas as perdas são de cerca de três para um. Isso é um clássico. Mas, neste caso, supera significativamente esses números. Não vou reproduzir os números agora mas são impressionantes”, disse Vladimir Putin esta sexta-feira.

Portanto: se Putin usa um argumento clássico da guerra para dizer que quem ataca perde três pessoas por cada uma de quem defende, isto também se pode aplicar ao contrário - quando foi a Rússia a atacar, e usando o mesmo raciocínio, perdeu três pessoas por cada ucraniano morto. Ora, este número de perdas nunca foi assumido pelo Kremlin. Houve aqui uma confissão, ainda que não intencional?

“Finalmente ele admitiu”, diz à CNN Portugal o major-general Isidro de Morais Pereira. “É mesmo um clássico, qualquer militar sabe: quem ataca tem muito mais perdas - quer de pessoal, quer de pessoas, quer de material. Enquanto Moscovo esteve a atacar, Putin negou sempre que tinha mais baixas quando sabíamos que tinha um número astronómico de baixas relativamente às da Ucrânia - fontes credíveis apontam sete baixas russas para uma ucraniana na ofensiva de inverno da Rússia na zona leste. Isto Putin jamais irá admitir”, afirma o major-general. “É extraordinário como usa os argumentos quando convém. É isso o que Putin sabe fazer, não tivesse sido um agente da KGB. É um mestre da mentira.”

Diana Soller, investigadora no IPRI/NOVA - Instituto Português de Relações Internacionais, diz que o discurso de Putin “é ambíguo” mas reconhece que pode ser uma confissão não intencional, embora existam vários indícios que já indicavam o fracasso da investida militar russa - seja em avanços no terreno, seja em perdas (óbitos ou feridos graves). “A probabilidade de a Rússia ter perdido um número enorme de soldados é grande porque a Rússia esteve quase sempre ao ataque. Mas há outros indícios que nos fazem perceber que perdeu soldados, como as declarações de Prigozhin [sobre Bahkmut] e as próprias dificuldades no terreno. Isso demonstra que só uma grande perda de soldados levaria a estas dificuldades”, diz a comentadora da CNN Portugal.

Yevgeny Prigozhin admitiu esta semana que “as tropas estão a fugir em surdina” de Bakhmut, onde, adianta Isidro Morais de Pereira, as perdas russas parecem ser avassaladoras: “Segundo fontes credíveis, até do próprio Prigozhin, houve 120 mil perdas: 20%-30% são mortos russos, os outros 70% ficaram feridos de forma grave”. “Vladimir Putin está a dizer algo que é verdade há muito tempo - mas até agora, enquanto se encontrou numa postura ofensiva, sempre negou o número astronómico de baixas que teve, sobretudo em Bakhmut”, diz o major-general.

Também Diana Soller vê um sentido de oportunidade nas declarações de Putin. A investigadora considera que o presidente russo “teve a necessidade de vir falar da contraofensiva e da capacidade da Rússia repeli-la porque a Rússia não obtém vitórias há muito tempo - não se sabe se recuperou Bakhmut ou não”. 

No fundo, diz, “Putin estava com muita vontade de pegar na narrativa da guerra e aproveitou a contraofensiva ucraniana, se é que já está em curso”. Mesmo assim, aos olhos do Ocidente e das nações que apoiam a Ucrânia, as declarações de Putin podem não ser levadas a sério. “Putin sabe muito bem que o sucesso de uma contraofensiva não se mede em dois ou três dias, isso é o que pode ser enganador nas suas palavras.”

Mas pode, então, Vladimir Putin sair fragilizado ao reconhecer, mesmo que indiretamente, que perdeu mais soldados do que a Ucrânia? Diana Soller crê que não: “Não me parece que haja parceiros da Rússia enganados”. Mas, diz, pode ser mais um motivo para não se acreditar no presidente russo: “O que sentimos é que, independentemente do que a Rússia possa dizer, a sua campanha até agora não é uma campanha com sucesso - tem ficado muito aquém do que a extensão e a fama das suas forças armadas podia fazer crer”.

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