Primeiro Zelensky, depois Putin: "missão de paz" de Orbán deixa Europa em alerta

5 jul, 22:00

Orbán foi a Moscovo e Putin apreciou o esforço. E as campainhas de alerta soaram em Bruxelas: este mediador não está mandato para representar o bloco. Ainda assim, o primeiro-ministro húngaro parece o melhor posicionado para iniciar o diálogo com o Kremlin. Isso traz riscos: há quem o veja como um instrumento do Kremlin para vingar no velho continente

Viktor Orbán encara a presidência húngara do Conselho da União Europeia como uma “missão de paz”. E daí o encontro esta sexta-feira com o presidente russo para discutir o conflito na Ucrânia. Vladimir Putin, por agora, não dá sinais de cedência.

Mas pode o primeiro-ministro húngaro ser a chave para o fim da guerra? O próprio acredita que sim. E está empenhado em assumir o papel de mediador, mesmo que os mais altos representantes da União Europeia insistam que não está mandatado para falar em nome dos 27.

Depois das eleições europeias, “como os órgãos europeus estão num limbo, Orbán acaba por aproveitar este momento de alguma fraqueza para se mostrar”, acredita José Palmeira, especialista em relações internacionais.

“Estamos numa nova era, onde os resultados reforçam esta autoperceção de legitimidade dos que questionam os valores e a estratégia da União Europeia em várias frentes”, completa André Matos, também especialista em relações internacionais.

É o contexto ideal para Orbán procurar afirmar-se como a voz liderante da extrema-direita e daqueles que questionam o apoio europeu à Ucrânia.

O melhor posicionado

Por agora, importa vincar algo que parece consensual: Viktor Orbán está melhor posicionado do que qualquer outro líder europeu para conversar com Putin. É, aliás, o único que se deslocou a Moscovo desde que a guerra começou.

“É mais fácil Putin ceder a Orbán do que a Scholz ou Macron. E não se perde nada com aquilo que Orbán está a fazer. Não há um prejuízo”, argumenta José Palmeira.

“Perante uma Rússia isolada, alguém que consiga falar com a Rússia é sempre um caminho. Se conseguir algum efeito positivo de Putin, vai tentar dar a entender que foi ele quem o conseguiu”, acrescenta Orlando Samões, especialista em relações internacionais.

Num momento importante para o conflito, e antecipando os efeitos que a ascensão da extrema-direita em França e a possível vitória de Donald Trump nos Estados Unidos podem ter no apoio ocidental à Ucrânia, Orbán procura “pontes”. “É o momento crucial para tentar obter cedências de Moscovo”, diz José Palmeira.

Mesmo sabendo que, pelo feitio de Putin, será difícil. Nesta sexta-feira, o presidente russo descartou o pedido de cessar-fogo feito por Orbán, atirando culpas à Ucrânia, que diz não estar pronta para a paz.

Mas ficam ambos a ganhar com este papel de mediador da Hungria. “Orbán reforça o seu poder internamente, mostra que é alguém que não cede", considera André Matos, "e Putin tem aqui uma espécie de cavalo de Tróia” para promover a sua posição dentro do território comunitário, onde ganha força a extrema-direita, que tem inclusive admitido um cenário de cedência de territórios da Ucrânia para se chegar à paz.

(Valeriy Sharifulin, Sputnik, Kremlin Pool via AP)

Se conseguir alguma coisa, Bruxelas aproveita?

Ainda antes da visita de Orbán a Moscovo, já Bruxelas estava em estado de alerta. Ursula von der Leyen e Charles Michel apressaram-se a avisar que Orbán não estava mandatado para negociar em nome do bloco.

Mas, e se Orbán for bem sucedido? Iria a União Europeia assumir-se como coautora do feito? “Se amanhã Orbán conseguisse uma cedência, seria visto como alguém que foi útil”. José Palmeira assegura que os líderes europeus vão sempre “tentar descolar-se” de Orbán neste processo. A não ser, lá está, que ele “consiga uma saída”.

Entendimento diferente tem André Matos, que rejeita esse aproveitamento, lembrando que seria muito difícil uma mudança radical da orientação estratégica comunitária no apoio à Ucrânia e nas condições para a paz. “E as relações externas estão sujeitas a um compromisso por unanimidade”, insiste.

“Mesmo que possa parecer um passo indelicado e não articulado, Orbán a conseguir algum feito sobre a guerra, creio que toda a comunidade europeia deve abraçar os ganhos”, antecipa Orlando Samões. Mesmo que esse feito seja algo tão simples como “provar que Putin não está disponível para esforços diplomáticos”.

Alinhar a extrema-direita desalinhada

Segundo os analistas, Orbán quer também aproveitar este papel de mediador para afirmar-se como uma voz liderante da extrema-direita no velho continente.

“Está a tentar criar uma nova família política. É também uma tentativa de afirmação do seu projeto”, aponta Orlando Samões. Contudo, Orbán não terá o caminho facilitado, diz o especialista, vincando as várias divisões entre os líderes da direita dita radical. E os desejos de nomes como Marine Le Pen ou Giorgia Meloni de assumirem essa dianteira. O que não quer dizer que as ideias de Putin não se vão infiltrando por cá através deste intermediário.

Há também ganhos internos para Orbán ao cultivar a relação com a Rússia. Primeiro, porque a Hungria está muito dependente da energia russa. Depois, porque Orbán também quer evitar que húngaros e seus descendentes na fronteira acabem mobilizados para o conflito, justifica o especialista.

(Valeriy Sharifulin, Sputnik, Kremlin Pool via AP)

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