Por que motivo Portugal expulsou 10 russos, porque pode expulsar mais e, no fim, uma história sobre o Governo de Sá Carneiro

5 abr, 20:41
Bandeira russa

Dez funcionários da embaixada russa em Lisboa têm duas semanas para deixar Portugal

A questão é simples: o que pode levar um país a expulsar diplomatas? O Governo português alega atividades “contrárias à segurança nacional” para ter dado ordem de expulsão a 10 funcionários da embaixada russa. Mas que atividades podem ser?

“Podem ser atividades de propaganda, de recolha de informação, que nesta altura [de guerra] não se justificam. O Governo entenderá que há pessoal que está a exercer funções que não correspondem ao que seria esperado”, explica o embaixador António Monteiro à CNN Portugal.

A Embaixada da Federação Russa em Portugal é composta 25 pessoas: um embaixador, seis conselheiros, dois adidos (um militar e outro de protocolo) e 16 secretários. A estes juntam-se 20 esposas, segundo a lista do corpo diplomático acreditado em Lisboa.

O Governo português, liderado por António Costa, assegura que na lista dos funcionários da embaixada russa que têm de deixar o país nas próximas duas semanas nenhum é “diplomata de carreira”. Ou seja, estará em causa pessoal técnico. Mas pode esta seleção ser um aviso para expulsões graduais até chegar ao próprio embaixador?

“Se o Governo entender que é necessário expulsar mais gente, poderá alargar estas restrições”, concretiza o embaixador António Monteiro.

A primeira vez com Sá Carneiro

Esta não é a primeira vez que Portugal expulsa funcionários da diplomacia russa. É preciso recuar até 1980, com o Governo de Sá Carneiro, para encontrar uma decisão semelhante. Sá Carneiro queria dar provas de rutura com o socialismo d, nessa “guerra fria”, declarou quatro espiões russos como “personae non gratae”.

O prazo foi mais apertado do que aquele que agora se aplica: cinco dias. Mas, antes do tempo dado chegar ao fim, já o embaixador russo em Portugal levava os quatro funcionários expulsos ao aeroporto da Portela, onde entraram num voo da Aeroflot.

Sá Carneiro considerou que estes funcionários, acreditados como diplomatas, não estavam a exercer as funções devidas. Isto porque chegou às mãos do antigo primeiro-ministro uma lista com espiões russos do KGB a atuar em Portugal a partir da própria embaixada - assim como uma fita em que se ouvia o embaixador russo a criticar a política externa da Aliança Democrática.

O assunto foi a Conselho de Ministros, com a expulsão a ser justificada pela “intromissão nos assuntos internos portugueses”, num episódio descrito pelo próprio Sá Carneiro como o “Watergate Vermelho”.

Posição diferente teve Portugal quando, em 2018, não se juntou a uma longa lista de países que expulsaram diplomatas russos em solidariedade para com o Governo britânico de Theresa May, na sequência do caso de envenenamento do ex-espião Serguei Skripal.

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