Por que motivo há tanto medo agora de 26 de abril de 1986 - e como ninguém sabe resolver isto

18 ago, 09:00
Ucrânia: Central de Zaporizhzhia, em Enerhodar

Zaporizhzhia é uma das zonas mais sensíveis do mundo neste momento. Um erro e teremos a catástrofe

A maior catástrofe nuclear de sempre: 26 de abril de 1986. Foi na Ucrânia, então parte da União Soviética: o reactor 4 da central nuclear de Chernobil explodiu durante um teste de segurança, milhares de pessoas morreram direta e indiretamente devido à radiação. Trinta e seis anos depois, um pouco mais a sul, o mesmo país teme uma nova catástrofe.

Do outro lado do rio Dnipro, onde se encontra a pequena cidade de Nikopol - que permanece sob controlo das forças ucranianas nesta guerra contra a Rússia -, há receio. Tanto. O facto de não ser uma das cidades que estão na linha da frente dos combates não traz calma aos seus habitantes: para lá das margens do rio está a maior central nuclear da Europa, ocupada por soldados russos.

“Estamos assustados a toda a hora. Eu sou velha e tenho diabetes. Se algo acontecer, eu só vou ter tempo de me atirar para o chão e fechar os olhos”, afirma em declarações à NPR Tamara Korolkova, uma avó de 70 anos que consegue ver a central nuclear no horizonte da janela do seu apartamento.

O medo de Tamara tem razão de ser. De acordo com os especialistas que trabalham no terreno, apesar da estrutura dos reatores ser bem mais segura que a de Chernobyl, o risco de um derrame radioativo é real em caso de ataque. A central tem seis reatores que se alimentam de urânio-235 e que abastece 20% das necessidades energéticas da Ucrânia. A situação já levou a população local a correr às farmácias para comprar comprimidos de iodo para se proteger contra a radiação. Outra parte já decidiu fugir da cidade.

“Mais de 40 países assinaram um papel a pedir que os russos saiam da central. Os ingleses chamam a isto wishful thinking, um pensamento ilusório. É um objetivo político dificilmente concretizável”, afirma o major-general Agostinho Costa.

Um erro = um desastre

A Ucrânia prepara-se para todos os cenários possíveis. O ministro ucraniano do Interior, Denys Monastyrsky, diz que enquanto a Rússia estiver em controlo da central “há grandes riscos” de acontecer um acidente. Ainda para mais quando surgem imagens de que Moscovo está a utilizar as instalações para armazenas material militar.

Kiev acusou repetidamente as forças russas, que tomaram o controlo da central em março, de armazenarem armamento pesado dentro do complexo e de a utilizarem como cobertura para lançar ataques, sabendo que a Ucrânia não pode responder ao fogo sem correr o risco de atingir um dos seis reatores da central - um erro que significaria um desastre. Moscovo, entretanto, afirmou que as tropas ucranianas estão a atacar o local. Cada um dos lados tem acusado o outro de fazer terrorismo nuclear.

Porém, o major-general Agostinho Costa não acredita que exista a intenção de disparar sobre as instalações que têm os reatores. “Há uma intenção de colocar pressão sobre a central, mas não de atacar. Os ataques não são diretamente à central, têm sido nas áreas à volta. No domingo, a central foi atacada e uma pessoa que fazia o seu passeio morreu”, diz o major-general.

Nos meses desde que a instalação nuclear foi capturada, os empregados ucranianos começaram lentamente a regressar - realizando tarefas em salas parcialmente destruídas e entrando em contacto com soldados russos só quando atravessam dois pontos de controlo para entrar no complexo.

"Após a ocupação, apenas o pessoal operacional trabalhou na estação. Havia muitas salas e janelas partidas e queimadas. Depois começaram gradualmente a pedir às pessoas que viessem trabalhar para tarefas específicas", diz à CNN Internacional Olga, cujo nome foi alterado para proteger a sua identidade. "Agora, a parte do pessoal que se foi embora está a trabalhar. Cerca de 35% a 40% dos trabalhadores partiram."

O apelo: desmilitarizem

O presidente ucraniano diz que há ordens para atacar soldados russos que disparem contra a central nuclear. Zelensky defende ainda que todos os que ordenaram ataques à central e às localidades vizinhas devem ser alvo de um processo num tribunal internacional.

“Todos os soldados russos que disparem contra a planta ou utilizem a central como cobertura devem entender que se tornam um alvo especial para os nossos agentes de informação, para os nossos serviços especiais, para o nosso exército”, ameaça Zelensky.

A solução, acredita o presidente, passa por criar uma nova onda de sanções que “necessariamente bloqueiem a indústria nuclear russa”. Zelensky volta a acusar a Rússia de ser um Estado terrorista e defende que as principais autoridades  do Kremlin devem ser julgadas internacionalmente.  

O próprio diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, disse estar “extremamente preocupado” com o risco de “catástrofe nuclear”. Também o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, insistiu esta quarta-feira que é imperativo que a AIEA faça uma inspeção à central. “A tomada da central nuclear pelas forças russas é uma ameaça séria à segurança desta infraestrutura. Aumenta o risco de um acidente nuclear, ameaça a Ucrânia, os países vizinhos e também a comunidade internacional”, afirmou.

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA expressou também que os Estados Unidos apoiam os apelos a uma "zona desmilitarizada" em torno da central nuclear e exigiram à Rússia que cesse "todas as operações militares nas instalações nucleares ucranianas ou nas suas proximidades".

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