Político russo condenado a sete anos de prisão por falar contra a guerra

8 jul, 18:06
Alexei Gorinov mostra cartaz contra a guerra (Kirill Kudryavtsev/Getty)

Alexei Gorinov é o primeiro condenado ao abrigo de uma lei que visa punir dissidentes russos. No tribunal apareceu com um cartaz em que questionava a guerra e as autoridades tentaram esconder o papel

Um conselheiro de Moscovo foi condenado a sete anos de prisão, exatamente o que tinha sido pedido pela acusação, depois de ter falado contra a posição russa da guerra na Ucrânia. Esta é a primeira condenação na sequência de um apertar da lei que prevê punir dissidentes da opinião do Estado russo.

Alexei Gorinov, de 60 anos, foi detido em abril depois de ter sido filmado a criticar a invasão à Ucrânia – que a Rússia continua a apelidar de “operação militar especial” - numa reunião que decorreu na autarquia de Krasnoselsky, a nordeste de Moscovo.

Nessa mesma reunião o político contestou a ideia de se realizar um concurso de desenho para crianças quando existem menores a morrer na Ucrânia, além de ter tentado realizar um minuto de silêncio em memória das vítimas. Na mesma reunião uma outra conselheira, Elena Kotenochkina, apoiou esta ideia, sabendo-se apenas que fugiu da Rússia pouco depois. A acusação, que recaiu sobre ambos, afirmava que os dois tinham conspirado deliberadamente para desacreditar o exército russo, acusando especificamente Alexei Gorinov de ter chamado à Rússia um "Estado fascista", algo que especialistas em linguagem que analisaram as imagens da reunião disseram ser falso.

Com a mais recente lei sobre dissidentes, qualquer pessoa que venha a expressar uma opinião contra a invasão russa incorre numa pena que poderá ir até 15 anos. Em concreto, aquela lei refere-se a pessoas que disseminem “notícias falsas”. Entre as expressões proibidas na referida lei está “guerra”, ainda que o presidente russo tenha feito uma distinção: existe a “operação militar especial” na Ucrânia, mas esta quinta-feira Vladimir Putin utilizou a expressão “guerra no Donbass”, um conflito que decorre em paralelo há oito anos.

O ativista de direitos humanos Pavel Chikov afirma que Alexei Gorinov foi a primeira pessoa condenada à luz desta nova lei, sendo que, até agora, todos os condenados tinham escapado com uma multa ou uma pena suspensa.

Para justificar a decisão a juíza Olesya Mendeleyeva referiu que o crime tinha sido “baseado em ódio político”, colocando ainda o povo russo numa situação de “ansiedade e medo” sobre a guerra.

Apesar da acusação, Alexei Gorinov não recuou nos protestos, e acabou por aparecer em tribunal com um papel em que estava escrita a caneta a seguinte expressão: “Ainda precisam desta guerra?”. Um dos seguranças da sala de audiências tentou esconder a mensagem, mas foi possível captá-la. A 21 de junho, numa audiência preliminar, o dissidente já tinha levado um papel a dizer "sou contra a guerra", que na altura foi possível ver.

Segurança tenta tapar cartaz de Alexei Gorinov ((Kirill Kudryavtsev/Getty)

Segundo ativistas e jornalistas que assistiram à audiência, Alexei Gorinov terá dito à juíza que colocou os seus limites à existência de guerras no século XX.

“Ainda assim está presente em Bucha, Irpin ou Hostomel”, afirmou, mencionando alguns dos locais mais atingidos pelos russos, alguns dos quais, como Bucha, onde terão sido cometidos vários crimes de guerra.

Ilya Yashin, ativista e amigo do condenado, expressou o seu “horror” em relação à sentença através do Twitter, falando numa "trapalhada", enquanto Maria Alyokhina, também ativista, falou de um “inferno histórico” pelo facto de um conselheiro eleito ter sido preso por chamar guerra a uma guerra.

Aleixei Navalny, o mais conhecido opositor de Vladimir Putin, que está preso na Rússia, partilhou várias notícias e publicações sobre este caso. 

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