Entrada imediata na Aliança Atlântica, como quer Volodymyr Zelensky, iria fazer com que todos os Estados-membros, incluindo Portugal, se envolvessem numa guerra direta
A Ucrânia quer entrar na NATO "agora". O presidente Volodymyr Zelensky levou a cabo uma "reorganização das prioridades" do Plano da Vitória, apresentado parcialmente esta quarta-feira, que prevê acabar com a guerra "o mais tardar no próximo ano”. Agora, cabe aos restantes parceiros da Aliança Atlântica "concordarem" para o plano avançar.
“Foi um reorganizar de prioridades. Colocou em primeira linha a adesão à NATO, que permanece como uma linha vermelha para Moscovo. A maior ameaça para a Rússia sob a liderança de Putin é exatamente o alargamento à fronteira da Aliança Atlântica”, apontou Sónia Sénica, durante uma entrevista no programa Agora CNN.
A comentadora da CNN Portugal acredita que a revisão das prioridades ucranianas não acontece por acaso. “Não é de forma inocente. Mais do que ser uma posição de inflexibilidade para Zelensky, é uma posição de prioridade àquilo que é uma garantia de segurança”, sublinhou.
Já o major-general Isidro de Morais Pereira, que diz compreender que o presidente ucraniano coloque em primeiro lugar este objetivo, descarta a ideia de que a Ucrânia tenha reorganizado as prioridades. “Desde que Zelensky foi empossado presidente da Ucrânia, sempre insistiu na adesão à NATO. E hoje, mais do que em qualquer altura, a única garantia suficientemente forte que pode ser dada a Ucrânia é integrar a NATO”, garante.
Tudo isto porque, explica o especialista militar, a Aliança Atlântica é “a única organização de defesa que não tem sido atacada nem pela Federação Russa nem por ninguém”.
Porém, a Ucrânia não pode integrar a NATO enquanto estiver em guerra. Nesse cenário, a organização seria obrigada a ativar o artigo 5.º, referente à defesa coletiva, e envolver todos os Estados-membros no conflito contra Moscovo para defender Kiev. “Caso os esforços diplomáticos falhem, a NATO conta com poder militar para realizar operações de gestão de crises. Estas são realizadas no âmbito da cláusula de defesa coletiva do tratado de fundação da NATO - Artigo 5.º do Tratado de Washington ou no âmbito do mandato das Nações Unidas, individualmente ou em cooperação com outros países e organizações internacionais”, lê-se no site da NATO, sobre o artigo 5.º.
Na prática, a entrada imediata da Ucrânia na NATO, num período em que está em guerra no seu território, levaria automaticamente a que também os países da NATO, como Portugal, entrassem em guerra, uma vez que seriam obrigados a defender um dos Estados-membros, no caso a Ucrânia, da agressão russa.
É precisamente “a perspetiva de segurança”, a “garantia de que nunca mais é atacada”, que Zelensky deseja. Tudo porque “a Ucrânia está farta de conversa fiada”, diz Isidro de Morais Pereira.
Durante a tarde, na antena da CNN Portugal, o especialista militar explicou: “A Ucrânia já foi enganada várias vezes. Quando em 1994, nos Acordos de Budapeste, entregou o seu arsenal nuclear, recebeu garantias de segurança até do próprio invasor e acabou por ser invadida. Essa foi a primeira vez”.
Mas não foi a única. A segunda vez, aponta o comentador, foi “quando tentou entrar na NATO já na primeira década deste século e recebeu um não rotundo da senhora Angela Merkel”. “Mais uma vez a Ucrânia sentiu-se atraiçoada, porque se vinha aproximando da NATO”, garantiu.
E o Plano da Vitória de Zelensky “não emerge de forma inocente neste momento”. “Remete para uma leitura óbvia do que pode ser uma sequência gravosa de eventos a curto prazo”, considerou a comentadora Sónia Sénica, na emissão da CNN Portugal. São eles, apontou, “a necessidade de recentrar o foco da atualidade internacional, que está muito no Médio Oriente”; “a fadiga de guerra que já está a sentir-se, não só numa dimensão externa, mas também dentro do território ucraniano”; e ainda “uma alteração na Casa Branca que não seja benéfica para a posição da Ucrânia”.
Esta última, referente às eleições norte-americanas de novembro, são também mencionadas por Isidro de Morais Pereira. O major-general acredita que o projeto de paz "previne uma possível vitória de Trump", pelo que é “muitíssimo importante” a apresentação do mesmo no Conselho Europeu, que vai acontecer na quinta-feira.
“É uma operação de valor estratégico, porque Zelensky tem oportunidade de anunciar à Europa de forma clara o que pretende e é algo que é preventivo quanto a uma possível vitória de Donald Trump do outro lado do Atlântico. Se isso acontecer, a Europa vai ter de apoiar a Ucrânia sozinha, com muito menos capacidade vinda do outro lado da Europa”, assegurou.
"É a única solução"
A integração da Ucrânia na NATO é um objetivo "realista", mesmo estando em guerra. É o que diz o major-general Isidro de Morais Pereira, apresentando, no entanto, uma condição: "É realista desde que os restantes países assim concordem”.
“A única solução para haver paz é integrar a Ucrânia na NATO. Se não, se a Ucrânia ceder os territórios anexados, a Rússia fica contente durante alguns anos, abastece o material bélico e invade a Ucrânia outra vez”, avisa.
O especialista militar lembra que a Ucrânia pretende usufruir do artigo 5.º da Aliança Atlântica como garantia de segurança. “É a garantia de que não será atacada. E se for invoca o artigo 5.º, sobre a defesa coletiva”, diz, explicando que diz respeito ao “um por todos e todos por um”. E, alerta, “ninguém conhece melhor a Rússia do que os ucranianos, viveram debaixo do mesmo teto”.
Em entrevista à Sky News esta quarta-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, admitiu que a Aliança está "pronta para enfrentar qualquer inimigo" e reforçou o seu apoio à Ucrânia. Sobre o Plano da Vitória concretamente, não avançou qualquer informação.
O projeto de paz da Ucrânia foca ainda outros pontos. Em segundo lugar, os ucranianos colocam as operações na Rússia, objetivo este que vem seguido da dissuasão não nuclear, da gestão conjunta dos recursos e das tropas ucranianas na Europa.