Petróleo, mar, cereais. Porque está a Rússia a tentar "transformar a Ucrânia num país interior" e onde irá parar? A análise do major-general Agostinho Costa

CNN Portugal , MJC
10 jul, 17:03

À CNN Portugal, o major-general avalia o desenvolvimento das operações no terreno e afirma que se "começa a desenhar de uma forma mais clara aquele que é o objetivo não declarado dos russos, que poderá ser a conquista do território até à Transnístria. Eles agora têm 20% do território ucraniano, contando com a Crimeia", mas o objetivo é terem 30%

As equipas de socorro ucranianas encontraram este domingo 15 corpos nos escombros de um edifício residencial atacado pelas forças russas no sábado à noite, anunciaram as autoridades locais. O ataque teve por alvo um edifício residencial de Chasiv Yar, no leste da Ucrânia, segundo o governador ucraniano da região de Donetsk, a que pertence a cidade.

Pavlo Kirilenko tinha dito anteriormente que três dezenas de pessoas estariam sob os escombros do edifício de cindo andares e que as equipas de socorro estavam no local. “Durante as operações de resgate, foram encontradas 15 pessoas mortas no local e cinco pessoas foram retiradas dos escombros”, anunciou o ramo local do Serviço de Situações de Emergência na rede social Facebook, citado pela agência francesa AFP.

As equipas de socorro disseram que várias pessoas ainda estão debaixo dos escombros, incluindo uma criança, e que conseguiram entrar em contacto com três dessas pessoas.

Kirilenko disse na rede social Telegram que o edifício foi atingido por um míssil russo “Hurricane”. Jornalistas da AFP que chegaram ao local após o ataque viram o edifício parcialmente destruído e as equipas de resgate a trabalhar com o auxílio de uma escavadora, segundo a agência francesa.

A Rússia ainda não comentou o ataque em Chasiv Yar, uma pequena cidade que tinha cerca de 12 mil habitantes antes do início do conflito, mas tem negado que as suas forças ataquem alvos civis.

Entretanto, os militares ucranianos confirmaram, no sábado, uma onda de bombardeamentos russos em múltiplas frentes, com especial destaque para Donetsk, a última região em disputa no leste da Ucrânia. A região vizinha de Lugansk está sob controlo quase total das forças russas e dos seus aliados.

As autoridades militares ucranianas disseram também que a Rússia está agora a lançar ataques a oeste da cidade de Lysychansk e que os próximos alvos serão Sloviansk e Kramatorsk. Chasiv Yar fica a cerca de 20 quilómetros a sudeste de ambas as cidades.

Embora ainda não sejam claros os objetivos deste ataque em concreto, o major-general Agostinho Costa não tem dúvidas: "Estamos a assistir a um recrudescer das operações. Tudo indica que nos próximos dias esta tentativa de conquista de Soledar-Bakhmut  se concretize." E explica à CNN Portugal: "A primeira fase de artilharia foi sobretudo conduzida pelos russos, mas agora a Ucrânia já começou a atacar e a usar material de artilharia que recebeu do Ocidente."

De acordo com o presidente do Eurodefense, "começa-se a desenhar de uma forma mais clara aquele que é o objetivo não declarado dos russos, que poderá ser a conquista do território até à Transnístria. Eles agora têm 20% do território ucraniano, contando com a Crimeia", mas o objetivo é terem 30%, diz.

"Tudo aponta para que pretendam anexar também Kharkiv, Nikholaiv e Odessa. Isto é transformar a Ucrânia num país interior, sem acesso ao mar. Além disso, é preciso não esquecer que esta é uma região rica em petróleo, onde está toda a infraestrutura tecnológica do país e onde está também uma parte da terra arável que produz o trigo, portanto, isto tem um impacto muito grande na economia do país."

"A ameaça que é feita a Zelensky é que ele tem até setembro para sentar-se à mesa e abdicar de 30% do território. Mas o presidente ucraniano não tem margem - diplomaticamente, poderá nunca admitir a perda de parte do território", explica o especialista. A guerra terá de ser ganha ou perdida no campo de batalha.

"Toda esta zona que tem sido conquistada pelos russos tem sido a palmo e a custo elevado, e o custo maior é para a população ucraniana. Estamos a assistir a grandes movimentações de forças. Os russos estão a deslocar mais 30 mil militares para a região do Donbass e os ucranianos estão a movimentar mais 20 mil. Aqui vai-se decidir muita da batalha. Se os ucranianos conseguirem parar os russos, entramos numa situação de impasse, que poderá levar a que tenhamos uma parte do território ucraniano ocupado e com uma linha da frente, que se irá arrastar, como tem acontecido nestes últimos anos. Se os russos forem bem sucedidos e o exército ucraniano colapsar na frente de Sloviansk-Kramatorsk, a situação a seguir é muito difícil porque o terreno a seguir é muito amplo e não facilita à defesa."

Seja como for, as perspetivas para o futuro próximo não são animadoras, prevê o major-general Agostinho Costa. "No meio de algum nevoeiro de ameaças, os russos têm dito que se a Rússia for considerada um estado que fomenta o terrorismo, no dia seguinte a Rússia declara guerra à Ucrânia e a partir daí passa a atacar alvos civis, o que alegadamente não tem feito até agora."

Este domingo, Kirilenko disse que 591 civis foram mortos e 1.548 feridos na região de Donetsk desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro deste ano. Desconhece-se o número exato de baixas civis e militares, mas diversas fontes, incluindo a ONU, têm alertado que será consideravelmente elevado.

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