PCP não é caso único. De Espanha ao Japão, as reações contra os discursos de Zelensky

21 abr, 08:40

Discursos do presidente da Ucrânia também geraram indignações prévias ou posteriores em alguns parlamentos do mundo

Volodymyr Zelensky vai discursar esta tarde no Parlamento português, quase dois meses após o início da guerra na Ucrânia. Mas nem todos gostaram do convite ao presidente ucraniano. Dos oito partidos com assento parlamentar, houve um que se manifestou contra: o PCP, que não vai estar no  hemiciclo para o ouvir.

A posição não é, contudo, caso único no mundo, nem sequer na Europa.

Espanha: quatro deputados recusaram aplaudir

Em Espanha, nem todos os parlamentares viram com bons olhos o convite feito a Volodymyr Zelensky. No dia 5 de abril, o presidente da Ucrânia discursou no parlamento espanhol. Quando se esperava que todos aplaudissem Zelensky, o momento acabou por ser boicotado por quatro deputados: Enrique Santiago da coligação Unidas Podemos, Mireia Vehí e Albert Botran da Candidatura de Unidade Popular, e Néstor Rego do Bloco Nacionalista Galego.

Ao jornal espanhol El Confidencial, estes grupos parlamentares explicaram que participaram no evento apenas por “respeito institucional” e que não aplaudiram o presidente ucraniano por discordarem de algumas das posições que têm vindo a ser tomadas por Zelensky desde o início da guerra, como a ilegalização de partidos opositores e a sua “tolerância para com grupos nazis” nas tropas ucranianas.

Tal como Enrique Santiago, líder da Esquerda Unida, membro da coligação Unidas Podemos, também Álvaro Aguilera, secretário-geral do Partido Comunista de Madrid, se manifestou no mesmo sentido através do Twitter.

“Desculpem, mas não. Isto não. Zelensky é um perigo para a paz e para o seu povo. Herdeiro de um golpe de estado que ilegalizou o Partido Comunista e outros 11 partidos. Tanto me faz que os media lhe tenham construído um traje de Cid Campeador [personagem histórica espanhola]. Deve existir um debate nos órgãos. Não em meu nome”, pode ler-se na publicação.

França: a indecisão de Marine Le Pen

A presença de Marine Le Pen no parlamento, adversária de Emmanuel Macron nas presidenciais francesas, para assistir ao discurso de Zelensky também chegou a estar em causa.

Quando se soube que o presidente ucraniano iria marcar presença, por videoconferência, no hemiciclo francês, a 23 de março, a candidata de extrema-direita disse que já tinha “compromissos prévios”. Le Pen – cujo partido tem ligações à Rússia – disse, inicialmente, que não sentia que fosse necessário demonstrar o seu apoio a Zelensky.

“Não admiro particularmente o sr. Zelensky”, afirmou a candidata presidencial à France Info, justificando que "achava que se estava a comportar como um chefe de Estado e que não deveria espoletar qualquer admiração, deveria sim ser um comportamento normal”.

No entanto, com a polémica a escalar, Le Pen optou por cancelar os “compromissos prévios” e estar presente durante o discurso, garantindo que não o fez por pressão mediática.

Itália: extrema-direita contra o discurso

Em Itália, um pequeno grupo de deputados teceu críticas à permissão dada a Voldymyr Zelensky para discursar no parlamento, a 22 de março, argumentando que a aparição do presidente ucraniano em nada ajudaria a restaurar a paz.

Pelo menos 20 parlamentares garantiram que iriam desprezar a videoconferência de Zelensky e criticaram a decisão de permitir que discursasse em ambas as câmaras parlamentares, uma honra que até então só havia sido dada ao rei de Espanha Juan Carlos e ao Papa João Paulo II.

À agência Reuters, Gianluigi Paragone, ex-membro do Movimento 5 Estrelas e fundador do grupo contra a permanência italiana na União Europeia intitulado Italexist, disse que não iria prestar atenção às palavras do presidente ucraniano.

“Já ouvimos o sermão de Zelensky e, se fizéssemos o que quer, isso levar-nos-ia imediatamente a uma guerra na Europa”, disse.

Na votação, a larga maioria dos partidos foi a favor do discurso de Zelensky, mas dezenas de deputados não apareceram, incluindo vários da Liga Norte, partido de extrema-direita liderado por Matteo Salvini, que chegou a elogiar Putin no passado.

Pelo menos um político da Liga Norte, Vito Comencini, confirmou à Reuters que não iria estar presente no discurso de Zelensky. Recusou explicar a opção, mas uma semana antes tinha visitado São Petersburgo e entregado ajuda humanitária à população da região do Donbass, a quem demonstrou apoio.

“São pessoas que vivem numa zona de guerra desde 2014, culpadas (apenas) por exigirem que as suas demandas sejam reconhecidas”, publicou nas redes sociais durante a visita.

Israel: o boicote da terceira maior força política

Em Israel, foi a Lista Conjunta, coligação política composta por quatro partidos maioritariamente árabes, e liderada pelo Hadash, a boicotar o discurso do presidente Zelensky. A 20 de março, momentos antes de o líder ucraniano começar a falar através de videoconferência, o partido, a terceira maior força política do país, anunciou que os seus membros não iriam estar presentes no Knesset.

Foi o único elemento judeu do Hadash, Ofer Cassif, quem explicou a posição tomada. “Ouvimos nos media ocidentais, e também aqui dia e noite, de que esta é uma guerra entre os filhos da luz e os filhos das trevas, mas não é. Durante anos, existiram crimes contra as minorias russas na Ucrânia. Na Ucrânia, o regime trabalha de braço dado e sem qualquer vergonha com milícias neonazis como o Batalhão Azov. Não há filhos da luz e filhos das trevas aqui”, acusou.

Japão: as referências a Pearl Harbor que causaram indignação

Quando discursou no congresso dos Estados Unidos, Zelensky utilizou o ataque a Pearl Harbor como um incidente comparável à invasão da Ucrânia. Na perspetiva do presidente ucraniano, ambos foram ataques não provocados contra países com quem os agressores não estavam em guerra. As declarações caíram mal nas alas mais conservadoras da política japonesa. Houve até um conjunto de deputados de direita que afirmaram que Zelensky só deveria discursar no parlamento japonês após ter aulas sobre o que “realmente” antecedeu o ataque a Pearl Harbor.

Contudo, a 23 de março, o discurso do presidente da Ucrânia ocorreu sem qualquer percalço. A ocorrência foi documentada, em tom crítico, no Twitter pelo historiador Hiromu Nagahara, que colabora com a prestigiada universidade norte-americna MIT.

Grécia: o testemunho do grego do Azov que não caiu bem

No discurso feito no parlamento grego, a 7 de abril, Zelensky exibiu o testemunho de um soldado do Batalhão Azov. No vídeo, o combatente, de nacionalidade grega, apelou à solidariedade da Grécia para com a Ucrânia durante a invasão russa.

“Dirijo-me a vocês, sou grego de origem. Chamo-me Mikhail, o meu avô combateu contra os nazis e agora estou na defesa da Ucrânia através do Batalhão Azov”, disse o paramilitar.

A Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME), um movimento sindical, e a Juventude Comunista da Grécia e outros grupos de esquerda criticaram o sucedido, lembrando que a solidariedade grega para com o povo ucraniano não se deve tornar num apoio a um "regime fantoche da NATO" liderado por Zelensky e pelos "grupos neonazis" que apoia.

Em resposta ao discurso de Zelensky, o antigo ministro das Finanças de Tsipras e fundador da Frente da Desobediência Realista Europeia (MeRA25), Yanis Varoufakis, afirmou que a Grécia “não convidou um nazi, convidou o presidente da Ucrânia". "Foi o presidente da Ucrânia que trouxe um nazi. E, sim, foi o presidente do nosso parlamento que, ao não intervir, não defendeu o nosso parlamento”.

Chipre: acontecimentos na Grécia geram contestação

No Chipre, após a intervenção de Mikhail, membro do Batalhão Azov, no parlamento da Grécia, o Partido Progressista do Povo Trabalhador decidiu faltar ao discurso de Zelensky, que decorreu no mesmo dia, 7 de abril.

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