opinião

Paulo Portas: "A queda de Azovstal foi o momento politicamente mais importante para os russos, depois da tomada de Kherson"

MJC
22 mai, 22:21

O comentador da TVI não tem dúvidas de que alguns dos prisioneiros de Azovstal serão torturados e usados em julgamentos-espetáculo. Além disso, recomenda cuidado nas promessas feitas sobre a adesão da Ucrânia à União Europeia. E critica duramente a ideia de fechar a avenida da Liberdade em Lisboa: "Isto é fazer politica para ter uns likes"

A queda de Azovstal, em Mariupol, é, na opinião de Paulo Portas, "o momento politicamente mais importante para os russos" nesta guerra, depois da tomada de Kherson. "Esta semana foi, porventura, aquela em que os russos conseguiram inverter a série de revezes que tinham sofrido", diz Portas no "Global", o espaço de comentário semanal no Jornal das 8 da TVI. "A queda do Azovstal, com 2.439 prisioneiros de guerra, é uma espécie de conclusão com êxito - um êxito absolutamente destrutivo - por parte dos russos. Os russos estão a avançar no Donbass, lentamente mas estão."

Para ilustrar este momento, Paulo Portas escolheu uma fotografia que Dmytro Kozatskyi, o militar e fotógrafo do batalhão Azov, divulgou nas redes sociais pouco antes da rendição. 

"É uma imagem de extrema destruição. Esta fotografia ganhará certamente um prémio", prevê. A imagem mostra "a ilusão da luz da liberdade, que é uma ilusão que dura segundos, porque saindo cá para fora os militares ficaram certamente nas mãos dos russos".

Segundo Paulo Portas, "há duas linhas paralelas que se começam a notar" nesta guerra: por um lado, "Zelenski e os EUA querem derrotar a Rússia o mais que conseguirem", por outro lado, "alguns países europeus que aproximam-se mais da ideia de um cessar fogo para começar uma negociação de paz - ideia que a Ucrânia agora recusa, sobretudo se não houver troca de prisioneiros". 

O que vai acontecer aos prisioneiros? Paulo Portas não acredita numa troca de todos os prisioneiros. "Não nos enganemos, a maioria deles estão em território russo, é muito provável que não saibamos deles durante muito tempo ou nunca mais. Uma parte deles serão torturados, contra todas as internacionais. Outros serão usados para julgamento-espetáculo". 

"Do ponto de vista da moral nas tropas ucranianas a queda de Azovstal isto foi muito positivo para a Rússia" e foi um momento "muito difícil para Zelenski", que estava a ser pressionado para intervir em Mariupol. "A estratégia de resistência até ao limite não era viável, às vezes é preciso retirar para proteger e para avançar", considera Paulo Portas.

Ucrânia na União Europeia: um processo muito difícil

Este sábado, o primeiro-ministro português António Costa esteve em Kiev com Zelenski: "É importante que haja uma fotografia que mostre que Portugal está do lado certo da escola, mas a adesão da Ucrânia à União Europeia é mais difícil do que parece", alerta o comentador da TVI. "Primeiro, porque a Ucrânia está em guerra, enquanto houver guerra e negociações do pós-guerra, a UE não pode ser colocada dentro do tabuleiro se não passa a fazer parte da guerra", diz. "Segundo, não há consenso" entre os países europeus.

"É evidente que tem de se encontrar uma solução, mas não é possível prometer que a Ucrânia vai entrar rapidamente na UE", afirma Portas. Há países que estão há anos à espera c(como a Sérvia, Montenegro, ou Turquia, que está à espera desde os anos 60 do século passado", recorda. E, depois, porque, sublinha Paulo Portas, "há progressos no estado de direito que a Ucrânia ainda não tinha conseguido fazer em tempos de paz, e agora será muito mais difícil".

Finalmente, o comentador referiu o pacote de ajuda de 50 mil milhões de dólares que Joe Biden assinou esta semana e que se vem juntar ao anterior pacote de 14 mil milhões de dólares ajuda militar e humanitária para a Ucrânia. Isto é dez vezes mais do que a ajuda da União Europeia e a é a maior ajuda dos EUA a um país nos últimos anos, o que, diz Portas, nos leva a pensar que Biden não acredita que a guerra vá terminar em breve: "Os EUA estão a preparar um cenário prolongado de guerra". 

2023 com contas difíceis para o ministro das Finanças português

Em 2022 as perspetivas não são más, mas 2023 será "um ano difícil" para o ministro das Finanças, Fernando Medin, prevê Paulo Portas. "Vamos voltar a um PIB modesto, ou seja, àquele rame-rame de crescer um pouquinho mas não aquilo que precisávamos de cresce", diz. O crescimento será de entre 2% e 2,5%, já incluindo o PRR.

"E depois há um detalhe: a maioria dos aumentos que o Estado terá de pagar serão baseados na inflação deste ano", sublinha. "Isso significa que prestações como subsídio de desemprego, rendimento mínimo, abono de família, pensões, são aumentadas para o ano com base na inflação deste ano e para o ano o ministro das Finanças terá de fazer o orçamento a pensar em aumentos na casa dos 6 ou 6,5 %."

Isto sem esquecer também o aumento no número de funcionários públicos. 

Avenida da Liberdade fechada aos domingos?

 

Sobre a proposta, apresentada pelo Livre, de encerrar o trânsito da avenida da Liberdade, em Lisboa, aos domingos e feriados, Paulo Portas não tem dúvidas: "Não é assim que as coisas que se fazem", diz, referindo-se ao facto de os proponentes não terem falado com os comerciantes e empresários daquela avenida. Na avenida da Liberdade, há 14 hotéis, 80 lojas e seis salas de espetáculos, recorda Portas, que precisam de funcionar ao domingo. 

Na sua opinião, esta ideia revela "falta de bom senso e de conhecimento da realidade". "Não falaram com nenhum dos interessados, isto é fazer politica para ter uns likes", critica.

Portas alerta que "há ideias que parecem bondosas mas têm um efeito boomerang" e que esta pode ser uma delas. E deixa o aviso: o presidente da Câmara Carlos Moedas "tem de fazer acordos porque não tem a maioria, mas a oposição também tem de perceber que não pode governar,  se derrubam Moedas isso poderá ser melhor para ele".

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