Para a Rússia, ele é um traidor e um extremista de direita. Para a Ucrânia, é um russo que luta contra o seu próprio país

CNN , Scott McLean, Sarah Dean e Dennis Lapin
20 jul, 21:00

Nos arredores de Kiev, passando por intermináveis ​​quarteirões de prédios de apartamentos ao estilo soviético, há um estéril centro de reabilitação cheio de soldados ucranianos feridos nas linhas de frente.

Há pacientes com lesões nos nervos, queimaduras, fraturas, até mesmo uma perna amputada - e parece que os braços e pernas tatuados de quase todos estão pontilhados com ferimentos de estilhaços.

Stepan Kaplunov está deitado numa cama com uma engenhoca de aparência medieval a mover a perna dele para a frente e para trás. Ele partiu as duas pernas em combate, quando o projétil de um blindado explodiu ao lado dele.

De cabeça rapada, barba e um braço cheio de tatuagens, ele é igual a qualquer outro soldado ucraniano na sala – tirando o facto de Kaplunov ser russo. É a única cidadania que possui.

Nascido em Ivanovo, a cerca de 240 quilómetros a nordeste de Moscovo, ele cresceu no extremo norte da Rússia e, mais tarde, alistou-se nas Forças Armadas russas, cumprindo uma missão na Síria. Ele mostrou-nos os seus documentos de identificação para provar que tinha nascido na Rússia.

Descreveu-se como um “adversário do governo russo e do regime presidencial” e descreveu o presidente russo Vladimir Putin como um “tirano que anseia restaurar a URSS”.

Stepan Kaplunov nasceu na Rússia e tem cidadania russa, mas juntou-se ao exército ucraniano

No entanto, Kaplunov diz que nunca se sentiu compelido a agir contra o país até 2014, quando a Rússia invadiu a Ucrânia - tomando a Crimeia e parte da região do Donbass.

“Isso comoveu-me”, disse ele à CNN através de um tradutor. “Não vou dizer que 100% da minha motivação é justiça. Há uma predisposição nas pessoas, pessoas que gostam de aventura e de correr riscos. Eu já tinha sido soldado e queria aplicar as minhas capacidades, e sentia solidariedade pela Ucrânia. Achei que a Ucrânia estava certa e merecia ser ajudada.”

Por conseguinte, ele atravessou a fronteira e juntou-se ao Batalhão Azov – na altura uma milícia desorganizada dos combatentes mais duros da Ucrânia, muitos dos quais eram ultranacionalistas e supremacistas brancos.

Kaplunov diz que foi atraído para o batalhão porque era aquele que mais facilmente recebia estrangeiros e ele já conhecia alguns dos membros, e que não foi pela ideologia de Extrema-Direita.

“Não tive grande opção”, disse. “Talvez pudesse ter ido para outro batalhão ou para uma unidade militar regular ucraniana, mas eu conhecia pessoas no Azov, portanto, foi para lá que fui.”

Stepan Kaplunov ficou ferido quando o projétil de um blindado explodiu ao lado dele e está agora em recuperação

Receio de captura

Desde então, o Azov integrou o Exército regular ucraniano e tentou distanciar-se das suas origens extremistas, embora a Rússia ainda o veja como um grupo de neonazis.

Os civis que fugiram aos combates através de territórios controlados pela Rússia relataram que foram examinados em busca de tatuagens que pudessem indicar ligações ao Batalhão Azov ou ao nacionalismo de Extrema-Direita.

Kaplunov, que diz que deixou o Azov após dois anos e serviu em várias outras unidades do Exército ucraniano, ostenta com orgulho uma tatuagem “Born to Kill” no braço esquerdo, e a frase em alemão “Sieg Oder Tod”, que significa “vitória ou morte”, um grito de guerra amplamente utilizado ao longo da História, mas também ligado ao Terceiro Reich.

“Este é o meu lema de vida. Gostei de como soava e da forma como estava escrito”, disse ele.

A CNN contactou o Ministério da Defesa Ucraniano e o Batalhão Azov para obter comentários.

Quando a Rússia lançou uma invasão em grande escala à Ucrânia, em fevereiro, Kaplunov diz que deu por si a defender uma aldeia nos subúrbios a leste de Kiev com uma espingarda e um lança-rockets. O vídeo gravado com uma câmara no capacete que ele forneceu à CNN mostra situações em que escapam por um triz, colegas feridos e blindados russos queimados. No final, a sorte acabou e ele foi atingido pelo projétil de um blindado.

“Lembro-me de que tinha um traumatismo muito grave e os meus ouvidos estavam a sangrar. Além disso, tinha várias lesões em todos os órgãos internos e um ferimento de estilhaço no olho. Portanto, quando recuperei os sentidos, passados alguns segundos, não conseguia ver nada”, recorda. “Tentei rastejar para longe e queria fazer-me explodir com uma granada para evitar ser feito prisioneiro.”

Kaplunov diz que preferia ter morrido a ter sido capturado pois temia que, se fosse apanhado, o matassem, torturassem ou detivessem. Uma lei aprovada este mês pelo parlamento russo sobre traições ao Estado proíbe explicitamente os cidadãos russos de lutarem em qualquer conflito militar contra a Rússia – um crime punível com até 20 anos de prisão. Também proíbe a exibição de símbolos nazis.

Stepan Kaplunov descreve-se como um “nacionalista ucraniano”, mas diz que nunca teve visões de supremacia branca

“Não tenho de provar nada”

Em 2019, um popular blogue pró-Rússia afirmou que Kaplunov tinha no braço uma tatuagem do adjunto de Hitler, Heinrich Himmler, e uma suástica no peito. A CNN soube da alegação depois de se encontrar duas vezes com Kaplunov. Nenhum dos seus braços apresentava uma tatuagem de Himmler e, numa videochamada subsequente, ele negou ter uma suástica ou qualquer outro símbolo nazi no peito, embora se tenha recusado a prova-lo.

“Não quero tirar a camisola. Mas não tenho essa tatuagem”, disse. “Eu não tenho de provar nada a ninguém.”

Descreve-se abertamente como um “nacionalista ucraniano”, mas diz que nunca teve opiniões neonazis ou de supremacia branca.

O seu caso ilustra as realidades complexas deste conflito e as guerras ideológicas e de propaganda travadas em paralelo com as batalhas reais.

A Rússia procurou justificar e conquistar o apoio público para a sua “operação militar especial” engrandecendo uma pequena minoria de radicais de Extrema-Direita na Ucrânia. As autoridades ucranianas acusam rotineiramente os russos de serem racistas e neonazis empenhados em exterminar o povo ucraniano. Em abril, o Ministério da Defesa ucraniano publicou no Twitter: “Os nazis russos declararam uma guerra de extermínio à Ucrânia.”

A decisão de Kaplunov de lutar contra o seu próprio país custou-lhe alguns amigos na Rússia. Ele diz que outros o apoiaram, discretamente. Ele também ganhou a ira do estado russo. O nome dele foi publicado pelo jornal oficial do governo russo numa lista de mais de 200 pessoas suspeitas de terrorismo ou de atividades extremistas.

Os pais dele ainda estão na Rússia, e Kaplunov diz que foram visitados pelos serviços de segurança russos, mas nunca esteve preocupado com a segurança deles.

“É verdade que a Rússia é um país de alguma ilegalidade, mas ainda assim respeitam-se algumas normas e direitos. Portanto, os meus pais não têm qualquer problema”, disse.

Agora, a Ucrânia é a sua casa e ele vê aqui o seu futuro, embora Kaplunov ainda não tenha passaporte ucraniano nem se sinta particularmente ucraniano. Ele ainda é russo.

“Eu adoro a Ucrânia”, disse. “Mas ainda tenho pais e avós. Todos russos.”

Para Vlad Pachka, o seu camarada ucraniano deitado na cama do lado no centro de reabilitação, nada disso importa.

“Apesar de no país dele ele ser considerado um criminoso, um mercenário, haverá sempre uma cama para ele em minha casa e terá sempre comida, porque ele está a defender a minha casa”, disse Pachka.

Kaplunov sabe que, provavelmente, nunca mais poderá regressar à Rússia nem poderá voltar à linha da frente tão cedo. Os ferimentos são extensos. Partiu ambas as pernas, não consegue andar sem muletas, tem uma mão desfigurada e os olhos muito sensíveis à luz.

A recuperação demorará meses, se não mais. Mas diz que, quando recuperar completamente a saúde, voltará para a guerra.

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