Entre o apagão do Telegram, o caos no comando russo e armas que pensam sozinhas, a Ucrânia está a quebrar uma barreira invisível que protegia o coração do regime russo, mesmo que do Kremlin se voltem a lançar armas poucas vezes vistas
Qualquer esperança de uma paz prolongada criada pelo cessar-fogo de três dias que permitiu a celebração do Dia da Vitória, em Moscovo, parece ter desaparecido. Nos últimos dias, Rússia e Ucrânia trocaram alguns dos ataques de drones mais violentos desde o início da guerra, com Moscovo a elevar o tom ao lançar apenas pela terceira vez um míssil Oreshnik, a potente arma hipersónica que é capaz de carregar ogivas nucleraes.
Mas no terreno, e mesmo que a Rússia ameace com o que antecipou serem ataques sistemáticos a Kiev, algo parece ter mudado. Em abril, as Forças Armadas ucranianas inverteram meses consecutivos de perdas territoriais e conquistaram mais território que a Rússia. Para os analistas, este não é um fenómeno temporário, mas sim o início de uma nova fase de uma guerra que está a ter um preço cada vez mais alto para o Kremlin.
"Estamos mesmo num virar de ciclo, a guerra está mesmo a mudar a favor da Ucrânia. E não é de agora. A capacidade industrial ucraniana criada em parceria com vários países europeus está a materializar-se. Essas infraestruturas não foram atacadas pela Rússia e os resultados estão a surgir", explica o major-general Jorge Saramago, especialista em Assuntos Militares.
No mês passado, a Ucrânia conseguiu inverter uma tendência que persistia desde 2024, ao recuperar mais território do que aquele que a Rússia conquistou. Em abril, o ganho líquido ucraniano foi de 116 quilómetros quadrados, segundo dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). A dimensão do ganho não é significativa, tendo em conta o território que a Rússia ainda ocupa, mas os especialistas acreditam que este é o início de algo maior.
O governo ucraniano estima que o país vai continuar a aumentar o fabrico de drones e produzir sete milhões de unidades no final de 2026. Esta capacidade de produção é o que permite à Ucrânia manter o número de baixas russas acima da sua capacidade de reposição. De acordo com o ministro ucraniano da Defesa, Mikhailo Fedorov, as baixas russas rondam os 35 mil homens por mês, acima dos 30 mil que Moscovo é capaz de recrutar no mesmo período.
Hoje o combate na linha da frente tem poucas semelhanças com o início da guerra. Acabaram as grandes tentativas de avanços com dezenas de blindados em pequenos pontos da frente e com os militares a ocuparem posições a poucos metros uns dos outros, em trincheiras. Hoje o combate é dominado por drones, que representam cerca de 80% de todas as baixas na linha da frente.
Esta letalidade é impulsionada por uma revolução tecnológica onde a Inteligência Artificial (IA) começa a assumir um papel cada vez maior. Fontes oficiais e operacionais russas confirmaram recentemente que a Ucrânia começou a testar na linha da frente uma nova geração de drones táticos autónomos, apelidados de "Martians". Segundo relatos do próprio comando russo, estes dispositivos voam sem orientação humana a velocidades de até 300 km/h, são imunes a sistemas de interferência eletrónica (jamming) e duplicaram o seu raio de alcance operacional para mais de 80 quilómetros, asfixiando por completo a logística russa.
Para o tenente-general Rafael Martins, o uso de IA está a optimizar radicalmente o campo de batalha, permitindo ligar drones de vigilância a drones de ataque para detetar, processar e selecionar automaticamente os alvos a abater, sem qualquer hipótese de deteção prévia pelas forças de Moscovo.
Este cenário de desgaste obriga o Kremlin a enviar reforços constantes para a linha da frente numa tentativa de manter a pressão sufocante sobre as defesas ucranianas. Com o tempo de preparação drasticamente encurtado, a qualidade e a prontidão de combate da infantaria russa degradaram-se de forma acentuada. Estes fatores, somados ao corte abrupto no acesso aos terminais do Starlink por parte de Elon Musk, exacerbaram as debilidades logísticas e táticas sofridas pelas tropas no terreno.
"O fim do Starlink trouxe grandes dificuldades no campo do comando e controlo. Isso, combinado com o mau treino, é praticamente morte certa. A disciplina dos soldados russo é baixa, os comandantes russos agridem e até executam soldados russos que se recusam a combater. Há um clima de terror dentro das unidades russas. Aqueles que têm dinheiro pagam", explica o major-general Jorge Saramago.
Mas as forças russas não estão apenas a ser afetadas pelas medidas impostas pela Ucrânia e pelo Ocidente. As forças russas queixam-se de que as próprias medidas tomadas pelo Kremlin estão a degradar a capacidade de combate russa. No início de fevereiro, o Roskomnadzor, o regulador da comunicação da Rússia, acusou o Telegram de violar as leis russas e bloqueou o uso da plataforma, obrigando os russos a migrar para o mensageiro estatal MAX.
Só que a aplicação de comunicação era utilizada pelas Forças Armadas russas em praticamente todos os escalões, para coordenar operações, enviar e receber ordens e até para pedir mantimentos. Outros utilizavam o Telegram para organizar angariação de donativos para comprar equipamentos para soldados. Na altura, muitos bloggers militares russos relataram sérios problemas de coordenação, com os soldados a ser incapazes de pedir apoio ou coordenar ataques de drones.
"O fim do Telegram, que era utilizado pelas unidades militares para comunicar e receber ordens, teve um forte impacto nas forças russas. Todos o usavam, inclusive para falar com a família. Putin desligou o Telegram e isso influenciou as tropas e as famílias. Houve clamor na Rússia", garante o major-general Jorge Saramago.
Somando-se ao sucesso na linha da frente, a campanha ucraniana de drones de longo alcance está a atingir com uma frequência cada vez maior algumas das indústrias russas mais críticas. As forças ucranianas estão a focar os seus esforços em fábricas que produzem componentes cruciais capazes de paralisar ou atrasar a produção de determinados produtos da indústria de defesa. Por outro lado, estes ataques aéreos estão a causar sérios problemas ao setor energético russo, que representa uma das principais fontes de receita do Kremlin.
De acordo com uma investigação feita pela agência Reuters, a campanha aérea ucraniana paralisou ou afetou severamente a atividade em, pelo menos, oito grandes refinarias ou infraestruturas de processamento russas. Entre os principais alvos estão a refinaria NORSI, a quarta maior da Rússia, a refinaria de Moscovo, e as unidades de processamento de crude de Perm, Tuapse e Syzran.
Ao todo, estima-se que esta vaga de ataques tenha travado uma capacidade de processamento equivalente a 75 milhões de toneladas de petróleo e cerca de 12 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano. O impacto logístico imediato retirou do circuito aproximadamente 980 mil barris de crude por dia nas refinarias de Perm, Tuapse, Syzran e no porto estratégico de Primorsk, que viu a sua capacidade de exportação de um milhão de barris por dia cortada em, pelo menos, 40%.
"Os russos vão ter de se habituar. A Rússia está a ter dificuldades na produção de sistemas de defesa aérea. O território russo é enorme e tem muitos pontos importantes para defender. A Rússia viu-se obrigada a deslocar a defesa antiáerea para lugares críticos e abriram buracos enormes. Os ucranianos estão a explorar isso com grande eficácia", explica o tenente-general Rafael Martins.
A ausência de capacidade de defesa aérea russa não é fruto do acaso. Nos meses que antecederam esta campanha, a Ucrânia organizou uma campanha de busca e destruição sistemática destes sistemas e dos respectivos radares. De acordo com os números publicados pelo comandante das forças de drone ucraniana, Robert "Magyar" Browdi, e que a CNN Portugal não conseguiu verificar, durante os três meses de inverno, as forças russas perderam 54 unidades, entre os quais 39 lançadores de mísseis antiaéreos e 15 radares. No entanto, imagens partilhadas por várias unidades ucranianas nas redes sociais mostram a destruição de vários destes sistemas, que são um dos alvos mais valiosos para as forças ucranianas.
E os resultados desta campanha são claros. Nas últimas semanas, os ataques aéreos de Kiev têm sido mais frequentes e têm encontrado cada vez menos oposição. O resultado mais claro foi o ataque da madrugada de domingo, quando 1.300 drones atingiram a região mais defendida do país, acertando com precisão em fábricas e refinarias. Este foi o maior ataque aéreo contra Moscovo desde a Segunda Guerra Mundial.
"A série de ataques da Ucrânia provou que a Rússia é incapaz de defender eficazmente a capital russa, uma fraqueza que gerou uma frustração significativa no espaço informativo ultranacionalista russo", escreve o ISW.
Mas não foram apenas os bloggers militares a mostrar o seu descontentamento. A reação da imprensa russa ao ataque foi um autêntico blackout, levando milhares de moscovitas a partilhar vídeos nas redes sociais a demonstrar o seu descontentamento com a forma como o regime de Vladimir Putin está a lidar com o conflito. Pela primeira vez, a guerra bateu à porta do coração da sociedade russa e aquilo que era uma "operação militar especial" distante começa a ser uma realidade cada vez mais presente a que os russos se vão ter de habituar.
"Durante toda a noite, na televisão, só se falava do Putin. Em vez disso, podiam ter dado pelo menos alguma informação. Nem sei o que dizer numa situação destas. Só nos resta encolher os ombros. O governo tem de tomar medidas concretas e fazer alguma coisa em relação à guerra — já estamos a lutar há quatro anos", disse uma habitante da capital.
