“Os russos quiseram mostrar que não têm respeito nem medo”: aeronave do Kremlin intercetada por F-16 portugueses tinha identificador eletrónico desligado

4 abr, 11:10
Caça F-16 (Horacio Villalobos - Corbis/Corbis via Getty Images)

“Se persistirem e entrarem num espaço aéreo de um país soberano, em último caso as aeronaves com o transponder desligado são abatidas”

Dois caças F-16 portugueses identificaram e escoltaram no domingo uma aeronave militar russa IL-76 na costa da Estónia, no Mar Báltico. Trata-se de um “evento de rotina” na missão Baltic Air Policing, da NATO, mas com uma mensagem que os russos fizeram questão de deixar.

“Como não havia plano de voo, nem o avião estava em contato com o controlo de tráfego aéreo nem usava o seu transponder”, os caça F-16 portugueses “foram lançados de Šiauliai, na Lituânia, para identificar e escoltar uma aeronave militar russa IL-76” que “voava da Rússia continental para o enclave de Kaliningrado sobre as águas internacionais da costa do Mar Báltico da Estônia”, explica a NATO no seu site.

Apesar de se tratar de uma missão rotineira, o facto de ser uma aeronave russa, de se estar em pleno conflito e de o identificador eletrónico estar desligado pode tornar a situação menos inofensiva do que parece, diz major-general Isidro de Morais Pereira. “Os russos desligaram o transponder de forma propositada, no fundo é para mostrarem que não têm medo, é um desafio, é uma forma desafiadora” de captar a atenção, considera o major-general Isidro de Morais Pereira, explicando que “os pilotos são treinados, sabem perfeitamente que quando se aproximam” de um espaço aéreo soberano “têm de ter ligados” os “identificadores eletrónicos” sob pena de a aeronave ser abatida, como aconteceu, exemplifica, com o drone norte-americano no Mar Negro.

“Faz-se isso [desligar os transponders] porque se quer desafiar a autoridade de alguma maneira, dizer que não se tem respeito e medo. Neste caso, é mais um ato de desafio, um de milhentos que têm sido levados a cabo pela missão aérea russa”. Segundo o major-general, quando uma aeronave está com o identificador ligado mas ainda não está dentro do espaço aéreo, “não há problema”, mas “quando [o transponder] está desligado essas aeronaves são contactadas via rádio e são avisadas de que não estão a cumprir com o que está regulamentado”. E o que acontece se persistirem com o voo - e até com a entrada em espaço aéreo que não lhes pertence? “Se persistirem e entrarem num espaço aéreo de um país soberano, em último caso as aeronaves são abatidas”, diz.

Proteger os aliados bálticos

Isto que acaba de acontecer no âmbito da NATO e que envolveu aeronaves portuguesas é, ainda assim, “uma missão normal e não está obrigatoriamente relacionada com a guerra na Ucrânia - já começou antes da invasão, são missões de rotina”, explica Isidro de Morais Pereira. No espaço aéreo dos países bálticos, uma vez que “esses países - a Letónia, a Estónia e a Lituânia - não têm eles próprios capacidade de fazer essas missões de vigilância do espaço aéreo”, os restantes membros da NATO, onde se inclui Portugal, “fazem deslocar os seus aviões para lá”, o que tem sido feito para “cumprir rotineiramente missões do policiamento”.

Nessas missões, as aeronaves, como aconteceu com os caças F-16 portugueses, podem ser chamadas “pela aproximação de uma aeronave que não é considerada amiga ou que não tenha autorização de sobrevoo - esses aviões são contactados e são dadas ordens para se afastar”, esclarece o major-general.

De acordo com a NATO, desde a adesão da Estónia, Letónia e Lituânia em 2004, os aliados da Aliança “revezaram-se no destacamento de uma capacidade de policiamento aéreo para Šiauliai para proteger a integridade territorial dos três aliados Bálticos”. Atualmente, Portugal lidera a 62ª rotação da missão Baltic Air Policing da NATO.

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