Os países nórdicos questionam se serão os próximos na lista de Putin

CNN , Análise de Luke McGee
17 mar, 17:35
Sauli Niinisto, presidente da Finlândia. AP Photo/Matt Dunham

A invasão em grande escala da Ucrânia por parte do presidente russo, Vladimir Putin, fez mais para unificar a Europa Ocidental do que qualquer outro evento desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Nações que eram neutras têm fornecido armas aos ucranianos, governos que durante anos tinham faltado às suas obrigações de gastos de despesas da NATO têm mudado de forma espetacular e países que tinham ligações económicas fortes à Rússia foram mais longe na rutura desse elo do que se tinha previsto há menos de um mês.

A união quase sem precedentes do ocidente em sanções e ações políticas e militares deixaram muitos na Europa, apesar dos horrores da guerra de Putin, otimistas de que o continente vai sair desta situação mais bem equipado para lidar com ameaças de segurança.

Isto não podia ser mais verdade do que nas nações nórdicas, que ficam na Península Escandinava: Noruega, Suécia e Finlândia. 

O destino desses três países tem recebido muita atenção depois da crise na Ucrânia, devido às suas relações únicas uns com os outros, com o resto da Europa e com a Rússia.

Tanto a Noruega como a Finlândia partilham fronteiras com a Rússia, apesar de a norueguesa ser significativamente mais pequena, com menos de 200 quilómetros, em comparação com a fronteira de 1340 quilómetros da Finlândia. A Noruega, o país mais a ocidente dos três, é membro da NATO, mas não faz parte da União Europeia, enquanto a Finlândia e a Suécia fazem parte da UE, mas não da NATO. 

Historicamente, os três têm apoiado uma abordagem não conflituosa à Rússia, desde a desintegração da União Soviética, devido à proximidade entre eles. Além disso, todos eles fazem parte do espaço Schengen da UE, o que significa que existem viagens sem fronteiras entre os três. 

São estes dois últimos factos que têm tido um papel importante no repensar da segurança da Europa, nas últimas três semanas. Como podemos ter uma política não conflituosa, quando, simultaneamente, se partilha território com a Rússia?

Um alto oficial de defesa da Europa disse à CNN que “se Putin for bem-sucedido na Ucrânia, começamos logo a perguntar quem será o próximo”. Eles referiram, devido às fronteiras abertas entre os três, que qualquer perigo à fronteira finlandesa seria “traumático” para a península. 

Estão a existir conversações ativas em ambos os países sobre a possibilidade de se juntarem à NATO, algo anteriormente visto pela Suécia e pela Finlândia como um arriscado ato de provocação contra a Rússia. Juntamente com o vizinho, a Noruega, estão a atirar o “não conflituoso” pela janela. 

“A Finlândia e a Suécia a quebrarem de repente posições há muito defendidas de não exportar armas para zonas de guerra e de enviar abastecimentos à Ucrânia tem sido o maior choque para os europeus, no que toca à resposta nórdica, e creio que também para Putin”, disse Charly Salonius-Pasternak, um investigador notável em segurança global, do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais.

Ele prevê que ainda podemos vir a assistir a ações mais ousadas destes três, devido aos compromissos na Visão para 2025 da Cooperação Nórdica no Domínio da Defesa (NORDEFCO), que define planos para uma cooperação militar mais próxima entre as cinco nações nórdicas, que têm diferentes relações com a NATO e com a UE.

“Se, de repente, a Noruega, a Suécia, a Finlândia, a Dinamarca e a Islândia estiverem a armazenar armas e unidades noutros países e a coordenar as suas ações, então, estamos no território de uma segurança dura, que opera pelas fronteiras da UE e da NATO, o que irá dificultar a vida à Rússia”, disse Salonius-Pasternak.

A severidade e a robustez da resposta dos países nórdicos trouxeram ao de cima a perspetiva de a Finlândia se juntar à NATO. 

Alexander Stubb, um antigo primeiro-ministro da Finlândia, acredita que é muito mais provável juntarem-se à NATO por Putin ter destruído o equilíbrio cuidadoso que a Finlândia tem mantido ao longo dos anos. 

“Estrategicamente, sempre quisemos deixar a possibilidade de nos juntarmos à NATO em aberto, para impedir qualquer comportamento agressivo por parte da Rússia. Mantivemos o equilíbrio do nosso exército compatível com a NATO, apesar de não sermos membros da aliança”, disse Stubb à CNN.

Contudo, ele acredita que as ações de Putin tornaram esse equilíbrio impossível. “A Finlândia é motivada pelo que chamo de medo racional. Conseguimos ver a agressão da Rússia e não queremos ser abandonados, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial”. 

Juntarem-se à NATO seria uma grande afirmação, mas existe uma discussão sobre se isso faria alguma diferença, num mundo onde existe uma repugnância universal às ações de Putin.

“Durante anos, a Finlândia e a Suécia têm tomado ações para mitigar o facto de não fazerem parte da NATO, reforçando elos com os EUA, com o Reino Unido e com o resto da comunidade transatlântica”, diz Håkon Lunde Saxi, professor associado no Colégio Universitário da Defesa Norueguesa. 

Ele diz que a NORDEFCO e a cooperação mais próxima para a segurança entre as nações nórdicas torna a região menos vulnerável, de uma forma que, em certos aspetos, transcende a adesão à UE e à NATO. 

“A mensagem mais poderosa das últimas semanas tem sido a união”, disse Saxi.

“Primeiro, a Dinamarca e a Suécia enviaram equipamento letal para a Ucrânia e, depois, a Finlândia e a Noruega seguiram os seus passos. A urgência da situação está a garantir que este tipo de cooperação acelera, o que faz com que a nossa própria proteção contra qualquer oponente seja ainda mais possível”, acrescentou. 

Deve ser difícil para Putin e para os seus cúmplices compreenderem, mas a sua guerra bárbara na Ucrânia galvanizou partes da Europa que já tinham cedido para acomodar a Rússia, numa ação anteriormente impensável. 

Quando o horror terminar, talvez ele acorde para uma Europa muito diferente, quase irreconhecível àquela que ele tinha conseguido intimidar com combustíveis e retórica. E alguns dos oponentes mais vocais podem estar à espera mesmo à sua porta.

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