Os nossos governos, os nossos exércitos e até as nossas televisões: a Rússia anda a espiar a Europa a partir do Espaço

4 fev, 17:04
Satélite (Malin Haarala/AP)

Dois grandes satélites russos andaram semanas e semanas atrás de satélites europeus que são essenciais para o nosso dia a dia

Há muito que a guerra na Ucrânia se espalhou para a Europa, ainda que não de forma convencional. Vários responsáveis europeus têm alertado para uma guerra híbrida da Rússia, lembrando ataques a fábricas em solo europeu ou a incursão de drones em espaço aéreo de países da União Europeia.

Mas a Rússia decidiu levar mais longe essa forma de fazer guerra sem a fazer. De acordo com o Financial Times, que cita responsáveis ligados à segurança europeia, dois veículos espaciais da Rússia intercetaram as comunicações de pelo menos uma dúzia de satélites considerados essenciais para as operações na Europa.

É um dado novo na relação da Europa com a Rússia, numa altura em que vários governos vão alertando que é mesmo precisando colocar a mexer a Defesa europeia, até porque há a ameaça de um abandono dos Estados Unidos.

De acordo com as fontes daquele jornal britânico, a disrupção daqueles satélites não colocou em risco apenas algumas informações sensíveis que são transmitidas daquela forma, como permitiu a Moscovo manipular a trajetória dessas mesmas informações.

E esta tendência de vigilância e intromissão nos satélites europeus tem sido particularmente evidente nos últimos três anos, reforçando-se com o natural afastamento entre Europa e Rússia que decorreu da invasão à Ucrânia.

Mas até foi antes disso que as autoridades civis e militares que controlam o espaço europeu no Espaço propriamente dito começaram a seguir o que anda a fazer a Rússia. A atenção tem sido particularmente dirigida aos Luch-1 e Luch-2, dois satélites de comunicação de Moscovo que estão em órbita e têm repetido manobras suspeitas.

Ambos fizeram aproximações de risco a alguns dos satélites mais importantes da Europa, em operações que podem afetar os serviços de todo o continente, mas também de África e até do Médio Oriente.

De acordo com os dados recolhidos em órbita e com as observações feitas por telescópios a partir da Terra, aqueles dois satélites russos andaram várias semanas dos últimos três anos atrás de informações europeias.

Só desde 2023, ano em que o Luch-2 foi lançado, 17 satélites europeus foram abordados, incluindo muitos dos que fornecem informação sensível, até porque alguns aparelhos, devido à idade que têm, não conseguem encriptar os dados que transmitem.

Ainda de acordo com o Financial Times, grande parte dos satélites abordados são utilizados pela Europa para propósitos civis, incluindo a transmissão de televisão, mas também para partilhar informações sensíveis dos governos e até comunicações militares.

O Luch-1 e o Luch-2 não têm capacidade, por si só, de destruir ou interferir nas comunicações dos satélites europeus, mas podem recolher os dados e transmiti-los a Moscovo, estando entre esses dados a informação de como é que a comunicação desses mesmos satélites pode ser interrompida.

A Europa vai continuar a acompanhar a atividade dos satélites russos, estando em cima da mesa a possível destruição de maquinaria europeia caso esse seja o último cenário disponível para evitar a recolha de dados por parte da Rússia.

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