“Os mísseis não paravam de chegar, pensei que a vida estava prestes a acabar”: Rússia lança sobre Kiev um dos maiores ataques balísticos da guerra

19 jul, 18:00
Ataque a Kiev, na Ucrânia (AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

A ofensiva russa matou pelo menos uma pessoa, feriu outras 16 e provocou incêndios e danos em vários bairros da capital ucraniana. Kiev voltou a pedir aos aliados mais mísseis intercetores Patriot, numa altura em que Moscovo intensifica os bombardeamentos e a Ucrânia amplia os ataques em território russo

A sirene começou a tocar à 1h30 da madrugada.

Pouco depois, ouviu-se a defesa antiaérea sobre Kiev e, quase sem intervalo, uma sucessão de explosões que fez estremecer os edifícios do centro histórico e disparou os alarmes dos automóveis. Durante as cinco horas seguintes, a Rússia lançou sobre a capital ucraniana um dos maiores ataques com mísseis balísticos desde o início da invasão, matando pelo menos uma pessoa e ferindo outras 16.

A ofensiva fez parte de um bombardeamento mais vasto contra a Ucrânia, composto por 41 mísseis e 125 drones de diferentes tipos, segundo a Força Aérea ucraniana. A maioria dos mísseis, entre os quais projéteis Iskander-M e hipersónicos Zircon, foi dirigida contra Kiev. Dezenas chegaram num espaço inferior a uma hora.

Quando uma segunda sirene voltou a soar, por volta das 6h30, ainda se ouviam novas explosões na cidade.

Os incêndios espalharam-se por cinco bairros. No distrito central de Shevchenkivskyi, um edifício de três andares ficou em chamas e obrigou os socorristas a procurar moradores entre os escombros. Várias pessoas foram retiradas com vida, mas o corpo de uma vítima acabaria por ser encontrado no interior. Prédios de habitação, escritórios, armazéns e uma residência de estudantes ficaram danificados noutras zonas da capital.

A onda de choque atingiu também a estação de metro de Lukyanivska, onde vários habitantes se tinham refugiado. Parte do tecto do átrio de entrada desabou e a estação teve de ser temporariamente encerrada.

No distrito de Sviatoshynskyi, quatro pessoas foram resgatadas de uma casa em chamas. Os bombeiros combateram ainda fogos em Solomyanskyi, Desnianskyi e Dnipro, enquanto as equipas de emergência percorriam apartamentos destruídos e retiravam destroços ainda fumegantes.

“Os mísseis não paravam de chegar, uns atrás dos outros. As explosões eram muito fortes, foi horrível”, contou à agência France-Presse Ganna Zagorodnia, uma moradora de Kiev de 47 anos. “Pensei que a vida estava prestes a acabar.”

Vlad estava dentro do apartamento quando uma explosão arrancou a porta da varanda e a projetou contra a sua cabeça. O morador explicou à Reuters que não tinha procurado abrigo porque vive com a avó, que não consegue andar. “Como poderia fugir e deixá-la para trás?”, perguntou, enquanto os serviços de emergência trabalhavam entre os destroços do edifício.

A defesa antiaérea ucraniana intercetou 18 dos 41 mísseis e neutralizou 108 dos 125 drones lançados durante a noite.

Por toda a cidade ouviu-se o disparo dos mísseis intercetores dos sistemas Patriot, considerados uma das poucas armas capazes de travar os projéteis balísticos russos. As autoridades não revelaram quantos foram utilizados, numa altura em que as reservas ucranianas estarão a diminuir e cada novo ataque obriga Kiev a escolher o que pode tentar abater.

Volodymyr Zelensky voltou a pedir aos aliados mais sistemas de defesa antiaérea, depois de uma nova vaga de ataques russos ter deixado mortos e feridos em várias regiões do país. Foto: Associated Press

O Presidente Volodymyr Zelensky voltou por isso a pedir aos aliados que acelerem o envio de sistemas de defesa antiaérea e das respetivas munições. “A proteção contra mísseis balísticos é, neste momento, a nossa prioridade absoluta e permanente”, escreveu este domingo na rede social X. “São necessários intercetores todos os dias.”

Os Estados Unidos e a Ucrânia alcançaram um acordo político para permitir a produção de mísseis intercetores Patriot em território ucraniano. Zelensky espera que o fabrico possa começar até ao final do ano, embora a instalação das linhas de produção e a chegada das primeiras unidades possam demorar vários meses.

Até lá, Kiev continuará dependente dos carregamentos enviados pelos parceiros ocidentais.

A urgência aumentou com a intensificação da campanha aérea russa. Só durante a última semana, de acordo com o presidente ucraniano, Moscovo utilizou cerca de 1.450 drones de ataque, mais de 1.640 bombas aéreas guiadas e 99 mísseis de diferentes tipos contra cidades e infraestruturas ucranianas.

A Rússia tem lançado drones ou mísseis quase diariamente desde que iniciou a invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, mas os ataques balísticos contra Kiev tornaram-se mais frequentes nas últimas semanas.

A ofensiva deste domingo foi a terceira de grande dimensão contra a capital em pouco mais de um mês e ocorreu depois de a Ucrânia ter atingido dois armazéns da Wildberries, a maior empresa russa de comércio eletrónico. Os ataques, realizados nas regiões de Moscovo e Tambov, mataram pelo menos oito pessoas e feriram dezenas, segundo as autoridades russas, além de provocarem incêndios de grandes dimensões.

Zelensky apresentou uma versão diferente sobre a função dos dois edifícios.

O Presidente ucraniano afirmou que eram grandes centros logísticos utilizados para fornecer componentes sujeitos a sanções destinados à produção de drones e equipamento de navegação. Os ataques, acrescentou, foram "uma resposta" aos bombardeamentos russos contra cidades, comunidades e infraestruturas civis ucranianas.

Vladimir Putin mantém a pressão militar sobre a Ucrânia, numa fase em que Moscovo intensificou os ataques com mísseis e drones contra cidades e infraestruturas civis. Foto: Associated Press

A Ucrânia tem levado a guerra cada vez mais para dentro do território russo, atacando refinarias, depósitos de combustível, instalações industriais e redes logísticas.

Também intensificou as operações contra a Crimeia, anexada ilegalmente pela Rússia em 2014, e contra navios russos nos mares Negro e de Azov. O objetivo de Kiev passa por dificultar o abastecimento das forças de ocupação e aumentar o custo económico da guerra para Moscovo.

Enquanto a linha da frente permanece praticamente imóvel, a guerra aérea, pelo contrário, continua a crescer de intensidade e a aproximar-se das capitais de ambos os países. Em junho, pelo menos 293 civis morreram na Ucrânia, o número mensal mais elevado desde abril de 2022, segundo as Nações Unidas.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundo

Mais Mundo