Possível levantamento de algumas sanções ao petróleo russo, admitido por parte de Donald Trump, poderá dar novo fôlego financeiro a Moscovo, mas dificilmente mudará de forma imediata o rumo da guerra na Ucrânia
"Estamos à beira de uma crise energética ou estamos em plena crise energética". O aviso é do major-general Agostinho Costa, que antecipa uma necessidade dos mercados perante a paralisação da circulação de cerca de um quinto do petróleo mundial. Com o encerramento do Estreito de Ormuz, países como Irão, Iraque ou Arábia Saudita, alguns dos maiores produtores do mundo, não estão a colocar grande parte do seu produto no mercado, o que resultou em subidas históricas em apenas uma semana de guerra, com o preço do barril a chegar mesmo a ultrapassar os 100 dólares, algo que não víamos desde agosto de 2022.
Ao mesmo tempo, o abastecimento de vários países da Ásia Oriental, que dependem sobretudo do petróleo importado do Médio Oriente, começou a enfrentar dificuldades. Para ser perceber o efeito, quase todo o petróleo que China e Japão importam vem precisamente daquela zona.
Foi neste contexto que o presidente norte americano, Donald Trump, admitiu levantar algumas sanções relacionadas com o petróleo russo para travar a subida dos preços. “Vamos também levantar algumas sanções relacionadas com o petróleo para baixar os preços”, afirmou após uma conversa telefónica com o homólogo russo, Vladimir Putin.
"Estamos à beira de uma crise energética"
Para o major-general Agostinho Costa, a decisão deve ser analisada sobretudo à luz da atual situação energética internacional.
“O que conta aqui não são tanto as declarações de Trump, é efetivamente a situação de necessidade que os mercados estão a ter”, afirma o especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais.
Segundo explica, a instabilidade no Médio Oriente está a afetar uma parte significativa da produção energética mundial. “A partir do momento que 20% a 25% da produção de petróleo e de gás do mundo neste momento está parada ou está a flutuar ali no Golfo Pérsico, estamos à beira de uma crise energética ou estamos em plena crise energética.”
Nesse contexto, permitir uma maior circulação do petróleo russo poderia ajudar a aliviar a pressão sobre os mercados internacionais. Talvez sabendo dessa hipótese, outros países preferem uma via diferente. Agência Internacional de Energia e G7 estão em contacto permanente tendo em vista a possível libertação de reservas de petróleo, algo que países como França já se disponibilizaram a fazer, por exemplo, não havendo uma ideia clara sobre qual a posição dos Estados Unidos.
Na mesma linha, o analista Manuel Serrano considera que a eventual decisão de Washington está diretamente ligada à necessidade de evitar uma escalada ainda maior da crise energética global.
Na sua leitura, a prioridade de Donald Trump passa por impedir que o preço do barril de petróleo ultrapasse determinados níveis que possam agravar a situação económica internacional. “A prioridade dele obviamente é que o preço do barril não esteja muito acima dos 100 dólares”, afirma.
Por isso, admite que a administração norte-americana possa avançar com medidas para aumentar a oferta no mercado, incluindo um eventual alívio das sanções ao petróleo russo.
“Se tiver que levantar as sanções à Rússia totalmente, sem ser só uma suspensão, eu acho que é óbvio que o vai fazer, porque é do seu interesse que a crise energética e financeira mundial não escale ainda mais.”
"Vitória brutal à Rússia"
Na avaliação de Manuel Serrano, um eventual levantamento das sanções representaria igualmente uma vantagem significativa para o Kremlin.
“Se ele levantar obviamente as sanções, isto é uma vitória brutal à Rússia”, afirma, explicando que o petróleo e o gás continuam a ser a base da economia russa e uma das principais fontes de financiamento do esforço militar.
“Se as sanções forem levantadas, isso enche os cofres do Kremlin para continuar a guerra na Ucrânia.”
Apesar disso, Manuel Serrano considera que a decisão não teria efeitos imediatos no campo de batalha: “Não vai alterar radicalmente a guerra na Ucrânia como está a acontecer agora, mas ajuda a Rússia a manter o seu esforço de guerra".
Na sua perspetiva, as sanções continuam a exercer pressão económica sobre Moscovo, mesmo que parte dessas restrições esteja a ser contornada.
“As sanções funcionam”, afirma, acrescentando que “não funcionam tão bem como deviam funcionar porque há muita gente a saltar as sanções”, nomeadamente através da utilização da frota-fantasma da Rússia, que só recentemente começou a ser atacada por Estados Unidos e Europa.
E reitera que a eventual flexibilização das sanções poderá funcionar como um alívio financeiro para Moscovo num momento em que a economia russa continua fortemente dependente das receitas energéticas.
“É uma boia de salvação para a Rússia”, resume.
Neste contexto, os especialistas consideram que o principal impacto da medida não seria alterar o equilíbrio militar imediato na guerra da Ucrânia, mas sim permitir à Rússia manter durante mais tempo os recursos necessários para sustentar o conflito.
“Os impactos que pode ter, fundamentalmente, é a Rússia ter acesso a recursos financeiros mais avultados que permitam continuar a alimentar a guerra”, conclui Agostinho Costa.