Os avanços da Ucrânia trazem medo e incerteza à cidade russa de Belgorod: "Está tudo mais tenso agora”

19 set, 16:00
Belgorod, Rússia (AP Photo)

A contraofensiva ucraniana trouxe uma crise humanitária, muito feridos e muitas dúvidas. Junto à fronteira com a Ucrânia, os cidadãos de Belgorod temem agora que o conflito chegue ao território russo

Pelo sim, pelo não, Denis construiu um abrigo subterrâneo no seu quintal e comprou tábuas de madeira para o caso de precisar de proteger as janelas do seu restaurante, em Belgorod. “Ninguém espera que chegue aqui”, mas, depois do choque da contraofensiva ucraniana em Kharkiv, “temos de estar preparados”, confessa o empresário russo.

Em Belgorod, há medo. As tropas ucranianas estão mais próximas e os habitantes desta cidade que faz fronteira com a província de Kharkiv são recordados desse facto ao som de cada explosão dos mísseis das antiaéreos que, com mais ou menos sucesso, defendem a cidade dos ocasionais mísseis ucranianos. O número de soldados russos que circula pelas ruas aumentou visivelmente desde que receberam ordens para retirar dos arredores de Kharkiv e isso não contribuiu para acalmar a população local.

“Todos os dias vêm dezenas de rapazes, são tantos agora [desde a contraofensiva]”, conta ao The Guardian Marina, que vende roupa camuflada no mercado central de Belgorod. “Todos têm caras tristes. Está tudo mais tenso agora”.

Junto a este mercado, o trânsito de veículos militares não para. A toda a hora é possível ver camiões pesados militares a transportar soldados e munições e blindados com a letra Z e V cobertos de lama a passar em direção à frente de combate. No sentido oposto, veem-se veículos militares com uma cruz vermelha pintada em ambos os lados, indicando tratar-se de uma ambulância militar. Os feridos estão a ser transportados para o hospital central da cidade. Esse território está interdito a civis, mas é possível ver o aglomerado de veículos militares nas imediações.

Mas as mais recentes notícias não travam um velho comerciante de agasalhos de proferir uma provocação, apontando para os seus produtos com tom desafiador: "O frio está a chegar. E os europeus também vão precisar, vão congelar!". 

Apenas a 40 quilómetros da fronteira com a Ucrânia, existe receio de que esta possa atacar território russo, embora a Ucrânia nunca tenha indicado intenção de o fazer. Tal decisão poderia ser mesmo contraprodutiva à causa ucraniana, com muitos analistas a alertar que um possível ataque ao território russo representaria um escalar do conflito e poderá dar ao Kremlin a justificação necessária para utilizar armas nucleares táticas contra a Ucrânia. Motivo pelo qual Washington se tem recusado a fornecer munições de longo alcance à Ucrânia, de forma a que estes não ataquem território russo.

Defesas antiaéreas a trabalhar em Belgorod, Rússia (AP Photos)

Para o major-general Arnaut Moreira, ações militares das forças especiais bem no interior do território ocupado pela Rússia, bem como outros aspetos do combate de guerrilha, devem ter um papel cada vez mais ativo no desenvolvimento do conflito, mas o especialista descarta uma invasão de território russo por parte dos soldados ucranianos.

Este tipo de ataques requer apenas um pequeno número de soldados e pode ter uma relação custo-benefício muito vantajosa. Os ganhos militares destas operações podem não ser suficientes para vencer a guerra, mas Arnaut Moreira recorda que “as guerras não se ganham só nos aspetos de natureza militar”.

A capacidade de introduzir uma perceção de insegurança nas populações vai ser um “elemento fundamental” para o decorrer da guerra: por um lado, “dá alento às populações ucranianas”, por outro, obriga as chefias militares russas a terem de destacar para regiões de retaguarda forças militares que podiam estar na frente de batalha. “Até ao momento, a Rússia não teve preocupações com a sua área da retaguarda. Esta zona era considerada segura. Este conjunto de ações mostra precisamente o contrário - "parece existir um completo desleixo nas regiões do interior dos territórios ocupados”, considera Arnaut Moreira.

Em Belgorod, paira no ar a sensação de que a guerra não está a correr tão bem quanto se pensava. Entrevistas no início do conflito davam conta de um estado de choque na maior parte dos habitantes destas regiões fronteiriças. Seguiu-se um aumento do fervor nacionalista, bem visível através de símbolos como a letra Z ou a famosa fita de São Jorge, com as cores preta e laranja, afixados em carros e edifícios. Agora, com a certeza de que o conflito vai ser mais difícil e duradouro do que se pensava, muitos desses símbolos desapareceram, bem como as pessoas que os afixavam.

“Todos nós temos pessoas próximas do outro lado. Os casamentos misturaram-nos a todos. Colegas de escola, casais, iam daqui para Kharkiv”, explica uma idosa, entristecida com esta tragédia. “Sou muito a favor da paz, que mais precisamos compartilhar?”, acrescenta antes de se despedir.

Mas nem toda a gente partilha o sentimento de dor. Para Ilya Kostykov, um jovem ativista de 19 anos que fundou um movimento antiguerra na região, o sentimento que reina é a apatia. O jovem passa os dias a tentar encorajar as pessoas que se opõem ao conflito a falar, mas confessa que tentar convencer os apoiantes da guerra a mudar de opinião é inútil. Nem mesmo a chegada de milhares de refugiados ou o mais recente apagão, fruto de um ataque a uma estação elétrica, serviram para mudar a situação.

“Para nós, parece que ninguém se importa até que isso nos toque pessoalmente. Até que alguém traga um caixão para sua casa, ninguém se importa”, realça o jovem.

Carrinha transporta refugiados ucranianos em Belgorod, Rússia (AP Photos)

Mas nesta cidade com pouco mais de 300 mil habitantes vive-se uma crise humanitária. Milhares de pessoas apanhadas de surpresa com a velocidade do contra-ataque ucraniano, que recuperou mais de seis mil metros quadrados, fugiram à pressa para a cidade de Belgorod, que não estava pronta para os receber. Famílias divididas e vidas deixadas para trás. Irina nasceu nesta cidade, mas o destino ditou que se casasse com um ucraniano de Kharkiv. O casal já não se encontra junto, mas o filho dos dois está “dividido entre dois países”.

Em conversa com o The Guardian, Yulia Nemchinova, uma voluntária que presta assistência num armazém onde chegam milhares de refugiados ucranianos pró-russos, mostra uma lista que contém o nome de 1.200 famílias que pedem asilo e requisitam bens básicos. Mais de seis mil pessoas precisam de bens alimentares e de higiene e de um sítio para dormir. “Belogord está a transbordar”, sublinha, garantindo conhecer um caso em que um único apartamento alojou mais de 20 pessoas.

A maior parte destas pessoas quer permanecer junto à fronteira. Quer regressar à sua casa no futuro e temem, a curto prazo, retaliação por parte de Kiev por apoiarem o regime de Vladimir Putin. Apesar do seu apoio pelo regime de Moscovo, expressam abertamente a sua frustração com o contra-ataque ucraniano e com a retirada das tropas russas, questionando por que motivo não foram avisados da retirada ou porque é que não estão a receber o devido apoio quando chegam à Rússia.

“Sentimo-nos sem-abrigo e como se ninguém precisasse de nós”, desabafa uma mulher que fugiu da cidade de Kupiansk, recentemente recapturada pelas forças armadas ucranianas. Chegada à Rússia, recebeu os 10 mil rublos que o Governo promete aos refugiados (cerca de 166 euros), mas pouco mais. “Recebi os meus 10 mil rublos, mas a minha casa era lá, e deitei tudo fora e tornei-me sem abrigo”.

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