Foram 800 militares a andar numa altura de metro e meio durante 15 quilómetros. Chegaram ao destino e surpreenderam a Ucrânia, que pode estar à beira de perder uma "moeda de troca"
Chamam-lhe a “Operação Gasoduto” e é uma das mais bem-sucedidas da Rússia em mais de três anos de guerra. Depois de meses a lutar para recuperar mais de 1.300 quilómetros quadrados do seu próprio território perdidos para a Ucrânia em poucas semanas de agosto passado, Moscovo conseguiu avanços decisivos nas últimas horas. E tudo graças à utilização de um gasoduto inativo.
São, segundo o exército russo, mais de 100 quilómetros quadrados de avanço e 12 vilas libertadas em apenas 24 horas, numa clara resposta ao acordo de cessar-fogo anunciado esta terça-feira por Ucrânia e Estados Unidos. Estes eram os dados quando Sudzha ainda pendia para o lado ucraniano, o que deixou de acontecer, com Kiev a perder o grande centro de operações em pleno território russo.
Embora garanta que ainda mantém a presença em Kursk, a Ucrânia está, diz a Rússia, “cercada e isolada”, ficando à beira de perder os 290 quilómetros quadrados que ainda controla numa área que via como vital para conseguir abordar quaisquer negociações de paz, entretanto mais próximas com o anúncio de um acordo para cessar-fogo, ainda que falte perceber o que pensa o Kremlin desse mesmo acordo.
Cerca de 800 soldados russos andaram perto de 15 quilómetros em gasodutos que outrora transportaram gás natural da Rússia para a Europa, mas que entretanto foram desligados. As tropas russas caminharam esse percurso por um pequeno (1,5 metros de altura - basta ver a imagem de capa) cano até chegarem aos arredores de Sudzha, onde uma operação relâmpago apanhou os ucranianos de surpresa.
Uma surpresa que o major-general Agostinho Costa não tem dúvidas em dizer que “fica nos anais da história militar”, depois de um avanço de três dias em condições difíceis. “Emergiram e depois foi ver o colapso da frente ucraniana. Sudzha caiu e o que sobra é terreno aberto”, reitera o militar em declarações à CNN Portugal.
É um pressing rápido de uma Rússia que já viu o inimigo aceitar o cessar-fogo e está a ser pressionada pelos Estados Unidos e em concreto por Donald Trump para também o aceitar - Steve Witkoff, enviado-especial dos EUA ao Médio Oriente tomou as rédeas desta outra guerra e vai a caminho de Moscovo para negociar, numa altura em que as coisas correm mais mal do que bem a Kiev.
“Em Kupiansk há uma ofensiva russa, no Donbass há uma ofensiva russa. Em Kursk houve um colapso ucraniano, acabou o safari e os caçadores ficaram lá. É um fracasso, um fiasco, a Ucrânia está numa situação absolutamente insustentável”, frisa Agostinho Costa.
Tudo num dia que terminou com outros dois dados: o anúncio russo de que as suas tropas regressaram à região ucraniana de Sumy, que faz fronteira com a Ucrânia e onde Moscovo não estava há quase quatro anos; a presença do presidente da Rússia, Vladimir Putin, na frente de Kursk, num sinal claro de segurança à população.
É precisamente esse o entendimento do especialista em Relações Internacionais Tiago André Lopes, que à CNN Portugal lembra que Vladimir Putin gosta pouco de arriscar a sua segurança pessoal, pelo que esta viagem, ainda para mais televisionada, é mesmo uma demonstração de que as coisas correm bem na região.
“A ida de Putin a Kursk não é uma mensagem para Washington, já que o cessar-fogo é para vigorar em território ucraniano e Kursk não é território ucraniano. É acima de tudo para dizer que o Kremlin considera que a campanha está a correr bem o suficiente. Putin não gosta muito de arriscar segurança pessoal”, aponta o especialista, antevendo que a Rússia poderá estar próxima de recuperar todo o território ocupado.
Para o major-general Isidro de Morais Pereira, a retomada de Kursk é “um dos aspetos fundamentais para que a Rússia possa aceitar as condições de um cessar-fogo temporário de 30 dias”.
É por isso, diz à CNN Portugal, que Vladimir Putin também se mostra presente, porque de repente houve um conjunto de coisas que permitiram com que tudo corresse bem à Rússia em Kursk: chegou um novo batalhão de 12 mil norte-coreanos e os Estados Unidos deixaram de partilhar informações com a Ucrânia.
“Isto pesou, naturalmente, no desenrolar das batalhas. Foi um pequeno favor que Donald Trump fez a Vladimir Putin”, vinca, lembrando também o cancelamento do envio de material militar, o que obrigou ao abrandamento do ritmo de utilização de armas.
Tudo porque, para os especialistas da CNN Portugal, a Rússia nunca deixará que haja uma confusão entre Kursk e outras regiões. Para negociar podem estar em cima da mesa Kherson e Zaporizhzhia, por exemplo, internacionalmente reconhecidas como ucranianas, mas nunca Kursk, que é mesmo território russo.
De resto, como diz Agostinho Costa, Vladimir Putin deverá exigir aos Estados Unidos algo mais, e esse algo mais é mesmo a saída da Ucrânia das quatro regiões anexadas pela Federação Russa em 2022: Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Lugansk. Este cenário implicaria, à exceção de Lugansk, que é totalmente controlada por Moscovo, o recuo da Ucrânia em largos quilómetros na linha da frente.
E é por isso que há algum ceticismo em relação à posição que a Rússia vai tomar em relação à proposta de cessar-fogo acordada entre Ucrânia e Estados Unidos, e que seria para vigorar 30 dias no imediato. Sónia Sénica, investigadora na área das Relações Internacionais, refere à CNN Portugal que este acordo “é muito mais uma pretensão norte-americana”, sendo que se pode ler muito do silêncio russo que se mantém desde o anúncio.
“Moscovo vai gerir isto com muita cautela. A Rússia não aceita que os seus assuntos sejam tratados por terceiros e a proposta terá, idealmente, de responder aos propósitos do Kremlin, o que pode irritar Donald Trump”, conclui.
O que tudo indica é que, exigisse a Ucrânia ou não, a “importante moeda de troca de Kursk”, como lhe chama Isidro de Morais Pereira, parece estar a perder-se.
