Onze horas de ataque: a "noite terrível para Kiev" após grande operação da Rússia

Victoria Butenko, Lex Harvey,Kosta Gak,Anna Chernova e Ivana Kottasová
3 jul, 09:35
Ataque a Kiev
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Foi um dos maiores ataques de sempre da Rússia e já provocou pelo menos 30 mortos

Iryna Moskaeva e os filhos saltaram da cama e começaram a correr depois de uma explosão ter atingido o seu apartamento em Kiev na madrugada desta quinta-feira, um dos muitos edifícios residenciais abalados durante um ataque russo maciço que matou pelo menos 30 pessoas na capital ucraniana.
Mas não havia para onde ir. "Todas as janelas do quarto estavam partidas e a porta estava presa - não conseguia abri-la", conta a mulher de 61 anos à CNN.

Moskaeva, que acabou por ser resgatada pelos bombeiros, diz que esta foi a segunda vez que um ataque russo danificou a sua casa. "Na primeira vez que houve um ataque destes, comecei a chorar - tremia muito", relata. Agora, sem poder entrar no seu apartamento e indo ter com familiares, está preocupada com a forma de chegar ao trabalho na segunda-feira. "Como é que vou lá chegar? Não há eletricidade, não tenho roupa para trocar, não tenho nada."

A Força Aérea da Ucrânia afirmou que a Rússia lançou quase 500 drones e mais de 70 mísseis contra o país num "ataque maciço combinado", atingindo simultaneamente a capital a partir de diferentes direções. Embora a maioria dos mísseis e drones tenham sido intercetados, um total de 33 projéteis atingiram o alvo.

As autoridades ucranianas informaram que as equipas de resposta a emergências foram mobilizadas em 59 locais da cidade para lidar com as consequências do ataque.

Os militares de Moscovo classificaram o ataque como uma retaliação aos ataques ucranianos contra as suas próprias infraestruturas civis.

Na manhã desta sexta-feira, 30 pessoas tinham sido confirmadas como mortas e pelo menos 91 ficaram feridas, segundo Tymur Tkachenko, chefe da administração militar da cidade de Kiev. As operações de busca e salvamento continuavam, com o receio de que mais pessoas estejam soterradas sob os escombros.

Os ataques danificaram dezenas de locais em toda a cidade, "a maioria deles edifícios residenciais comuns", além de uma estação de ambulâncias, um instituto de investigação, um hotel e outros estabelecimentos comerciais, afirmou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

Durante uma visita ao edifício residencial danificado de Moskaeva, em Kiev, Zelensky disse que o ataque russo destruiu 64 apartamentos e matou pelo menos três pessoas.

"O ataque foi especificamente planeado pelos russos para causar o máximo de danos", disse Zelensky num comunicado.

"Infelizmente, há escassez de sistemas antibalísticos, escassez de mísseis Patriot, e precisamos que os nossos parceiros - principalmente os Estados Unidos da América e os nossos parceiros europeus - sejam mais ativos na prestação de assistência neste sentido."

Cerca de 52.500 residentes de Kiev, incluindo 4.500 crianças, passaram a noite abrigados nas estações de metro da capital, segundo o Metro de Kiev.

"Foi uma noite terrível para Kiev", disse o presidente da câmara da cidade, Vitaliy Klitschko.

A "destruição mais significativa" ocorreu num edifício residencial em Darnytskyi, a sudeste da capital, parte do qual "foi literalmente arrancada pela tempestade", disse Klitschko. As equipas de resgate continuam as buscas por pessoas sob os escombros, entre elas uma rapariga de 15 anos e a sua família, acrescentou.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que as suas Forças Armadas lançaram um "ataque maciço utilizando armas de alta precisão e longo alcance", incluindo drones, em resposta aos "ataques da Ucrânia contra infraestruturas civis em território russo".

A Ucrânia lançou uma campanha sem precedentes com drones contra a Rússia no último mês, visando infraestruturas energéticas em ataques de longo alcance que Zelensky apresentou como estratégia fundamental para forçar Moscovo a terminar a guerra.

Na madrugada desta quinta-feira, as Forças Armadas ucranianas afirmaram ter atingido uma das maiores refinarias de petróleo da Rússia em Kstovo, a centenas de quilómetros a leste de Moscovo. Afirmaram ainda ter embatido numa ponte ferroviária sobre o rio Donets, que, segundo elas, a Rússia utiliza para atividades militares, e num posto de comando e observação russo em Kharkiv.

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter intercetado e destruído 327 drones lançados a partir da Ucrânia.

A Rússia disse que os seus ataques mais recentes visaram infraestruturas militares e energéticas em Kiev e nas regiões de Dnipropetrovsk, Poltava, Cherkasy e Chernihiv - mas a Ucrânia garantiu que a maior parte dos danos foram contra infraestruturas civis e edifícios residenciais.

Em declarações à imprensa durante a sua conferência de imprensa diária, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que Moscovo "continuará a aumentar a pressão sobre o regime de Kiev para alcançar os seus objectivos".

Fotos e vídeos mostraram incêndios em edifícios em ruínas - muitos deles blocos de apartamentos residenciais - e equipas de resgate a vasculhar grandes montes de entulho.

"Exigimos respostas internacionais firmes. Não apenas palavras de condenação, mas ações concretas para travar o terrorismo russo", declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andriy Sybiha, alertando que o número de mortos irá provavelmente aumentar.

Uma longa noite em abrigos antiaéreos

Os ataques foram prenunciados por um pedido de Zelensky, na quarta-feira, para que os residentes fossem "especialmente cuidadosos" e prestassem atenção às sirenes de ataque aéreo, alertando que o presidente russo, Vladimir Putin, estava "a preparar um ataque maciço contra a Ucrânia há algum tempo".

Os moradores encheram as estações de metro durante aquela noite, preparando-se para longas horas de ataques. As sirenes começaram a soar por volta das 20:00 locais e continuaram até à manhã seguinte, com o ataque a durar 11 horas, segundo as autoridades municipais. O alívio não durou muito - outro alerta de ataque aéreo foi acionado em Kiev pouco antes do meio-dia desta quinta-feira.

Mais de quatro anos após a invasão russa em grande escala, as cidades da Ucrânia enfrentam ataques quase diários de drones e mísseis de Moscovo. Mas as forças de Kiev também encontraram formas de retaliar contra o seu vizinho muito maior.

Numa única noite da semana passada, a Rússia informou ter intercetado 660 drones em 12 regiões - o que sugere um dos maiores ataques ucranianos da guerra.

Estes ataques penetraram mais profundamente no território russo, levando a realidade da guerra a cidades muito mais distantes das linhas da frente.

Mas os devastadores ataques aéreos de Moscovo contra a Ucrânia continuam.

No início de junho, um ataque russo no coração de Kiev incendiou um importante complexo monástico ucraniano, o Mosteiro das Grutas de Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), Património Mundial da UNESCO.

A jornalista Teele Rebane, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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