O que acontece se a Rússia deixar mesmo de vender gás natural à Europa?

8 mar, 22:34
Gás (Getty Images)

Alemanha e Países Baixos dizem que é uma linha vermelha nas sanções. Itália admite cortar as importações em 50%. Antigo presidente de França diz que é o único caminho da UE para travar a guerra. Mas eis que Putin inverteu a questão e anunciou que será a Rússia a travar exportações de matérias-primas. E Portugal? Diretamente, não seria muito afetado. Mas indiretamente sim

Ao fim do décimo terceiro dia, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia acumula anúncios de sanções, pela Europa e pela comunidade internacional, ao país governado por Vladimir Putin e a aliados como a Bielorrússia. Mas nem todas as sanções estão em cima da mesa. Uma é em particular sensível: a importação de gás natural. Enquanto a Europa debate se deve (ou pode) suspender as importações, a Rússia ameaça tomar ela a decisão e deixar de exportar matérias-primas

Se a Alemanha e os Países Baixos dizem que essa é uma linha vermelha nas sanções a ser aplicadas, a Itália admite cortar as importações em 50% no espaço de meio ano. O antigo presidente da República francês François Hollande também afirmou, num artigo de opinião no Le Monde, que para travar militarmente a invasão à Ucrânia, a União Europeia teria de parar de comprar gás natural à Rússia: este é o único caminho "para garantir a nossa própria segurança e infligir um grande revés a Vladimir Putin".

Quais podem ser as consequências se a Rússia deixar de fornecer gás natural à Europa? Como ficaria Portugal? Isto seria economicamente sustentável?

Para Pedro Ferreira, professor do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, esta decisão só faz sentido do ponto de vista geopolítica, mas pode comprometer a sustentabilidade e implicar uma fatura demasiado elevada a pagar pela população europeia.

"Embora, a curto prazo, esta medida seja imperativa, é preciso lembrar o impacto para as alterações ambientais que o uso continuado de gás natural e outros produtos petrolíferos têm. Pelo que, a médio/longo prazo, o caminho deverá ser enveredar por energias renováveis", explicou em entrevista à CNN Portugal.

O catedrático levanta uma questão importante: a chegada da primavera. Porquê? Porque com a chegada do bom tempo, a situação poderia ser combatida de melhor forma, ainda que a solução seja temporária que só possa ser aproveitada por alguns países.

"O bom tempo reduziria a necessidade de gás natural para aquecimento, mas na Europa central ou de leste, as temperaturas não se tornarão amenas tão rapidamente como em Portugal". A proximidade da primavera "ajudaria a mitigar uma eventual crise de abastecimento de gás natural", pelo menos este ano.  

O caso alemão

Para o professor Pedro Ferreira, a curto prazo será sempre muito difícil para países como a Alemanha, e outros do centro e leste da Europa - altamente dependentes do gás russo -, encontrarem alternativas imediatas. A Alemanha, relembra, já afirmou ter reservas de gás suficientes para as suas necessidades dos próximos meses. "A logística de encontrar fornecedores alternativos é um desafio complicado. Ainda assim, a urgência da crise atual poderá levá-los a acelerarem as transições para a energia renovável", disse, alertando para a morosidade destas mudanças. 

"Países como Portugal ou Espanha, que por razões geográficas têm outras fontes principais de gás natural - como o Norte de África ou França - em que uma fatia muito considerável de energia é produzida via centrais nucleares, serão diretamente menos afetados. Mas indiretamente, a subida dos preços do petróleo vai afetar toda a economia mundial, como aliás já está a acontecer".

O chanceler alemã, Olaf Sholz, disse recentemente que a energia russa era "essencial" para a vida e para o dia-a-dia dos seus cidadãos. A Alemanha é de facto dos casos mais sensíveis. "É mais uma arma de pressão que a Rússia tem sobre os parceiros internacionais", analisa Helena Ferro Gouveia, especialista em assuntos internacionais.

"É preciso perceber que a Alemanha tem uma dependência de 55% do gás russo e não é só para aquecimento das casas, isso seria um mal menor. A questão aqui é que o gás russo é usado na indústria alemã e a indústria é a coluna dorsal da economia alemã", o que significa que fazer esse corte agora, "seria muito duro para a economia alemã.

O caso português

Portugal, por exemplo, poderia reforçar a importação dos Estados Unidos através do Porto de Sines, que é um porto estratégico para o país.

No mês passado, em entrevista exclusiva à CNN Portugal, Victor Madeira, especialista em relações diplomáticas e contrainformação e subversão russas, referia isso: "Portugal pode desempenhar um papel preponderante no desagravamento da crise energética na Europa. O Porto de Sines era dos poucos que poderia receber gás natural. Poderia trazer milhões de litros de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, África do Norte e Médio Oriente, reduzindo dependência do gás"

José Félix Ribeiro, economista e doutorado em Relações Internacionais, defende que Portugal tem mantido uma estratégia de "não ter grande impacto em várias coisas" e uma delas é a questão do gás natural. "Do ponto de vista português, nós temos uma parte pequena de importação. Poderíamos importar mais dos Estados Unidos. Pode haver sempre um problema, mas não tão grande como os países de leste europeu ou mesmo como a Alemanha, apesar de estar a fazer um corte com o gás natural". 

"Para a quantidade de gás que importamos da Rússia, não penso que seja uma coisa muito determinante. A percentagem que importamos é muito mais reduzida em comparação com outros países, como Itália", acrescentou.

A alternativa para Portugal, refere o economista, seria sempre importar de países fora da Europa, à exceção da Noruega, que também poderia ser uma hipótese, mas "os Estados Unidos seria o mais interessante, por causa do Porto de Sines, que é um porto estratégico. E só não o é mais para a Europa porque a França se tem colocado contra". 

Virgílio Macedo, bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas (OROC), partilha da mesma visão. "Os franceses não tiveram uma visão estratégica. Tentaram sempre proteger a sua indústria nuclear". Numa entrevista à CNN Portugal, explicou que o Porto de Sines poderia ser "uma entrada importante de gás natural de outras proveniências", mas para isso seria preciso vontade política.

"O Porto de Sines pode ser uma solução para Portugal e para a Europa, mas a médio prazo. Nunca a curto prazo. Haja vontade politica para fazer do Porto de Sines uma porta de entrada para o gasoduto". 

Navio russo no Porto de Sines carregado de gás natural (Lusa/Tiago Canhoto)

De acordo com o bastonário da OROC, o impacto económico a nível europeu de tal decisão "seria extremamente relevante" - uma vez que a dependência do gás russo é de 40% - porque levaria a um "aumento exponencial do preço da energia e a falhas no fornecimento de eletricidade e de energia", a juntar a isto, o aumento do custo dos combustíveis.

Portugal, apesar de ser menos relevante, seria afetado "pela concorrência de outros países que importam gás". "Os fornecedores que subsidiam Portugal seriam aliciados por outros países. Logo, Portugal, numa segunda fase, ia começar a ter dificuldades em ser abastecido". 

Esta solução dificilmente seria economicamente sustentável, porque o custo de aquisição seria muito mais elevado. Portugal, por exemplo, importaria gás dos Estados Unidos, Qatar e Argélia. Ou seja, teria sempre de vir de navio, o que sai mais caro.  

"Teria um custo enorme de aquisição e quem iria pagar era o consumidor. Agora só estamos a sentir o aumento do preço dos combustíveis. Mas quando esse aumento atingir a eletricidade e o gás natural das casas e empresas, como é que conseguimos evitar? No caso dos combustíveis, existe como alternativa os transportes públicos". 

Virgílio Macedo acredita que este pode ser um passo na transição das energias renováveis, mas sempre a médio prazo. "Portugal tem excelentes condições para ter energia eólica e solar, mas tudo leva o seu tempo. Não é a curto prazo. Esperemos que haja vontade politica e pensamento estratégico, tanto ao nível de Portugal como europeu, para que se faça essa mudança. Para que a nossa dependência no futuro não seja a que é presentemente e que nos torna voláteis". 

Questionado sobre um eventual corte de abastecimento de gás e de petróleo russo na Europa, o ministro português dos Negócios Estrangeiros foi peremptório ao dizer que Portugal "não tem consequências diretas", mas lembrou que há membros da União Europeia ainda muito dependentes e que é necessário diminuir essa "dependência".

"O que posso dizer aos portugueses é a verdade dos factos: primeiro, fomos fazendo o nosso trabalho no sentido de tornar Portugal cada vez menos dependente de energia fóssil. Isso significa que, neste momento, da eletricidade consumida em Portugal, 60% já decorre de fontes renováveis de energia produzidas em Portugal: da energia hídrica, da energia eólica e da energia solar. Como não somos produtores nem de gás, nem de petróleo, importamos de um conjunto diversificado de países situados quer nas Américas, quer em África e na Europa e, graças a isso, a nossa exposição atual ao gás e petróleo russo é muito baixa", explicou Augusto Santos Silva. 

Augusto Santos Silva (Lusa/Manuel de Almeida)

As ameaças russas 

A Europa importa cerca de 40% do seu gás natural da Rússia. A Alemanha, a maior economia do bloco, está particularmente exposta: a Rússia fornece 55% do seu gás natural. Áustria, Hungria, Eslovénia e Eslováquia obtêm cerca de 60%, enquanto a Polónia obtém 80%.

Com a possibilidade iminente de uma proibição ou redução na importação de petróleo ou gás russo, Moscovo já fez questão de ameaçar com retaliações. "É absolutamente claro que uma rejeição do petróleo russo teria consequências catastróficas para o mercado global", disse o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, numa declaração na televisão estatal. "O aumento dos preços seria imprevisível. Seria de 300 dólares por barril, se não mais", acrescentou, citado pela agência Reuters. Como se não bastasse, o responsável do Kremlin ameaçou ainda com o encerramento do principal gasoduto para a Alemanha.

"Os políticos europeus precisam de avisar honestamente os seus cidadãos e consumidores do que devem esperar. Se quiserem rejeitar o fornecimento de energia da Rússia, vão em frente. Estamos prontos para isso. Sabemos para onde podemos redirecionar a produção", disse Alexander Novak. 

A Comissão Europeia propôs, esta terça-feira, eliminação progressiva da dependência de combustíveis fósseis da Rússia antes de 2030, com aposta no GNL e nas energias renováveis, estimando reduzir, até final do ano, dois terços de importações de gás russo.

"A Comissão Europeia propôs hoje um esboço de um plano para tornar a Europa independente dos combustíveis fósseis russos muito antes de 2030, a começar pelo gás, à luz da invasão russa da Ucrânia", anunciou a instituição.

A Rússia é o principal fornecedor de gás para a Europa, especialmente para o centro e leste do Velho Continente, e o início da guerra fez subir o preço no mercado europeu. Desde 23 de Fevereiro, dia anterior à invasão da Ucrânia, o preço desta matéria-prima triplicou, tendo passado de 87,5 euros por MWh para os atuais 260 euros.

Desde o início do ano, o custo multiplicou-se por quatro e por dezasseis se o compararmos com os 16,3 euros por MWh que custava há um ano. O aumento do gás é a causa do aumento de preços nos mercados grossistas de eletricidade da Europa.

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