O melhor resultado da cimeira do Alasca é algo que a Rússia nunca quis

15 ago 2025, 08:00
Donald Trump e Vladimir Putin na Finlândia, em 2018 (AP)
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Numa altura em que a guerra na Ucrânia se aproxima de um ponto de viragem, a cimeira de Anchorage, no Alasca, coloca à prova a abordagem pessoalizada de Donald Trump para resolver conflitos globais

"Não vai acontecer nada até eu e Putin nos encontrarmos", afirmou Donald Trump, em maio, momentos antes de as delegações da Rússia e da Ucrânia se encontrarem na Turquia para tentarem negociar um acordo de paz. A frase do presidente americano, proferida a bordo do Air Force One, reforça a convicção de Trump de que a sua relação pessoal com líderes mundiais é suficiente para desbloquear soluções para conflitos globais.

Essa teoria vai ser colocada à prova na base militar de Elmendorf-Richardson, em Anchorage, na remota região do Alasca, numa altura em que a guerra no terreno está a chegar a um ponto crítico. Mas o resultado da cimeira pode ser algo que o Kremlin nunca quis. 

Donald Trump prometeu que "vai haver consequências muito graves" caso o presidente russo, Vladimir Putin, não aceite colocar um fim à sua invasão da Ucrânia, que caminha para o quarto ano e já fez mais de um milhão de baixas, entre mortos e feridos, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank norte-americano. O presidente dos Estados Unidos não elaborou que consequências seriam, mas não seria a primeira vez que Trump ameaça a Rússia na véspera de uma negociação sem qualquer consequência.

No passado, Trump estabeleceu vários prazos para que a Rússia e a Ucrânia chegassem a um cessar-fogo. Em maio de 2025, Trump exigiu um cessar-fogo em duas semanas, ameaçando sanções. O prazo foi ultrapassado sem consequências. Após o fracasso inicial, Trump estabeleceu um novo prazo de duas semanas, mas o cessar-fogo voltou a não se materializar. Frustrado com Putin, o presidente americano impôs um novo limite de 50 dias, que acabariam por ser encurtados para dez dias. Esse último prazo acabaria também por ser ultrapassado sem qualquer consequência, após o presidente russo ter acordado encontrar-se no Alasca com Trump. 

"O presidente americano tem falado muito e feito muitas ameaças, mas em termos de ações não temos visto uma pressão eficaz contra a Rússia. Um exemplo disso foram os prazos estipulados para sanções contra a Rússia. Esses prazos foram dados, mas, neste momento, é como se esses prazos não existissem. Há uma aqui uma estratégia de Putin que parece estar a funcionar", explica à CNN Portugal Daniela Melo, especialista em política norte-americana.

Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, com o fim de todas as guerras como missão, Vladimir Putin tem demonstrado habilidade em esquivar-se das ameaças do presidente americano. Com a experiência de antigo agente dos serviços secretos soviéticos, o presidente russo está a "atacar" a cimeira em dois vetores que têm demonstrado obter resultados positivos, no passado: explorar a postura transacional da administração americana e massajar o ego do presidente americano. 

A presença de algumas das principais figuras da economia russa, como o ministro das Finanças, Anton Siluanov, e o CEO do Fundo de Investimento Direto Russo, Kirill Dmitriev, na delegação, indica que Putin se prepara para oferecer a Trump vários incentivos económicos, que podem passar pelo acesso a recursos naturais russos ou a acordos comerciais demasiado vantajosos para que o presidente americano os consiga recusar. Alexander Dugin, influente filósofo russo, diz mesmo que o verdadeiro sucesso de Putin no Alasca passa por fazer com que a Ucrânia não seja tema de conversa.

Ao mesmo tempo, Vladimir Putin começou imediatamente a elogiar os esforços de paz do presidente norte-americano, uma técnica cada vez mais utilizada por aliados e adversários que pretendem evitar a ira do chefe da Casa Branca. O presidente russo elogiou os esforços "enérgicos e sinceros" da administração Trump para travar a guerra na Ucrânia e deu a entender que Moscovo e Washington DC poderão chegar a um acordo sobre o controlo das armas nucleares durante a cimeira que se realiza esta sexta-feira no Alasca. Putin demonstrou mesmo estar mais interessado em chegar a "acordos na área do controlo das armas estratégicas ofensivas" do que em encontrar as condições para o cessar-fogo no campo de batalha exigido por Trump. 

"Putin conseguiu com esta reunião ganhar alguma legitimidade no sistema internacional. Não o podemos subestimar, Putin é um estratega, um homem que sabe valer as suas posições", afirma Helena Ferro de Gouveia, especialista em Relações Internacionais, em declarações à CNN Portugal. 

Se dúvidas existiam, o Kremlin tratou de clarificar que a cimeira não produzirá resultados concretos. Dimitri Peskov, porta-voz da presidência russa, disse que "nenhum acordo será assinado" em Anchorage, sugerindo que Moscovo parte para a reunião com “boa vontade política demonstrada pelos presidentes de ambos os países para resolver os problemas através do diálogo” e que serão abordadas “as questões mais difíceis". Essa posição reflete a estratégia de Putin de evitar compromissos vinculativos enquanto mantém a pressão militar no leste da Ucrânia, especialmente em Donetsk, onde as forças russas intensificaram ofensivas.

"Já ninguém fala do isolamento internacional da Rússia ou da nossa derrota estratégica", escreveu Alexander Kots, um proeminente blogger militar pró-Kremlin no seu popular canal nas redes sociais, acrescentando que a reunião no Alasca tinha "todas as hipóteses de se tornar histórica".

Para Moscovo, a cimeira é uma oportunidade de normalizar relações com os EUA e evitar sanções mais severas, mas sem ceder nas suas exigências maximalistas. A Rússia continua a exigir que a Ucrânia ceda as regiões de Donetsk, Lugansk, Kherson, Zaporizhzhia e Crimeia. Além disso, insiste que Kiev abandone as suas aspirações de adesão à NATO, algo que impediria futuras invasões russas. No entanto, Putin ficaria satisfeito com um resultado que ditasse o afastamento dos norte-americanos do conflito, deixando a Ucrânia à mercê do apoio da União Europeia. 

"A Ucrânia continua muito dependente da ajuda americana e se o presidente americano se virar contra Zelensky e deixar de fornecer armamento isso pode até culminar numa derrota no terreno", explica Daniela Melo. 

Mas os líderes europeus garantem que o presidente americano procura apenas um cessar-fogo e não uma troca de territórios, como foi inicialmente sugerido pelo seu principal enviado especial para o conflito, Steve Witkoff. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, admitiu mesmo que novas sanções ou tarifas secundárias contra empresas que apoiam a indústria petrolífera russa podem ser aumentadas caso a reunião entre os dois não corra bem. 

A Casa Branca, por sua vez, baixou as expectativas em torno do encontro desta sexta-feira. A porta-voz da administração americana disse que a cimeira vai ser "um exercício de escuta" por parte de Donald Trump para "sair com uma melhor compreensão" de como a guerra poderá acabar. Espera-se que isso aconteça durante a conversa a sós que os dois presidentes vão ter, com a ajuda de intérpretes, antes de continuarem as conversações durante um almoço de negócios. No final, os presidentes vão dar uma conferência de imprensa conjunta, embora Trump tenha aberto a porta a declarações a solo, caso o encontro corra mal.

Colocado à margem do encontro, Zelensky rejeita qualquer concessão territorial, sublinhando que não poderão ser tomadas decisões territoriais sobre a Ucrânia sem a Ucrânia. Mas o risco para o Kremlin está noutro lugar. "Este encontro abrirá caminho para outro", declarou o presidente norte-americano à estação Fox News, insistindo que um segundo encontro, com os líderes russo e ucraniano “será muito, muito importante, porque será um encontro" em que os dois líderes "chegarão a um acordo” sobre o conflito. 

O verdadeiro risco para Putin na cimeira não é a assinatura de um acordo, mas a possibilidade de um encontro trilateral que inclua Zelensky, algo que Trump tem defendido. Para o Kremlin, esta possibilidade pode surgir como uma espécie de armadilha diplomática, que arrisca minar uma parte significativa da narrativa russa na guerra. Ao colocar Zelensky na mesma mesa de Vladimir Putin, Trump força Moscovo a reconhecê-lo como um interlocutor legítimo. Putin tem-se consistentemente referido ao governo de Zelensky como uma "junta" ou um regime "neonazi" para justificar a invasão e evitar um diálogo direto.

Para Putin, a vitória não está em garantir concessões económicas ou massajar o ego de Trump, mas em manter a Ucrânia à margem das negociações de paz, fragmentando o apoio internacional a Kiev. Se a cimeira de Anchorage abrir caminho para um encontro que inclua Zelensky, então o resultado mais irónico seria um avanço significativo para a paz - mas sob termos que a Rússia sempre rejeitou. A imprevisibilidade de Trump, que ignora os prazos e as exigências que ele mesmo impõe, pode, afinal, ser a variável capaz de alterar o rumo das negociações de paz.

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