O ataque desta semana foi excepcionalmente letal, em parte devido aos alvos escolhidos por Moscovo - edifícios residenciais - e às armas utilizadas, incluindo mísseis balísticos, drones suicidas e drones a jato
Um feroz ataque russo a Kiev, na quinta-feira, causou a morte de pelo menos 30 pessoas, tornando-se o terceiro ataque mais mortífero contra a capital ucraniana desde o início da guerra.
A Ucrânia tem sofrido centenas de ataques aéreos em grande escala, mas o ataque desta semana foi excepcionalmente letal, em parte devido aos alvos escolhidos por Moscovo - edifícios residenciais - e às armas utilizadas, incluindo mísseis balísticos, drones suicidas e drones a jato.
Os drones a jato, como o UAV Geran-4, são uma adição relativamente recente ao arsenal da Rússia, tendo sido avistados pela primeira vez no início do ano.
Podem voar a velocidades de até 500 quilómetros por hora, evitando as defesas da Ucrânia. São também demasiado rápidos para as equipas de fogo móvel de Kiev e só podem ser abatidos com mísseis terra-ar ou caças a jato.
"O inimigo está a utilizá-los com cada vez mais frequência, e a percentagem de Shaheds a jato no seu arsenal está a aumentar, o que esgota os (nossos) recursos", explicou Yurii Ihnat, porta-voz da Força Aérea ucraniana. Ter de utilizar mísseis contra drones coloca uma pressão adicional sobre os recursos da Ucrânia, que já se encontram sobrecarregados.
Analistas do Institute for the Study of War (ISW), um organismo de monitorização de conflitos sediado nos EUA, afirmam que a utilização de drones a jato pela Rússia é mais um exemplo de como Moscovo recorre a inovações táticas e tecnológicas em sistemas de drones para "maximizar os danos aos civis durante os ataques à Ucrânia".
"Os drones mais velozes, que são mais difíceis de intercetar pela Ucrânia, irão provavelmente causar mais danos à população civil, tal como aconteceu no passado com outras adaptações do rsenal de ataque", afirmou o ISW numa nota publicada na quinta-feira.
Ihnat diz que o ataque da Rússia na quinta-feira foi também único porque 28 dos 77 mísseis que lançou eram mísseis balísticos, o que, segundo ele, constitui um "número muito, muito elevado".
O Ministério da Defesa ucraniano afirmou que mais de 90% dos mísseis de cruzeiro e 90% dos drones de ataque do tipo Shahed foram intercetados durante o ataque.
Entre os mísseis lançados pela Rússia na quinta-feira encontrava-se o Zircon, um míssil de cruzeiro hipersónico anti-navio e de ataque terrestre, disse Ihnat. "Voa como um míssil balístico a uma velocidade muito elevada, e apenas o sistema Patriot consegue intercetar um míssil deste tipo", explicou.
A interceção de mísseis balísticos continua a ser um grande desafio porque, embora a Ucrânia disponha de várias baterias Patriot, enfrenta uma escassez persistente de mísseis para as mesmas. Esta escassez foi agravada pelo conflito no Irão, que levou a que algumas entregas inicialmente destinadas à Ucrânia fossem desviadas para o Médio Oriente.
O Ministério da Defesa admitiu entretanto que, embora tenha contratos em vigor para obter novos fornecimentos de centenas destes mísseis no futuro, enfrenta agora uma escassez urgente. O ministério diz ter enviado cartas a cerca de 40 países, solicitando-lhes que lhes fornecessem mísseis Patriot dos seus stocks o mais rapidamente possível, "em troca de futuras entregas já contratadas para a Ucrânia".
O ISW diz que é provável que a Rússia estivesse a preparar o ataque de quinta-feira há já algum tempo, tendo armazenado drones e mísseis para o efeito em junho. Tendo realizado, em média, um ataque massivo e vários ataques de menor dimensão contra a Ucrânia todas as semanas entre janeiro e maio, Moscovo lançou apenas dois ataques de maior envergadura contra a Ucrânia em junho.
A Rússia conseguiu aumentar a sua produção de drones e tem capacidade para produzir milhares de unidades por mês, o que lhe permite lançar ataques em grande escala a cada dois dias.
"As forças russas poderão estar a acumular drones, nomeadamente para realizar ataques em grande escala com maior frequência numa altura posterior a escolher pelo Kremlin, especialmente se a Rússia acreditar que pode esgotar ainda mais as defesas aéreas ucranianas", explica o ISW na sua nota.
Edifícios residenciais atingidos
As autoridades de Kiev afirmam que cerca de 25 locais em toda a capital foram atingidos, grande parte dos quais situados em zonas residenciais. Isso terá provavelmente contribuído para o número de mortos excepcionalmente elevado. Um míssil russo destruiu um edifício residencial de 64 apartamentos, matando várias pessoas e deixando dezenas de famílias sem casa.
O Ministério da Defesa russo afirmou numa declaração na quinta-feira que o ataque contra Kiev foi uma retaliação e teve como alvo "instalações militares-industriais e complexos de combustível e energia" em Kiev - uma declaração contrariada pelo facto de os alvos civis terem sofrido danos extensos.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que o ataque danificou mais de 130 edifícios residenciais e acusou a Rússia de atacar infraestruturas civis "todos os dias e todas as noites". "O terror é o único argumento que lhes resta para não porem fim à guerra", declarou.
As operações de busca e salvamento prolongaram-se até sexta-feira, havendo ainda várias pessoas ainda desaparecidas, incluindo os pais de um rapaz de 10 anos que foi resgatado na quinta-feira.
No entanto, o número de mortos poderia ter sido muito superior se não fosse um aviso emitido pelas autoridades de Kiev na noite de quarta-feira. Os serviços secretos ucranianos alertaram para um ataque iminente e Zelensky implorou aos residentes que fossem "especialmente cuidadosos" e não ignorassem as sirenes de ataque aéreo, o que levou dezenas de milhares de pessoas a procurar abrigo.
O Metro de Kiev informou que cerca de 52.500 pessoas, incluindo 4.500 crianças, passaram a noite abrigadas nas estações de metro da capital.
