"O intervalo na guerra acabou": Rússia volta a atacar Kiev - retaliação ou nova escalada?

15 nov, 23:26
Fumo de uma explosão em Kiev (Rodrigo Abd/AP)

A Rússia voltou a lançar mísseis sobre Kiev, após uma sucessão de eventos políticos - e isso envia uma mensagem não só a Zelensky, mas ao panorama mundial

A guerra voltou esta terça-feira à capital ucraniana. No total, acredita-se que foram lançados pela Rússia cerca de 100 mísseis em apenas algumas horas, naquele que foi um ataque à escala nacional. Os alvos foram sobretudo instalações de infraestrutura crítica, mas edifícios residenciais também foram atingidos, como aconteceu em Kiev.

Facto é que desde 24 de fevereiro que os bombardeamentos a cidades ucranianas têm sido regulares e até vistos como "comuns". Contudo, este último está a ser encarado com uma dimensão diferente. Aliás, se olharmos para o plano militar desta guerra, o que estamos a assistir é que a nível tático continuava a haver operações, mas a nível operacional - de ações com mísseis e Kamikaze, por exemplo - estava parado.

"No período desde que Jack Sullivan foi a Kiev e chegaram a uma espécie de entendimento sobre a região de Kherson e de alguma boa vontade para a negociação, um dos pré-requisitos é que os ataques às estruturas de energia parassem." E foi isso que aconteceu. "Nas últimas duas semanas praticamente não vimos ataques", afirma à CNN Portugal o major-general Agostinho Costa.

Até esta terça-feira. Porquê? De acordo com o general Leonel de Carvalho e com o major-general Agostinho Costa, tem tudo a ver com o contexto em que acontece - e com a mensagem que a Rússia está a passar.

O general Leonel de Carvalho atribui a mais recente ofensiva à retirada de Kherson e a "todo o aproveitamento que é feito pelas autoridades ucranianas" (de recordar que o próprio Zelensky visitou a cidade recém-libertada há dias). "Depois de a Rússia ter perdido aquela cidade - e que isso possa ser interpretado como uma derrota - isso será um sinal internacional que, apesar de tudo, a Rússia continua com capacidade de atacar e retaliar", afirma.

Mas não só: poderá ainda ser um sinal que é dado também a todas as grandes potências que estão reunidas em Bali para a cimeira do G20, bem como uma reação ao encontro entre Joe Biden e Xi Jinping, e à reunião entre os chefes máximos da espionagem norte-americana e russa na Turquia. Tudo numa questão de dias. 

"Foi um conjunto de personalidades políticas relevantes a referir a importância da paz. Pelos vistos está toda a gente de acordo com uma negociação para a paz, resta saber como", observa Agostinho Costa, que prossegue: "E Zelensky apresentou a sua posição, o que é absolutamente compreensível." "O que nos parece é que esta é uma resposta da Rússia", adverte. 

"É os russos a explicarem que as condições que Zelensky apresenta não são aceitáveis", acredira o major-general.

"O intervalo acabou"

E foi aqui que o "intervalo acabou", sugere Agostinho Costa. Há agora uma campanha de mísseis "tal como se vê no boxe: atingir onde dói mais". E a uma escala maior, com pelo menos 18 localidades atacadas. "Estamos a falar de um volume muito grande e um ataque na região centro e oeste", que já não eram atingidos há algum tempo.

Edifício destruído após ataque russo em Kiev (AP Photo/Andrew Kravchenko)

E o alvo continua a ser a infraestrutura energética que serve a população. Kiev está com cortes, Lviv também, bem como Kharkiv.  "É agravar uma situação que só por si já é crítica." 

Então qual será a leitura política desta mensagem da Rússia? Bom, de acordo com Agostinho Costa, o mundo viu Dmitry Peskov (o porta-voz do Kremlin) a dizer que a Ucrânia não queria negociações. "Compreende-se perfeitamente que tem de haver uma mudança de narrativa. A guerra é a continuação da política por outros meios", diz o especialista militar.

De qualquer forma, Putin tem sempre um tipo de estratégia que é difícil de acompanhar", adverte o general Leonel de Carvalho , lembrando que, dentro da propaganda russa desde a era soviética, esta mensagem não só aproveita a reunião, mas poderá ter um simbolismo maior.

"A guerra não ia acabar. Agora estamos na argumentação da força: vocês não cedem, nós bombardeamos", afirma, apontando que tudo indica que a Ucrânia irá assistir a ataques mais graves ao nível do terreno. "Estou convencido que os russos vão continuar a degradar o sistema de energia. E vão continuar a fazê-lo." 

"É um tipo de pressão diferente porque, em boa verdade, estamos no fio da navalha", afirma Agostinho Costa.

O inverno está a chegar e, na Ucrânia, faz-se sentir de uma forma muito dura. E a Rússia sabe disso melhor que ninguém, ao reatar o nível operacional da guerra que estava parado. "Estes ataques são quase para refrescar a memória: nós temos a capacidade de vos pôr às escuras", aponta Agostinho Costa.

Também o general Leonel de Carvalho acredita numa questão simbólica. "Estamos a falar da capital da Ucrânia. E a Rússia está numa situação em que tem somado desaires atrás de desaires e tem de mandar uma mensagem não só para o mundo, mas também para dentro - dizendo que 'nós tivemos de retirar de Kherson, mas continuamos a ter poder e a atacar."

"É reavivar a memória da possibilidade de uma escalada", considera o major-general, concluindo: "E é a população que paga a fatura."

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