O homem que fez parte da Ucrânia virar-se contra Zelensky quebrou o silêncio

30 jul, 08:11
Mykhailo Fedorov, ministro da defesa da Ucrânia. AP
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Mykhailo Fedorov entende que há um conflito de gerações e que as suas ações no Ministério da Defesa abalaram o que estava instituído

Adorado nas ruas, o ex-ministro da Defesa da Ucrânia está pronto para voltar a assumir o cargo, mas a cúpula de Kiev vai assobiando para o lado, acreditando que a mudança na chefia das Forças Armadas é suficiente para conter uma revolta contra as remodelações imprimidas pelo presidente.

Agora, Mykhailo Fedorov decidiu romper o silêncio numa entrevista publicada já ao final desta quarta-feira, onde acusa o sistema militar de estar por detrás da sua saída do cargo.

Em declarações ao Pravda ucraniano, o jovem militar que introduziu a modernização nas Forças Armadas da Ucrânia refere que essas mesmas mudanças abalaram o sistema instituído, o que, na sua visão, não foi bem recebido.

Mykhailo Fedorov vê mesmo essa como a principal razão para a sua saída, que espoletou uma onda de protestos contra o governo de Volodymyr Zelensky como ainda não tínhamos visto em todos estes anos de guerra.

“A razão [para a saída] está ligada ao processo de aquisições, aos concursos, ao facto de termos começado a reformular os processos nesta área”, afirmou o militar de 35 anos, que ficou conhecido por revolucionar a forma como as Forças Armadas trabalham, introduzindo uma componente muito mais tecnológica.

Essas mudanças chocaram com a visão de homens de outra escola e geração, nomeadamente o chefe das Forças Armadas de então, Oleksandr Syrskyi, que foi o primeiro nome que Volodymyr Zelensky deixou cair na tentativa de conter os protestos.

Mykhailo Fedorov lamenta a existência daquilo que entendeu terem sido resistências à mudança, o que “causou uma insatisfação significativa entre muitas pessoas, que começaram a exercer influência constante e a espalhar negatividade, não apenas em torno do presidente, mas de todo o espaço mediático”.

“A nossa tarefa era reparar a raiz do problema o mais rápido possível”, sublinhou, justificando dessa forma que a sua primeira medida em seis meses no cargo tenha passado pela mudança no sistema de aquisições militares.

“Primeiro, lançar concursos. Em segundo, restruturar o sistema de gestão do Ministério da Defesa e escolher as pessoas que trabalhavam de forma diferente, com base nos objetivos com que chegámos”, reiterou.

Durante esse processo, de acordo com o ex-ministro, foi possível assistir a pressões “de todos os lados”, o que “significava que tínhamos de simplesmente reconstruir as bases para resolver o problema”.

Isso não foi possível porque Volodymyr Zelensky introduziu a remodelação governamental, fazendo subir ao cargo de ministro da Defesa o antigo chefe dos serviços de segurança, Yevhenii Khmara.

Apanhados de surpresa com a saída de Mykhailo Fedorov, muitos jovens militares que acreditavam que a mudança no rumo da guerra a favor da Ucrânia também se devia ao ministro que acabava de ser demitido decidiram agir, naquela que foi a primeira demonstração do fim da popularidade e do consenso da Ucrânia em torno do seu presidente.

Segundo o próprio Mykhailo Fedorov, a saída foi-lhe comunicada menos de uma hora depois de uma reunião do partido Servo do Povo no parlamento. O responsável garantiu também que não havia qualquer conflito com Oleksandr Syrskyi, ainda que essa tenha sido uma das razoes apontadas por Volodymyr Zelensky.

“Foi mais um conflito em termos de pontos de vista. Temos uma certa visão da guerra com que chegámos. Nós, como Ministério da Defesa, não bloqueámos quaisquer decisões das Forças Armadas ou do líder”, reiterou.

Com a situação ainda num impasse, Mykhailo Fedorov admite um regresso, mas apenas para voltar onde estava, à frente do Ministério da Defesa.

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